...I close my mouth and spoke to you in a hundred silent ways...
sábado, 24 de julho de 2010
Lost?!!!!
...um dia tudo acaba, para dar lugar a um novo começo...
...de outra forma, dar lugar a uma esperança renovada...
Alice, logo, logo, está de volta...foi só até à Lua e voltou...
terça-feira, 20 de julho de 2010
Alice, num País sem maravilhas...
...hoje deito-me zangada, pensava para si Alice.
Estou definitivamente, zangada. Zangada com o meu País, Ele não me merece. Não quer saber de ninguém....
Que não queira saber de mim, eu cá me arranjo,... agora, que não queira saber de ninguém!!!! Não O entendo.
Que não queira saber dos antepassados e de todas as gerações presentes que o ajudam a construir todos os dias, mais um bocadinho, não posso admitir...Não gosto de O ver a, abandonar alguns à sua própria sorte, sorte que nunca tiveram e que nunca vão ter, quando era suposto ser a vez dele a dar-lhe a mão. Eu também dou, mas sozinha não consigo.
Há alguns anos atrás, as pessoas tinham esperança, tinham futuro, sentiam-se amparadas por Ele...agora, cada vez menos, tudo é volátil por aqui. A vida, a , o , a , o , a e até os sonhos... Tudo se dissipou, tudo mudou...não consigo mais entende-lo.
Juntou-se às "más companhias, rodeou-se de gente sem escrúpulos, de gente mentirosa, de gente oportunista, a carreiristas, a boys, a seguidistas, a gente que vive em pedestais e ignoram tudo a baixo de si próprios, que não encontram nada nas gentes genuínas...o que é que se passa Contigo?
Já não te reconheço...
Vou-me embora, para onde os sonhos não morram, que durem e sejam um dia concretizáveis, para um outro lugar onde o prazer pela vida não desista de o fazer...vou à procura do coelho branco de olhos azuis e relógio no bolso...que me faz sonhar e acreditar no futuro.
Adeus País, quando te encontrares, encontrar-me-ei contigo de novo...
bjssssss
domingo, 18 de julho de 2010
Yes, soon...
...é tão bom,
...quando numa praia envolta pelo nevoeiro que tem como companhia um calor tímido...
.. quando numa praia quente pelo sol e húmida pela maresia,
.. quando numa praia quente pelo sol e húmida pela maresia,
te ofereces ao céu e ao mar sem medo...
...deitada de costas, à deriva, sem nada onde te possas agarrar ou esconder caso algo inesperado aconteça,
te entregas em consciência à procura do prazer que é teu, e é merecido...
...se por um acaso, a areia desaparecesse debaixo de ti de repente, como que por magia, permanecerias inerte... apenas suspensa pelo sentir dos teus sentidos...e, a espuma abraçar-te-ia para não te deixar cair e cada grão de areia iria aninhar o teu corpo, para que não sentisses dor....
...e, cada onda, procuraria distrair-te com o seu canto, para perderes a noção da matéria.
É TÃO BOM...quando, o Sol te faz festas e o Mar canta para ti.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Vidas suspensas...no mar
No mar em que vivo...vivem, muitas vidas suspensas... Não caem nem se levantam, tropeçam a toda a hora em peixes e pedras. De tão dependentes, vivem na condição de suspensas.
Amarradas a redes de malha apertada... nunca chegarão a conhecer as maravilhas do fundo do mar.
Só as raias-meninas felizes, que flutuam ondulando as asas e a cauda, que rastejam e que se escondem debaixo da areia, brincam como crianças livres... Do fundo do mar, vêem à superfície peixes-triste, peixes-vazio, peixes-lágrima, peixes-pedaço, peixes-desencanto, peixes-abandonado, peixes-não amados, peixes-rejeitados...vidas sempre suspensas, que nunca chegam a ser livres.
Só as raias-meninas felizes, que flutuam ondulando as asas e a cauda, que rastejam e que se escondem debaixo da areia, brincam como crianças livres... Do fundo do mar, vêem à superfície peixes-triste, peixes-vazio, peixes-lágrima, peixes-pedaço, peixes-desencanto, peixes-abandonado, peixes-não amados, peixes-rejeitados...vidas sempre suspensas, que nunca chegam a ser livres.
