Translate

domingo, 23 de maio de 2010

Recordar - O Vento, o Caos e Maria

(recordar)

Maria estava agora perdida no caos… mais do que nunca…sem ao certo, saber porquê…

Ainda atordoada, perguntava a si própria baixinho porque não conseguia descortinar o caminho de volta para casa. Aquela casa, branca, térrea, com janelas de portadas verdes escuras, um alpendre, e com muito espaço à volta preenchido por alfazema, a seu tempo, salpicado de campânulas e papoílas, que lhe traziam tantas e tão boas recordações.

A sua casa era a única que permanecia no mesmo sítio desde o último tornado, que levara muita coisa pelo ar. Maria, procurava esquecer o assobio do vento enraivecido a soprar aos seus ouvidos. Tinha aquele som gravado e tinha medo. O vento estava zangado, muito zangado. Em plena sinfonia desenfreada, Maria ainda tentou perguntar-lhe de mansinho o porquê de tanta ira. Mas ele nunca a ouviu, porque assobiava mais alto que a sua voz doce e meiga, que só era perceptível no silêncio. Quando cruzavam olhares, ela e o vento, voltava com os olhos a questiona-lo, mas era impossível, porque ele rodopiava, rodopiava e rodopiava, sem nunca abrandar. Nunca lhe respondeu.

Os campos e as sementes, os cheiros, as lembranças doces e amargas, os amigos de sempre, as pessoas em quem confiava, os sorrisos fantásticos que outrora víramos estampados em rostos de felicidade, os sonhos poucos, muitos ou nenhuns, esvoaçavam como se a possibilidade de sonhar não fosse pertença de todos em igual modo e quantidade. O tornado levara almas e corpos, gentes, vidas, sem qualquer preferência por raça, credo ou cor. Levou as conchas todas que apanhou, praias inteiras, golfinhos, cavalos de pau e marinhos…

Retratos de família, brincadeiras de criança, amores permitidos e proibidos, vestes, ficando nuas e sentindo um frio de arrepiar. Levara também as árvores, os pássaros e os seus ninhos e as crias de todas as espécies animais e vegetais…

Sem perder tempo, o vento ciclónico e terrivelmente apressado levou consigo também todos os filhos, as Mães, os Pais, o Pai Natal, o trenó e as renas, as prendas, os doces, o que tanto queríamos e o que nunca tínhamos desejado de bom e de mau e levou também o ano anterior.

Levou A música… que profunda tristeza sentiu Maria, … a música fazia-lhe tanta falta.
As pessoas interessantes que conheceu,
A magia das coisas, as coisas boas e as coisas más.

Consigo, o vento levou ainda os mares, os rios, os lagos e os charcos. As fontes por isso secaram, não queriam ficar sozinhas. Os peixes coloridos e os prateados também tinham desaparecido, abriram a porta e saíram em fila, uns atrás dos outros, pelos céus...

As nuvens empurravam-se, umas às outras, carregavam em cima aviões com pessoas, pessoas com histórias, histórias de famílias, de laços e de “nós” consanguíneos.

Os sacos que nunca serviram para outra coisa, aproveitaram para transportar o que restava, as coisas mais humildes. Levaram brinquedos novos e velhos, apanhavam tudo com uma das asas e metiam dentro de si tudo o que lhes acontecia pela frente.

Maria não queria acreditar que um tornado fosse capaz de anarquizar tudo e que após um período de trégua, voltasse a baralhar e dar de novo.

Percebera, então onde estava. Permaneceu o tempo todo dentro de casa, refugiada num canto da sala. Cerrava os olhos, para de vez em quando matar a maldita curiosidade por entre os dedos e ver na direcção de uma das três janelas ainda fixas às paredes da sala…o que continuava acontecer…

Maria olhava em volta, e via o caos e o vazio.
….

Por último, os seres Tornados homens levaram as palavras e com elas, Maria deixou de poder dizer o que quer que fosse, desaprendeu de soletrar e tombou silenciosa e inerte.

O Seu último olhar foi para ver Maria, voar de si própria, dançando com o vento e esboçando um sorriso.
-Adeus, Maria - disse a si própria.


Amigos,

passem pelo blog "Viver é Pura Magia" que está nos blogs que sigo...Surprise!

Obrigado Ricardo, ficou maravilhoso acompanhado da música de Bob Macfferrin....é para mim uma honra que pegue num post meu e o dê a ler a todos os seus seguidores. Bjs, vamo-nos encontrando por aqui.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

...observada (II)...


  


- Não é por acaso que me chamo Joana, mas ainda não é o momento para vos revelar...