Apenas os peixes-liberdade brincam e deslizam nas águas por todo o Oceano, ora nas profundezas, ora a roçar a superfície... livres, nadam e mergulham...
domingo, 4 de julho de 2010
João...na corte de D. João V.
Faz tempo que não se via tanta alegria na Tapada de Mafra. Desde cedo que o reino animal e vegetal permaneciam em alvoroço...
...de tal forma, que é possível ouvir daqui o burburinho.
...desde 1747 que não se ouvia tamanho entusiasmo na Coutada Real. Os veados, os gamos, os javalis, os ginetos, os saca-rabos, as raposas, as várias espécies de aves de rapina bem como, todas as espécies de origem vegetal, plátanos, sobreiros, pirliteiros, carvalhos, choupos, pinheiros e eucaliptos ...aguardavam com entusiasmo a chegada de João, o pequeno/grande Guerreiro.
- João era um menino doce na intimidade e um guerreiro na Vida.
Talvez por ser do conhecimento do povo (a segunda oração da frase anterior),...que todos os animais e vegetais permaneciam desde cedo irrequietos, por ali.
Ao longo dos poucos anos que tinha de vida, os animais tinham ouvido contar histórias sobre os feitos, as batalhas e as conquistas de João Guerreiro. Havia também quem o tratasse por Zulu, mas esses eram poucos, senão apenas, os que com ele partilharam em tempos, momentos de uma tribo por onde andou, lá no outro continente. Por muitos lugares tinha deixado marcas e saudades sobretudo.
Dizia, ainda o povo, conhecedor do seu curto percurso, que tinha grandes amigos, alguns humanos outros naturezas mortas, de muitas folhas e letras onde se contavam histórias, umas de encantar e outras nem por isso.
- Ribombavam os tambores, quando a carruagem chegou. As crinas dos cavalos, puros lusitanos cobridores, luzidiam aos primeiros raios de sol... não porque fosse cedo, mas porque o nevoeiro encobria o astro-rei de há uns dias, até então. Todos os animais já tinham comido pelo menos duas vezes, quando o pequeno/grande João Guerreiro colocou o primeiro pé, no primeiro e único degrau da carruagem.
O casal de lobos residentes recentes da tapada, tinham sido incumbidos de uivar ao primeiro sinal da sua chegada, que era dado pelo inigualável voo da águia-de-bonelli até então de vigia.
Foi o que aconteceu. Comecei a ouvi-los...uivo atrás de uivo, no marco mais alto da Tapada...uivavam tão alto e tão imponentemente, que quase me senti tentada a ir ver a sua chegada, mas era impossível, alguém me tinha marcado na agenda outros planos para o dia de hoje, ir mais para Sul.
Nesse momento, por aqui tudo parou, os carros congelaram, as pessoas cristalizaram, e os relógios marcavam a hora da sua chegada. O tempo tinha parado e a Vila estava inerte.
João, saiu finalmente de corpo inteiro e todos em uníssono permaneciam em silêncio absoluto. A curiosidade era tanta, que queriam gravar todos os seus passos e os seus gestos.
O silêncio foi rompido por uma voz que anunciava a sua chegada ao patrono, D. João V, rei de Portugal e aos seus convidados reais. Filho de D.Pedro II e de Maria Sofia de Neubourg, foi aclamado rei em 1707. Com os cognomes de "O Magnânimo ou o Rei-Sol Português", recordado entre dentes, como o "Freirático", devido à sua conhecida preferência sexual por freiras, revestiu todo o seu reinado de luxo em consequência da descoberta das minas de ouro do Brasil e igualmente fascinado por Luís IV, rei da França e o inventor do luxo, apreciador de diamantes, champanhe (vinho dos reis), sapatos de salto alto, gastronomia rica, as perucas, os predecessores de boutiques, griffes e salões de cabeleireiros e perfumes, assim como dos primeiros criadores de alta costura.
Como propulsor, o reinado de D. João V, foi caracterizado, por aspectos de muito interesse: o barroco na arquitectura, mobiliário, talha, azulejo e ourivesaria; na filosofia surge Luís António Verney com o Verdadeiro Método de Estudar e, no campo literário António José da Silva. É fundada a Real Academia Portuguesa de História e a ópera italiana é introduzida em Portugal.
Estadista exemplar, admirador das teorias absolutistas, beato e eternizado pelo esplendor da corte, da vida social e cultural e das fortunas gastas para engrandecer a coroa, mas também para satisfazer caprichos pessoais, obcecado por freiras e viciado em afrodisíacos.
O casal de lobos residentes recentes da tapada, tinham sido incumbidos de uivar ao primeiro sinal da sua chegada, que era dado pelo inigualável voo da águia-de-bonelli até então de vigia.
Foi o que aconteceu. Comecei a ouvi-los...uivo atrás de uivo, no marco mais alto da Tapada...uivavam tão alto e tão imponentemente, que quase me senti tentada a ir ver a sua chegada, mas era impossível, alguém me tinha marcado na agenda outros planos para o dia de hoje, ir mais para Sul.
Nesse momento, por aqui tudo parou, os carros congelaram, as pessoas cristalizaram, e os relógios marcavam a hora da sua chegada. O tempo tinha parado e a Vila estava inerte.
João, saiu finalmente de corpo inteiro e todos em uníssono permaneciam em silêncio absoluto. A curiosidade era tanta, que queriam gravar todos os seus passos e os seus gestos.
O silêncio foi rompido por uma voz que anunciava a sua chegada ao patrono, D. João V, rei de Portugal e aos seus convidados reais. Filho de D.Pedro II e de Maria Sofia de Neubourg, foi aclamado rei em 1707. Com os cognomes de "O Magnânimo ou o Rei-Sol Português", recordado entre dentes, como o "Freirático", devido à sua conhecida preferência sexual por freiras, revestiu todo o seu reinado de luxo em consequência da descoberta das minas de ouro do Brasil e igualmente fascinado por Luís IV, rei da França e o inventor do luxo, apreciador de diamantes, champanhe (vinho dos reis), sapatos de salto alto, gastronomia rica, as perucas, os predecessores de boutiques, griffes e salões de cabeleireiros e perfumes, assim como dos primeiros criadores de alta costura.
Como propulsor, o reinado de D. João V, foi caracterizado, por aspectos de muito interesse: o barroco na arquitectura, mobiliário, talha, azulejo e ourivesaria; na filosofia surge Luís António Verney com o Verdadeiro Método de Estudar e, no campo literário António José da Silva. É fundada a Real Academia Portuguesa de História e a ópera italiana é introduzida em Portugal.
Estadista exemplar, admirador das teorias absolutistas, beato e eternizado pelo esplendor da corte, da vida social e cultural e das fortunas gastas para engrandecer a coroa, mas também para satisfazer caprichos pessoais, obcecado por freiras e viciado em afrodisíacos.
João, por sua vez, com os pés assentes na terra, desfez então uma vénia pela cintura saudando os presentes...
...conquistou tudo e todos imediatamente com aquele simples gesto. Consigo, trazia um amigo, para lhe contar uma história, caso a cerimónia se tornasse enfadonha nalgum momento.
De cabeça erguida e corpo hirto, passou os olhos pelos presentes, às senhoras distribuiu sorrisos com os olhos e meias vénias só com a cabeça e aos senhores apenas meias vénias sem sorrisos. João, tinha aprendido há muito, como saudar uns e outros. Tudo eram conquistas.
Pelo meio de vestidos amplos, volumosos e pregueados, corpetes folgados, panniers e as farthingales na armação das saias, penteados exuberantes, altíssimos, com enchimentos e elementos decorativos, perucas, leques, maquilhagem empoada, chapéus enormes e com muitas plumas, indumentárias femininas e casacos justaucorps, ajustados na cintura, coletes bordados, calções extremamente justos, lenços originados das golas da chemise, muito volumosos no pescoço, passeavam-se homens e mulheres na cópia perfeita da corte francesa de Versalhes.