- Hoje andei em círculos...
- Perdida nos meus pensamentos e nas tuas palavras..."procurei-te" por toda a parte... 




...o último agasalho que vestiu esta primavera, muito antes deste calor apressado...Joana, despediu-se da última brisa, fazendo dele a sua casa e  o seu botão...


- Sonhei contigo... No meu sonho...abracei-te...beijei-te e amei-te como nunca outra vez...


...atenta à leitura e àquela passagem em particular, do livro que tinha entre mãos, Joana lia em voz alta, "...um dia vou encontrar-te e com a serenidade e a curiosidade que me  caracteriza vou explicar tudo, para que não restem dúvidas entre nós. Explicar, que os equívocos de código por que passamos foram justificados pela distância e pela proximidade que nos impusemos e que de forma inconsciente deixamos proliferar... pretendo deixar claro, que não era essa a minha intenção, nunca foi, desde o início de tudo... 

Procuro apenas a simplicidade, não a complexidade das coisas... procurei em ti um amigo, apesar de toda a gente me dizer que a amizade entre um homem e uma mulher é impossível de acontecer (essa afirmação para mim, nunca fizera sentido...) por isso, mais uma vez voltei a tentar...

Isso, não chegou verdadeiramente acontecer...ultrapassamos o espaço e o tempo e até hoje a dúvida permanece...O que é que ambos procurávamos?



...procurávamos!!! apenas um amor puro e são, apaixonado, onde reinasse o carinho, a cumplicidade, um amor abandonado à ternura, aos momentos, sem necessidade de tréguas porque as guerras não existiriam, mimos,... Sim, um amor ardente também, sempre que quiséssemos... porque, o fogo faz parte de mim e de ti... e de toda a gente que não procura apenas prazer, mas também um coração onde se aninhar."

Joana, fazia uma pausa para pensar no que acabara de ler..., aquelas palavras pareciam-lhe familiares,...na verdade, aquele livro que de quando em vez lhe aparecia nas mãos, sem ela o procurar, queria que aquelas palavras lhe trespassassem o coração e a tornassem mais gente, ...para que deixasse de amar tantos os livros e passasse a amar mais as pessoas...

O texto continuava e confessava ainda, que eram as imagens que  envolviam alguém numa saudade ténue, mas permanentemente presente, que se lhe agarrava ao peito sem dó, nem alma... estava amarrada, ancorada ao desconhecido... pela fantasia e pelo desejo...e a concentração desaparecia...



Joana, perdia agora o sono, depois de ter despojado o sonho...



- Não, não posso distrair-me, tenho que me concentrar, pensava para si ...Mas a razão, tinha já sido inundada pelo sonho e o sonho por ser  só sonho se desfazia...

Perguntava-se:
- Que sabor teria sido esse que lhe ficou? de nada, de coisa nenhuma... que lhe aguçou um dia o paladar... 

Joana, permanecia acordada...não conseguia mais dormir...e questionava-se..., sobre que livro seria aquele que teimava em ficar ao seu lado acordado de vigia...


sexta-feira, 14 de maio de 2010

...observada (I)...

 
 

Joana, deixou-se beijar pelo Sol ainda envergonhado! 

Acordou tarde, nesse dia. Desde o Inverno passado, que os seus sonos tinham mudado de horários... Meses havia em que nas noites, seguidas de dias de frio e de chuva, Joana procurava o calor da cama, cedo. Era como se todas as noites tivesse um encontro marcado com alguém, quase sempre à mesma hora... rumava ao vale e aninhava-se...pegava num livro, que ao fim de duas ou três páginas se aconchegava ao seu lado. Algumas vezes ela não queria, mas o corpo implorava-lhe que fosse procurar o calor e o conforto...

O livro, tinha noites inteiras que a ficava a observar...enquanto o candeeiro não se apagava...observa-lhe os gestos, o rosto moreno, os olhos fechados, os lábios carnudos, o nariz elegante, o contorno dos maxilares bem definidos, os cabelos castanhos soltos ... a respiração, ora tranquila ora ofegante, os sorrisos de prazer ou as expressões de sofrimento, de medo, causados pelos sonhos bons e pelos sonhos maus, que nunca chegavam a ser pesadelos. Joana, nunca tinha pesadelos.