Da ementa, faziam parte várias iguarias, como tigelas de caldo de galinha com uma gema de ovo e sopas de vaca, perdigões assados, guarnecidos com linguiça, coelho, peitos de vitela de conserva, pastelões de várias carnes, pastéis fritos de carneiro com açucar e canela, ôlha castelhana especialidade de carnes várias com grãos, nabos e açafrão, doces fritos e fruta do campo.
Durante a cerimónia e mesmo não conhecendo ninguém, misturou-se subtil, humilde e habilmente com toda a gente, como era seu hábito. Esta era uma das suas características mais marcantes, vivia no meio do povo e da nobreza e da burguesia, com quem trocava gargalhadas, opiniões, histórias de todos os tempos e mundos por onde tinha passado...pediam- lhe para contar bravuras, mas ele fugia de o fazer.
Enquanto isto, na Vila mais próxima onde eu vivia e após o turbilhão que abalou o tempo e o congelou, pude correr à vontade, gritar, esbracejar, dançar no meio da estrada, deitar-me no alcatrão, assobiar alto, dizer palavrões, despir-me na praia por inteiro, tomar banho sem salpicos de ninguém, ficar em pé em cima das mesas de um café, eu sei lá...
...fazer até, o que não se deve em lugares públicos porque é feio, dizem...Tudo continuava ainda imóvel. A minha festa continuava entre jograis e mercadores, reis e rainhas, nobreza e povo cristalizados, em que eu era a única em movimento.
...Pelo meio da alegria estonteante que tomava conta de todos, ao fim de longas horas de repasto, música e muito vinho, de penteados agora desfeitos e de roupas desalinhadas...João, abandonara a festa...sem que ninguém desse por isso...precisava entrelaçar o coração e a alma por entre as histórias contadas pelos amigos que tinha sempre consigo, ....procurara um lugar ermo entre bichos e plantas, admirava agora a paisagem e o silêncio.
A natureza tomava conta dele, espreitava-o curiosa e em silêncio...apenas a águia-de-bonelli sabia o seu paradeiro. Acabara adormecendo com a cabeça amparada pela barriga de um gamo fémea ao som das folhas dos carvalhos e dos choupos que embaladas pela brisa faziam música.
E, eu entretanto, na minha vila adormecida, depois de fazer tudo o que antes me tinha sido interdito aproveitei o silêncio que ali também reinava, para escrever, escrever e escrever até adormecer sobre os sonhos...
Amanhã, vai ser outro dia, resta saber se alguém pretende acordar...
sexta-feira, 2 de julho de 2010
...Se a minha segunda pele falasse...
...iria, revoltar-se com a primeira, por esta não dizer tudo...
...iria, queixar-se do que tenho deixado que façam todos os dias, interruptamente, à primeira,
...iria gritar comigo e acordar-me, adormecida que fui pelo tempo passado, para voltar a sentir como quando era criança...
...iria invocar a primeira e dizer-lhe que muito embora a adolescência já distante, o fulgor das emoções permanece e os afectos nos vinculam
...iria avisar toda a gente, que se deve saudar a maturidade e a serenidade característica de uma idade que ainda só vejo ao longe...
...iria chorar comigo as ausências que sinto, dos que me eram queridos e já partiram para outro lugar
...e diria, que não se deve deixar magoar, nem gretar ou ressequir pela inconsciência presente.
Se a minha segunda pele falasse...
iria gritar aos que alguma vez me tentaram amarrar, (sem amarras)..., e aos que quase conseguiram, que sou um espírito livre com asas e abençoada pelos deuses bons...logo, que é impossível, mesmo que tentem.
...iria aconselhar os que nunca ancoraram, que o porto de abrigo que sou eu... é um porto seguro...
...iria como eu abraçar a vida nos momentos de prazer e acolher os risos dos outros que oiço ao longe...
... e diria à primeira, ... que quem ama, liberta...o que nos faz retornar ao ponto de partida e ainda com mais vontade de estar...afinal, o amor nunca sobreviveu em cativeiro.
Se a minha segunda pele falasse...