Aquele livro conhecia-a a dormir como ninguém...e, recordava muitas vezes, durante o dia, a pele suave das suas mãos e o toque dos seus dedos, e tinha saudades de ser tocado por ela. À noite, satisfazia o desejo quando ela lhe pegava, sempre com cuidado e saboreava aquele manusear cuidadoso e ternurento. O odor que ambos exalavam no ar era reconhecido com prazer, pelos dois. Sabia que Joana o amava, mais que a qualquer outro, apesar de inúmeras vezes de a ele se lhe juntarem outros, que permaneciam na sua mesa de cabeceira pelo tempo necessário de serem consumidos, lidos só pelo prazer da leitura...depois arrumava-os de novo noutra divisão da casa e nunca mais lhes dava atenção. 

Com ele, era diferente, já havia alguns anos e nem um nem outro se cansavam de se olhar, de se ver, de se tocar. Ambos adoravam o silêncio e as palavras.

Quando Joana por alguma razão está ausente, é ele que dorme e que sonha com ela...Ainda hoje, ...


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Paula Rego (Lisboa -1935)

...ainda bem que a pintura e os pintores existem... e abençoadas mãos que nos fazem brilhar os olhos...quando o sol já se fechou, a esperança se desvaneceu e a vida voltou de novo a ser apenas vida, simplesmente...

Absorvo e alimento a sede de conhecimento, os traços, as cores, a rudeza e a beleza das imagens em que o masculino e o feminino se fundem para aprender outras artes, outros sons, outros significados... e aproveitar  para renascer de novo...

sábado, 8 de maio de 2010

Place To Be...

...como os dedos viajam em corpo de piano... Este é o meu corpo, estes são os teus dedos...tu és o meu piano...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

"Peço desculpa pelo atraso..."


Amigos, peço desculpa pelo atraso, distraí-me com as horas, ...

andei a fazer uns cursos de decoração via net onde aprendi muito e resolvi decorar a  casa onde vos recebo todos os dias, ... nesta tarefa, passei horas a mudar os móveis de sítio, a escolher as cores, a colocar quadros nas paredes, .... para que se sentissem bem por aqui, sempre que aparecessem. Ainda faltam uns pormenores (coisas de mulheres), mas está praticamente pronta...



Ah..., é verdade, os livros permanecem arrumados nos mesmos sítios  e como sempre espalhados pela casa toda, para que não tenham que os procurar ...  ah, e ainda,  a porta permanece aberta, basta empurrar e entrar,... mesmo que eu tenha saído para fazer qualquer coisa...

bjs Alfa


terça-feira, 27 de abril de 2010

BOOK



Amigos, resolvi agradecer as minhas quase cinco mil visitas com este vídeo, que achei fantástico.

Assim... se por acaso aparecerem aqui por casa e eu não estiver, já sabem....a porta está aberta, não precisam bater...entrem, sentem-se e peguem numa qualquer história que escrevi para mim e para vocês e leiam... Logo, logo estarei de volta...Um beijo enorme para todos os que me visitam e o desejo de que amem os livros, as letras e as palavras tanto quanto eu.

PS: ... é absolutamente inovador o Manual de Instruções que aqui vos deixo à disposição, uma descoberta  BRILHANTE...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

... pontos protagonistas ...


De tear na mão, cansada de tentar aprender a fazer, ora ponto cruz, ora ponto pé de flor, nesta tarde de sol sentada na varanda da minha casa amarela... e depois de várias tentativas, para conseguir o ponto de rebuçado para o pudim do jantar, que quase me levou ao ponto de cometer uma loucura, porque estas coisas da culinária nunca foram o meu forte… adiei, sem culpa aquela tarefa...

...voltei às minhas práticas mais recentes...e, fui ver o que se passava do outro lado do mundo, fiz uma pausa e ingressei na blogosfera...

Penetrei no Google,... o ponto de partida, foi uma "investigação" divertida sobre “pontos”, inspirada por uma amiga, a M…

...resolvi começar pelos pontos que me sugeriam mais curiosidade e que me eram menos vulgares... 

Principiei pela Numismática e apresentei-me aos pontos ocultos;… transitei pela Geometria e aprendi os pontos colineares;… em seguida, cursei pela Economia e encontrei-me com os pontos percentuais, ... insisti e fui até à Geografia, onde simplesmente indiquei os pontos cardeais e pensei, vou voltar à  (H)história, e revivi vários pontos turísticos…. não era nada disto que eu queria …

Procurava pontos quentes, pontos ardentes,... que celebrassem o sol da Primavera que pouco antes me tinha acalentado..., pontos fortes, entusiasmantes e inspiradores que me fizessem abandonar a insipidez dos primeiros pontos... desejava pontos de viragem, pontos de mudança, ... que me arrebatassem para outras paragens... Podiam até ser pontos fracos, mas tinham que ser pontos vitais,  que me e que vos presenteassem como a semente de uma dissertação interessante e proporcionassem a quem lia a oportunidade de conversas delirantes e fogosas, ...três pontinhos... Parecem insignificantes estes, pela alcunha, mas quando intitulados de reticências (o seu verdadeiro nome) nunca  ficam sem sentido nem significado… pelo contrário, concedem oportunidades a quem os escreve e a quem os lê… de ir, ir, ir até...onde ambicionarmos, ...sem fim...

Pesquisa após pesquisa, ponto após ponto, invadida por tantos pontos sem ordem aos safanões para que escrevesse sobre eles… e, eu, ainda sem ter assente, por que ponto ia nascer esta prosa,… permanecia perturbada, confusa e precisava rapidamente de fazer um ponto de ordem,...

…nessa altura sem esperar, à minha frente, depois de um ponto final, descubro atrás de um ponto verde, o ponto de interrogação abraçado ao ponto de exclamação,...ouvi dizer, que tinham combinado às escondidas de toda a pontuação, um ponto de encontro... parei a observar, não me denunciei...

Meu Deus, era emocionante vê-los, envolvidos de tal forma que não deram pela minha presença...

…as interrogações tinham desaparecido e as exclamações também, …misturavam os papéis, sobrepunham pontos …os pontos dos dois pontos, umas vezes estavam em cima, outras em baixo, outras vezes de cabeça para cima outras de cabeça para baixo, encaixados, enrolados, ...mas sempre pegados como se fossem um só e enredavam-se e tocavam em novos pontos, … ligados naquele instante, descobriam todos os pontos um do outro, os fracos, os fortes, os A’s, os B’s, os C’s e por aí adiante…

...Por fim, o Match Point, Balle de Match, Punto Decisivo, Matenball, Beslissend Punt… e, foram Numismática, Economia, Geografia e acabaram por fazer História ao mesmo tempo…

Foi nesta altura, em que ao fundo entrevia um ponto de luz, que finalmente preenchi a insatisfação e o vazio de até aqui, ...descobri, …um dia escrevo sobre eles, sobre os pontos erógenos…

Consumada a descoberta, o sol desaparecia, voltavam as nuvens e a chuva, …

Acabei, aninhada do sofá da sala a ver um filme de 1971, Vanishing Point, … ao meu lado, abandonado, estava o tear que não entendeu a importância do que ali se passara e no ar pairava ainda o cheiro a caramelo que cobria o pudim com prazer e lhe conferia uma cor sedutora.

...por ali me deixei ficar, matando o tempo, ...até que à memória acorreu uma imagem vulgar desta metáfora...
constatava que o amor às vezes, em tardes de sol, na praia se resumia ao compromisso de alguém que passava o tempo e espremer pontos negros nas costas de outro alguém, …que imagem sórdida

I know,... it’s just another one point of view…

terça-feira, 13 de abril de 2010

...Solo...



Sucedem-se os dias,...
uns atrás dos outros, sem descanso...
que me levam a Vida aos poucos... 

Ainda bem, que hoje são dias de Sol e de calor...
Não me importo que sejam os dias de Sol a roubar-me os minutos de Vida, de existência...

Estou na praia, "na minha praia".  Não quero “ninguém” ao pé de mim... a não ser o mar, o vento, o sol e um pássaro ou outro de passagem...sem delonga em demasia...

Procurei o lugar mais afastado para me aconchegar na areia,
onde não escutasse vozes...

onde não houvesse atropelos,
onde não se decepassem conversas, estados de alma, alegrias extemporâneas, pesadelos que dão lugar a outros, crenças sem fundamento, raciocínios que não passam de falácias, ideias arquitectadas e destruídas, vidas tristes, mortes, sacrifícios, penitências, obrigações, deveres e coacções...histórias de Terra.

Hoje,
quero apenas emergir, nesta paz de espírito e significar-me simplesmente...

Peguei no caderno que me olha inquieto e na caneta que sente falta do calor da minha mão e mergulho, escrevo… mais palavra, menos palavra, o que me apetece.... sem regras, sem trilho e sem compasso…sem disciplina
e, principalmente, sem amarras...

Lá longe, ouço o latir de um cão que se diverte...é um latir afável, onde se percebe a sua alegria e o entusiasmo por uma bola irrequieta e colorida...as suas patas sacrificam a areia por onde passa em pulos nervosos...e, eu ouço a areia a gemer. Ouço também sorrisos de crianças que chapinham na água, a tremer...e ouço ainda, a bola a queixar-se e a pedir para não ser nem ponta peada com tanta força, nem segura com tanta determinação pelos dentes do cão que se diverte...