...iria dizer ao ouvido da primeira, que a tolerância e o altruísmo existem como afectos necessários à convivência entre os Homens...
...se a minha segunda pele falasse com a primeira, eu escusava de existir...
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Sympathy For The Devil ...ou, as pedras da Ilha de Escorpião...
... de vez em quando, lembrava-se da pedra trazida da Ilha de Escorpião...aquela pedra, que um dia viajara dentro da bagagem de qualquer alguém para satisfação de um capricho, vinha de longe... de uma ilha perdida no meio de um mar.
...da origem vulcânica, de vez em quando, saltavam pedras de todas as cores e feitios, facetadas, reluzentes... porque, aquele não era um vulcão qualquer, concluíra.
...fora privada da companhia de todas as outras pedras, largadas ao pó da lava, depois de seca e ao enxofre branco que enfeitava o cume e a encosta...não houve tempo para despedidas. Agarrada por uma mão branca de pele macia, ao som de risos de felicidade, ouvia a profecia do destino:
- Vou levar-te, como recordação desta viagem de sonho que está a terminar. Quero lembrar-me para sempre desta ilha onde deixei marcas da minha passagem...
...ninguém procurou saber se queria ir, se ela queria ir para outras paragens, distantes e diferentes ...ela não tinha querer, não passava de uma pedra...
- Mas, por quem tenho a mesma compaixão que... for the devil...
(ainda hoje, a guardo cuidadosamente dentro da mesma mala, quem sabe um dia não volto à Ilha de Escorpião).
Sex, Lies, and Videotape, 1989
Acabara de ler um livro, outro,...não lhe apetecia fazer nada... o tempo gasto pela espera de mais tempo, levou-a para a frente do écran. Adorava ver um bom filme, projectado na parede da sua sala... sempre gostou mais da imagem de um projector que de qualquer diminuto televisor ou lcd que consigna a imagem a um espaço tão reduzido...Visualizar, uma película em dimensões reduzidas, deixava-lhe sempre mesma sensação, de perder algum pormenor de uma história que não sendo sua, poderia um dia passar a ser protagonizada por ela...
...Sinopse: Sexo, mentiras e vídeo, um drama dirigido e escrito por Steven Soderbergh, com um protagonista que ela adorava, James Spader.
A história outrora baseada num drama "banalizado" nos dias de hoje, sem a mesma carga predominantemente negativa de outros tempos, trazia para dentro de si, pessoas, situações e vidas que na nostalgia de pilares de betão, eram vidas suspensas...onde o sexo, as mentiras e o vídeo continuavam presentes...
James Spader desconhecia que ela existia e que ela o admirava como actor...Ela, no entanto sabia muitas coisas sobre ele, tinha lido tudo sobre a sua carreira, que interpretações, que prémios tinha recebido, com quem contracenara neste ou noutros filmes ao longo da sua carreira cinematográfica, antes e depois deste drama de 98 minutos. Um excelente actor, agora quase esquecido...
...o final de tarde chegava, o sol nunca chegara a aparecer... e a noite começava a recolher o dia, apenas para se sentir dona e senhora de um céu enorme...
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Recordar - Brincar com as palavras...cifra de transposição ou anagrama...
(adoro esta música ....faz tempo que não a ouvia,...é uma música da minha adolescência,...e agora voltei a encontrar-me com ela - Eagles. Para o meu filho, a inspiração para esta história,...)
...e se parássemos um pouco...estou cansado! - Respondia o menino, com a cabeça deitada no antebraço pousado na secretária, sem forças para erguer aquela invenção de outros tempos, a esferográfica. Depois de um dia de escola repleto de letras, números, conceitos, regras e muita brincadeira, a meio de mais uma semana, de um ano lectivo qualquer e perdido entre livros, cadernos e lápis, o João esforçava-se para não desiludir a mãe, que ao seu lado paciente permanecia.
- Por favor, João estuda. Suplicava a mãe, sonhando com um futuro melhor para o seu único filho e por isso a sua única esperança.