Ouço os peixes, os pequenos que cursam a passo acelerado atrás da progenitora, seguidos do progenitor...

Ouço os búzios do mar, que se desfazem em perdões pelo que nunca fizeram, mas de que foram acusados. Incriminados, por alguém que lhes pegou e não conseguiu ouvir o mar que está dentro deles...

Ouço os voos picados das gaivotas que mergulham, para comer uma das crias dos peixes...ouço tudo... e finjo, que não ouço nada...

Aqui, ao perto, ouço-me apenas a mim....a respirar, pausadamente,...e ouço os meus pensamentos, aqueles que ninguém lê porque nunca foram escritos.

Ontem, foi dia de me ouvir, a mim...

segunda-feira, 22 de março de 2010

...as palavras de Sofia...


Sofia adorava sentir-se abraçada pelas palavras...

Gostava delas, proferidas, lidas, escritas de todas as formas e feitios, temperadas ou sem qualquer tempero,  …sussurradas, ...balbuciadas, grandes, pequenas, fáceis ou complexas, tímidas, extrovertidas, doces, agri-doces, amargas, picantes, azedas e chocantes... nuas, camufladas... no lugar errado ou no momento certo…desde que fossem palavras, proferidas, ditas ou escritas e que significassem alguma coisa...que existissem. Só assim, se sentia acompanhada e nunca só... no vazio.

Senão… bastava-lhe que fossem palavras apenas, desordenadas, soltas, fora do lugar e Sofia entretinha-se a dar-lhes sentidos (uma vez que, já tinham nascido com significados), juntando-as carinhosamente, mesmo que fosse para falar de afectos do avesso… mas sempre com o propósito de traduzir o que sentia no momento…

Aprendeu com a idade que: “As palavras são como bolhas de sabão, frágeis e inconsistentes e que desaparecem quando em contacto prolongado com o ar”…ou, será antes, a nossa memória que não tem capacidade para guardar todas elas, principalmente e apenas aquelas que nos sabem bem ouvir...Não será necessário dar exemplos, afinal cada um de nós tem as suas preferências…até nas palavras!

Quando começou a soletrar, mesmo mal, ainda, uma ou outra, percebeu rapidamente que algumas correspondiam a acções e que através delas se satisfaziam desejos… só muito mais tarde, compreendeu o poder que estas tinham (pouco antes de se dissiparem em contacto com o ar)…serviam para muitas coisas, até para subverter conceitos (infelizmente) …

… cresceu, sempre procurando aprender cada vez mais e mais palavras, sem nunca se sentir satisfeita…
Muitos diálogos, textos e escritos depois... sentiu-se capaz de expressar, com as palavras quase exactas (sem excessos,… mas às vezes ainda com defeitos) o que pretendo dizer ao mundo, à vida e ás pessoas por quem e onde passei e que me tocaram. Ás vezes sentia-se dotada.

Pegou em todas elas e resolveu dizer a toda a gente o que sentia, o que achava, o que queria, o que não queria, o que desejava fazer, o que não deixava que lhe fizessem, do que mais gostava, do que não queria saber, …. e disse tanto, tanto, tanto, que quase esgotou o seu vocabulário…mas disse tudo e continua a dizer…

Descobriu ainda com o passar dos anos, que as definições e as dimensões, que cada um de nós tem da mesma palavra, são diferentes e por consequência obtemos respostas diferentes ás mesmas perguntas ou simples observações… e que até a entoação que utilizamos, pode e influencia a resposta…tudo isto, apesar do código linguístico ser “o mesmo”. Na verdade, muitas vezes, continuamos sem nos entender…falo, de palavras ditas.

As palavras escritas, são diferentes… não se dissipam… mas não têm som ???, a não ser de quem as lê. Sofia gosta delas de igual modo, porque lhe criam imagens, ilustram e alimentam os seus e os nossos sonhos, os nossos devaneios, as nossas loucuras, as nossas diferentes vidas…

-----//-----

Esta, será definitivamente, a minha maior herança e o meu rasto... Mesmo que não tenha dito, escrito ou lido nada…

Na vida… nada amo tanto, quanto as palavras… Sem elas tenho consciência que a comunicação seria ainda mais difícil… mas com elas, também tenho consciência de que não é nada fácil.

...mas ainda, não descobri outra forma tão expressiva e eloquente de me comunicar com os outros…
Para completar este código, quando falamos, usamos os olhos, a boca, o sorriso ou a ausência dele, as expressões faciais múltiplas, as mãos, a expressão corporal,… que, de forma sábia nos traem ou completam as palavras que proferimos.

Apesar de tudo, sinto-me muitas vezes ainda à procura da palavra certa para encadear uma conversa …  sem equívocos …
…sem este código, seria impraticável qualquer intercâmbio  entre  moi, les uns, et les autres.

 Ainda bem, que me ensinaram a ler. Obrigado, professora Emília, …


terça-feira, 16 de março de 2010

Preciso....das letras e das palavras

Assolada por uma vontade extrema de escrever, de saudades das letras e das palavras...

Cheia de “coisas” cá dentro que me fazem transbordar, de tanta vontade que sinto de dizer e de contar...
Sinto-me água, a dobrar no limite a borda de um copo em direcção descendente!

Tenho saudades de expressar sentires, desejos e afectos em frases carregadas de palavras acasaladas, misturadas... que rodopiam e se confundem como amantes numa cama ou na folha de papel...


...preciso, preciso, preciso...contar ao Mundo....preciso voltar a escrever rapidamente, estou a desesperar....preciso de tempo....de um bocadinho...fazem-me falta as palavras.

sábado, 6 de março de 2010

...Homem sem alma e sem corpo...


Em que acreditas tu Homem sem alma e sem corpo, que pareces ter.
Em que o afecto te espera todos os dias...
Em quem confias?

Para além das contrariedades que te seguem
Dos mares que cruzas, que ao mesmo tempo fazem de ti um lendário
Sonha... atalha esse coração …que se encontra enclausurado num armário

Desassossegas as almas, bates palmas, riste p'ra dentro
Sempre à espera do momento
Nu e cru… como só tu, sabes causar

Busca dentro de ti essa ventura, dá-te a oportunidade perdida
Abandona-te à única verdade da Vida
Que, apenas depois de vivida, realmente passa a sê-lo

Não te escudes, não te defenses, deixa-te atravessar
Serenamente... morosamente... ao sabor do vento
Ficando atento
Nada mais ocorrerá senão o que ambicionares
(ou será esse o receio?)
Cuidares seres tu o primeiro, sem tormento, sem flagelo e sem dúvidas...
tu! Nu e cru!...do  outro lado do Mundo!…

O sonho espera por ti, continua a confiar, deita a cabeça no seu seio
e tenta deixares-te embalar...

...vais encontrar outras gentes, outras sementes... outro ar.


quarta-feira, 3 de março de 2010

Alguém está a chegar do mar!...







- Alguém está a chegar do mar!

Anunciava um destes dias uma brisa turbulenta, à boca cheia, para quem quisesse ouvir. Conforme passava, repentina, deixava um rasto de curiosidade e intriga...

As árvores, os pássaros, as plantas e os animais esbugalhavam os olhos e os ouvidos ao som do canto das sereias, que ao mesmo tempo descansavam em cima de um rochedo ao luar...

Era noite. Estava escuro. E, o frio estava de saída para dar oportunidade a uma temperatura mais amena e mais húmida também.

...distraídos pelo som, os animais e as plantas davam a devida atenção às notícias, acabadas de deixar! Alguém está a chegar do mar, alguém está a chegar do mar...

... e, enquanto isso... o Luar aproveitava a distracção de todos, abria os braços e abraçava a Terra cobrindo-a de beijos, o que iluminava tudo o que era ser vivo à sua volta. Estava feliz e queria partilhar essa felicidade com a vida.

A Terra, apesar de triste, pelo desassossego causado por todos os homens que viviam dentro dela, ainda mantinha um sorriso, como esperança. O sorriso das crianças...

Vista de longe, do cosmos... ela, permanecia como sempre vestida de azul e verde e, era, surpreendentemente bonita.

...O mar, brilhava sempre que a luz lhe tocava...

A Terra tremia, sempre que o Luar a abraçava...

...ultimamente então, ele não queria outra coisa,.... senão abraça-la... no Haiti no Japão, no Chile, em qualquer parte do mundo, sempre que tivesse vontade e onde lhe apetecesse.

Contudo, teimosa... ela, nunca quis ouvir o que os seus amigos lhe sussurravam ao ouvido, baixinho, para não acordar as crianças. Mas, de um refrão de uma canção melódica, ouviam-se os seres vivos a cantar:
 – Teeeeerrrrraaaa, o Luar gosta de ti...


 ... a Terra pensava e vacilava...

As agruras, porque tinha passado, passados milhares e milhares de anos, de tantos amigos que tinha tido e que muitos tinha visto extinguir ... faziam-na, .... entre outras coisas... também, duvidar do Luar...