- Escreve um título para uma composição, em que utilizes apenas 20 letras, nem mais nem menos. Usa apenas: três E's; quatro S’s; dois P’s; dois A’s; dois M’s; três O’s; dois U’s; um C e um R. É o último T.P.C. que te passo hoje, amanhã continuas... depois, podes brincar com as letras como quiseres.
Ainda mal tinha agarrado na caneta, já as palavras se atropelavam umas às outras e queriam saltar para fora daquele pequeno cérebro, sem que este conseguisse proceder ao seu registo.
Cada uma gritava mais alto que a outra, para se fazer ouvir.
- Eu sou a primeira! Dizia com convicção uma delas, por ser a mais antiga.
- Não, a primeira palavra da primeira frase sou eu, porque sou a mais bonita de todas.
- Ora, ora, replicava outra. - Era o que faltava, eu cheguei primeiro.
E outra, - Pois eu sou a 2ª palavra da 3ª frase, está bem? A confusão continuava...
Ao fundo o João ouvia.
- Não, não e não, eu quero ser a 5ª palavra da 14ª frase, já disse! - Eu tenho mais perfil para ser a 8ª da 10ª frase. - Eu quero ser a última palavra da última frase, para que todos se lembrem de mim...
…e assim ensurdessivamente???!!!, ou ensurdecivamente, ensurdecessivamente ???!!! Esta, era uma palavra tão nova, tão fresca e acabada de nascer que nem ela própria, ainda sabia como se iria escrever. Os gritos das palavras estonteavam os ouvidos ao João.
Teimosamente, empurravam-se umas às outras sem conseguir formar em fila indiana, para dar início ao exercício, ao desafio invulgar. O cérebro do João, não conseguia sequer a concentração necessária, para enviar uma simples mensagem à sua própria mão. Mão essa, que por sua vez havia de fazer deslizar o bico da caneta sobre o papel.
Interrompidas pelo menino em desespero foram as palavras, que perplexas e assustadas ouviram em tom determinante e decidido!
- Por favor, parem de fazer barulho! Comportem-se! Preciso pensar! Eu, é que vou decidir a ordem porque vão ficar alinhadas, aprumadas na folha. Ouviram?
Abrandando o tom, acrescentou:
- …primeiro, preciso saber, quantas palavras consigo fabricar com aquelas vinte letras; escolher o tema do texto e só depois, dar-vos um sentido, organizar-vos em frases/orações com sujeito, predicado, complemento directo ou indirecto… dar sentido às orações, simples ou complexas; como pretendo que sejam ligadas entre si, por forma da conjunção ou da subordinação; optar por conjunções e locuções conjuncionais coordenativas ou subordinativas, copulativas, adversativas…, condicionais, comparativas, temporais, concessivas ou finais… Mas, para hoje, a minha mãe disse que só teria que criar um título, o resto da composição só irá ser feita amanhã, não há razão para se atropelarem, parecem crianças no recreio.
Fez-se silêncio… a maioria das palavras e das letras perceberam finalmente, que não precisavam correr aos empurrões, talvez só amanhã, caso o João voltasse a estudar.
O silêncio, agora trespassado apenas pela música de fundo proveniente do rádio que tinha no quarto, trazia a quietude perfeita. Meteu mãos à obra, adorava edificar desta forma.
Começou a escrever e a ordenar alfabeticamente todas as palavras que surgiam no espírito, tendo sempre como regra as vinte letras, naquela quantidade determinada, para erigir o título que a mãe lhe pedira, como último esforço para o dia de hoje.
…ama/amara/Amo/amor/asco/cessou/com/comer/compor/comum/copa/couro/era/Era/espasmo/espera/
esperamos/esse/espesso/maus/meus/mouros/museu/opus/ouro/ousar/para/passamos/peou/pouco/peso/
pesar/ramos/rapar/raspo/remos/ria/riamos/rumar/rumo/sapo/sarar/se/separar/ser/seremos/somos/sopro/
soro/sua/supra/uma/usar/…
Depois de inúmeras tentativas e muitas possibilidades sem sentido, chegou à conclusão que tinha descoberto uma, sem querer saber se haveriam outras.
Aproveitou para brincar, agora com a mãe, dizendo que ia apresentar-lhe o título da sua composição em cifra de transposição ou Anagrama.