Ele era lindo, penetrante, luminoso...mas, também escorregadio, desconfiado e descrente... A desconfiança que sentia, tornava-o, cauteloso....mas também “carrasco” de si próprio e indefeso... por isso, preferia “reinar na sua praia”, na sua orla de conforto e pouco mais... Ela, por seu lado, era... (tudo o que vocês quiserem)... girava sem parar em torno do seu eixo...e, fazia rodopiar quem por ali passava.... mas, muitas vezes, igualmente indefesa...


...

Até hoje e já lá vão milhões de anos...o que os atrai um para o outro, é o mesmo de antigamente, ...


...

Assim, quando deito a cabeça na almofada, penso:

- Quando é que a Terra voltará a tremer?!!....e, concluo sempre o mesmo: - Um dia destes... quando o Luar, a voltar a abraçar...

...e, afinal quem é que chegou do Mar? Distraí-me, fiquei sem saber....


terça-feira, 2 de março de 2010

Amar e sonhar ao mesmo tempo...

Sonhava Eu, um dia amar… e viver sem vaguear
Por entre portas e janelas de um jardim…

Queria Eu,… amar-te sempre
Fazer de ti, um sonho ardente
E adormecer envolvida em jasmim…

Amava Eu a Vida toda... por inteiro
Por ela ser e não ser alegre e triste,
Sonhando sempre, por defeito, ser primeiro
Amaste em sonho… bem devagar… depois fugiste


Perdia eu, o nascer, o pôr do Sol…
Perdia eu, aquela Lua derradeira…

...E…queria ela, ser um dia apenas sua... sem magoar, só para sonhar que tudo existe!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

... el cielo e Joana (Paloma) "...cómo sufrió por ella, y hasta en su muerte la fue llamando..."


Começa a pingar na minha janela… depois do sol envergonhado ter passado por aqui esta manhã… as gotas de chuva empurradas pelo vento, faziam adivinhar que o céu ainda tinha muito para desabafar…

Desde o início deste Inverno que o fazia com frequência, mas este ano em particular e nomeadamente nos últimos meses, estava mais triste e mais sofredor do que nunca… e, por tudo e por nada, os seus olhos ficavam mareados de lágrimas que continha de imediato …Sentia-se mais triste…

Joana olhou-o amedrontada ao ver-lhe a cor carregada, a mágoa sombria e a tristeza expressa no rosto e perguntou-lhe: 

- Porquê esse semblante? (Joana, tinha o hábito de conversar com o céu, e ele não confessava a ninguém mas gostava de lhe dar atenção) (Caetano Veloso)

- Por ser obrigado a assistir, aqui do alto, a tudo o que por aí se passa, sem nada poder fazer...(Pensava para si, como se lhe respondesse).

Ele tinha olhos e podia ver, tinha boca mas não conseguia falar…e também tal como nós, de vez em quando, precisava desabafar… Joana, continuava o interrogatório com um olhar doce, à espera de lhe ouvir a voz pelo menos uma vez (podendo ser a primeira e a última). Mas em vão,...ele era de poucas palavras!

Lá no alto,  sentia-se muitas vezes só, abandonado e sem ter com quem desabafar. Ao seu lado não tinha ninguém, senão de vez em quando umas nuvens que lhe traziam notícias… mas, apareciam e desapareciam…


O Sol, o seu maior e eterno amigo, nem sempre estava presente. Aparecia só em determinada época do ano para passar férias, para aquecer Joana... e torrar outras tantas que adoravam suga-lo e deixa-lo cansado e a sentir-se fraco…mas, sobretudo sentia-se inútil… todos os anos, no final do Verão, despedia-se do céu com uma sensação estranha de que não servia para mais nada, senão para alimentar coisas vãs do egocentrismo feminino.


Joana era diferente, ele sentia-o…
...ela, gostava de lhe fazer companhia e muitas vezes também se sentia acompanhada por ele, sempre que estava sozinha. Tinha a certeza, que um dia levada por uma nuvem iria  ter com ele, como fora tantas vezes em sonho…

……
Naquela manhã, saiu de casa à pressa. Chovia. Aliás tinha chovido toda a noite, conforme teve oportunidade de ouvir comentar à entrada do café, onde tinha marcado encontro com a sua melhor amiga, para pôr a conversa em dia...

...e, foi nessa mesma manhã, que o céu já não aguentou e à semelhança de outras vezes, noutros sítios do planeta desabou finalmente sobre tudo, sobre todas as coisas, sobre todos nós, inclusive sobre Joana.

Abateu-se sobre árvores e avessos, sobre basalto e beirais, sobre casas e cochichos, demo (ideia de povo) e dissidentes, sobre…papel, Madeira, fogo… sonhos, vidas e gentes…desabou sem avisar.