- O que é isso João? - Deixa-te de brincadeiras, vá lá filho, ainda tens que tomar banho, jantar e dormir, para te levantares cedo de novo e não chegares tarde ao colégio.
-Mãe, vou dar-te uma ou duas pistas, para te ajudar a descobrir. Por exemplo: Elegant mana gentelman, tal como Elvis é um anagrama de lives. Foi a professora de inglês que me ensinou. Funciona do seguinte modo…, as letras de uma mensagem são retiradas da sua ordem original e realinhadas num outro padrão. é um anagrama de
- João, por favor, não tenho tempo para as tuas brincadeiras, amor. Preciso de ir fazer o jantar entre outras rotinas da casa, senão não consigo com que te deites cedo para descansar o suficiente. Mostra lá o título que escolheste e deixa-me contar as letras.
- É este, mãe - ...e, sem poucos amar, peou-se…
A tarefa tinha-se revelado difícil, porque o João tinha apostado em cumprir as regras que a mãe lhe tinha imposto e ainda tentou aplicar a cifra de transposição, apesar de cansado de facto. Foi quando disse …e, se parássemos um pouco…que se lembrou dos jogos que se podem fazer com as palavras e com o mesmo número de letras, na quantidade original, procurar encontrando uma outra frase que faça sentido.
Era um exercício difícil, mas tinha lhe dado um imenso prazer. Tinha feito apenas uma pequena batota, que nunca revelou a ninguém e que arriscava, que o professor da disciplina de Português quando fizesse a correcção do T.P.C., talvez não desse por isso, só com a preocupação de ter que ler em pouco tempo 26 composições, que eram o número total de alunos que compunham a turma do 7ºB, a sua turma. Não utilizou o assento grave (´).
Para o dia seguinte, resolveu deixar o corpo do texto. Contudo, já tinha decidido mesmo antes de arrumar a mochila, que iria utilizar as metáforas de quem tanto gostava, as hipérboles, as personificações e os eufemismos, amigos com que gostava de brincar nos dias de frio e chuva que o privavam de jogar à bola na rua.
Um dia queria ser um grande escritor, mas não tinha pressa, sabia que, tinha ainda muito para aprender.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Recordar - ....Laura, em telhado de zinco quente....
Laura, hoje estava pensativa… Enquanto perdia as horas do dia, recordava o último filme que vira, enroscada nele. Não pretendia fazer nenhuma analogia com a protagonista do filme, até porque para além de "ronronar" muito melhor que ela, não era loira, mas parda.
De pêlo brilhante passeava elegantemente por cima de tudo, pelos sofás, no tapete branco felpudo, já para não falar no colo do seu dono.
Aquele homem sem nome, sempre que chegava a casa, a primeira coisa que fazia ao meter a chave à porta era chamar por ela.
- Lauuuuuurrrrrrraaaaaa – melodicamente, entoava o seu nome.
Ela aparecia imediatamente e de forma carinhosa, como era seu hábito, entrelaçava-se nos seus tornozelos num ballet digno de ser visto por uma plateia de aplausos e ficava à espera de ser retribuída pelo calor da sua mão. Aliás, perspicaz como era... momentos antes de lhe sentir o cheiro ao fundo das escadas do prédio, vinha para o hall de entrada e ficava muito atenta a ouvir-lhe os passos, um a um, no último patamar do elevador. Há vários anos que o recebia sempre da mesma maneira e com o mesmo entusiasmo.
Laura não gostava do seu nome, mas fora ele que lho dera no primeiro encontro…
Assim que lhe pegou, numa loja de animais...olhou para ela e disse, entusiasmado com a possibilidade de ter uma companhia no futuro próximo:
- Vou chamar-te, Laura.
Às vezes, ela fazia questão de lhe recordar que preferia outro nome qualquer, e obrigava-o a repetir em vão, sem responder às chamadas. Laura, sabia que apesar de ser ali que existia tudo o que sempre sonhou, naqueles 200m2 de conforto, boa comida e muito carinho... também gostava, de vez em quando fingir ser um pássaro e de vez em quando voar.