Em pouco tempo deixou tudo do avesso… e, alcançou tudo e todos de surpresa…

Gritou ao vento, que levassem Joana para um lugar seguro, lá no alto, perto dele. E pediu também às árvores que tomassem conta dela e não a deixassem resvalar por um qualquer desfiladeiro… Joana, assistia a toda aquela ira de água e vento, que fez desabar histórias, transbordar ribeiras, soltar terras, abrir buracos, partir pontes, … Histórias, que ficaram soterradas, afogadas, dilaceradas, entre pedras e pedregulhos e lama, muita lama… Até, as fontes, onde outrora corria água límpida, jorravam agora água barrenta, que circulava e saía rumo ao mar… Tudo ia em direcção ao mar…

...Parecia que os peixes estavam a reclamar algo que fosse deles, à muito por direito...como se aquela população, se tivesse um dia apoderado indevidamente dos  haveres dos peixes e dos seus antepassados, que por graças da aculturação começaram a respirar a plenos pulmões e a andar na vertical …

Joana, do ponto mais alto da ilha para onde tinha sido levada, via tudo aquilo e não entendia!…não acreditava como era possível ao fim de tantos anos não conhecer aquele céu que se deitava e acordava todos os dias por cima de dela… Chamou por ele. Disse-lhe para que parasse, mas ele não a ouvia, concentrado que estava… O barulho era ensurdecedor, Joana voltou a gritar, CÉEEEEEEEEEEUUUUUUUUUUUUUU!!!!!

Envolta em tamanho sofrimento, tentou desembaraçar-se dos ramos das árvores e fugiu,... correu na sua direcção, gritando de novo: Céuuuuuuuuuuuu, párrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaa, por favor!

Nesse mesmo instante, acabou a cair de um penhasco que já esperava por ela… Uma das nuvens, que levava notícias ao céu de vez em quando, agarrou-a, amparou-lhe o corpo e desfalecida, levou-a consigo…

Foi quando a nuvem chegou o mais perto possível do céu com Joana nos braços e que  a colocou no seu colo, que este parou e deu tréguas à ilha…

Morreria o céu de culpa se Joana não voltasse acordar. Alguns minutos depois, Joana acordou finalmente, já no céu, abriu os olhos e disse-lhe:
- Céu, precisamos conversar…

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

...monólogo... numa praia de céu golfinho...



Foi na mesma praia onde um dia encontrei um golfinho moribundo, onde hoje vim parar…

Era madrugada, estava frio, não se via ninguém na rua…comecei a vê-lo ao longe, fiquei confusa...

Onda vai…e algo cinzento se misturava com o azul do mar,  e ia….onda vem, e o mesmo cinzento misturado com o azul do mar, vinha,…Conforme ia ficando mais perto, ia percebendo que era um peixe, um peixe de grandes dimensões, mas longe de imaginar que era o animal marinho que eu mais gostava…um golfinho cinzento...

Pousada no muro, sem saber o que fazer, olhava-o fixamente... procurei indícios de sinais de vida…, mas rapidamente percebi que não existiam… rolava ao sabor das ondas, ora mar a dentro, ora contra a areia,…Entristeci…desci ao areal…

… Foi nesta mesma praia de céu golfinho, que rompeu uma nesga de sol por cima de mim…e ao mesmo tempo rompeu também em mim uma enorme vontade de gritar…Foi o que fiz…De costas viradas para o mundo, mas de frente para ele Mar… que enorme e imponente, se impunha à minha frente, como se me desafiasse… Gritei de Raiva.

- QUE MAR É ESTE, QUE ME ACOMPANHA!
- QUE MAR É ESTE, QUE ME ABANDONA?

E levantado a cabeça e olhando para o céu, num tom caloroso, disse:
- E que Sol é este que me acalma a dor e me ampara as lágrimas?

- E que Vida é esta que me faz tomar conta de todos menos de mim…

(e, em tom brando e doce, voltei os olhos de novo para o mar e sussurrei)
- E que mar és tu que choras comigo, a cada onda sem parar, numa agonia sofrida? ...Chorarás tu pela Vida?...




(voltei a falar mais alto)

- Que mar é este que na imensidão do seu som, ensurdece quem o ouve no Inverno? Porque chora ele também desta maneira sem parar? Porque deixa o mar, que alguém o faça chorar?

Toda esta água são lágrimas?...Perguntei-lhe!

.... 

Esta gaivota vivida, vivia há muito por aqui, conhecia este mar como a palma da sua pata. E ele sabia bem, que a paixão dela eram os golfinhos…