O seu dono sem rosto, encontrou-a várias vezes naquela janela das águas furtadas e via-a sair rumo ao telhado de zinco, onde adorava preguiçar nos dias soalheiros em que o Sol fazia o resto... aquecia o telhado. Ora de barriga para cima, ora de barriga para baixo, aproveitava para admirar a paisagem e tudo à sua volta... os carros, as pessoas, … ou então, o rio, o céu, as nuvens e os pássaros.
Um dia apaixonou-se.
Primeiro foi pelo rio, onde se imaginou a navegar, a nadar, a mergulhar e a contar peixes a dois. Depois apaixonou-se pelo céu que era da cor dos seus olhos, azuis. Mais tarde por uma nuvem, mas concluiu que tinham objectivos de vida diferentes. E, por fim, por um pássaro, que um dia lhe caiu à frente do nariz e que a fez acordar no meio de um sonho.
O sonho estava a ser maravilhoso. Eis senão quando, jaz um pássaro sem bando, caído à sua frente e lhe pediu ajuda, estava ferido. Laura, tinha um coração enorme e um estômago habituado pelo seu dono sem nome, a comer comida de lata.
O que toda a gente esperava, era que ela fizesse jus à sua espécie e se atirasse de cabeça para o comer, mas Laura aprendeu a resistir aos instintos mais primários e não salivava pelos seus antepassados.
A fragilidade em que O encontrou naquele momento, fez com que revelasse a sua complacência e compaixão e mais tarde, os sentimentos mais nobres que uma gata pode sentir por um pássaro. Foram dias perdidos de histórias que ele lhe contava do mundo dos pássaros e histórias que ela lhe contava do mundo dos gatos… no telhado de zinco… sempre quente, pelo Sol.
Dias e noites, após...
Laura, abandonou praticamente o seu dono sem nome. Faltava já muitas vezes à primeira chamada, quando a porta de casa se abria, ao fim da tarde. Não lhe fazia mais falta os seus tornozelos ou o calor da sua mão.
…
E, um dia, pela última vez respondeu à primeira chamada; - Lauuuuuuuurrrrrrrraaaaaaaa. Dançou, despediu-se daquela mão quente que tantas vezes a afagou, subiu ao telhado e voou com ele.
…
Hoje, não se chama mais Laura, mas apenas Gata.
domingo, 23 de maio de 2010
Recordar - O Vento, o Caos e Maria
Ainda atordoada, perguntava a si própria baixinho porque não conseguia descortinar o caminho de volta para casa. Aquela casa, branca, térrea, com janelas de portadas verdes escuras, um alpendre, e com muito espaço à volta preenchido por alfazema, a seu tempo, salpicado de campânulas e papoílas, que lhe traziam tantas e tão boas recordações.
A sua casa era a única que permanecia no mesmo sítio desde o último tornado, que levara muita coisa pelo ar. Maria, procurava esquecer o assobio do vento enraivecido a soprar aos seus ouvidos. Tinha aquele som gravado e tinha medo. O vento estava zangado, muito zangado. Em plena sinfonia desenfreada, Maria ainda tentou perguntar-lhe de mansinho o porquê de tanta ira. Mas ele nunca a ouviu, porque assobiava mais alto que a sua voz doce e meiga, que só era perceptível no silêncio. Quando cruzavam olhares, ela e o vento, voltava com os olhos a questiona-lo, mas era impossível, porque ele rodopiava, rodopiava e rodopiava, sem nunca abrandar. Nunca lhe respondeu.
Os campos e as sementes, os cheiros, as lembranças doces e amargas, os amigos de sempre, as pessoas em quem confiava, os sorrisos fantásticos que outrora víramos estampados em rostos de felicidade, os sonhos poucos, muitos ou nenhuns, esvoaçavam como se a possibilidade de sonhar não fosse pertença de todos em igual modo e quantidade. O tornado levara almas e corpos, gentes, vidas, sem qualquer preferência por raça, credo ou cor. Levou as conchas todas que apanhou, praias inteiras, golfinhos, cavalos de pau e marinhos…
Retratos de família, brincadeiras de criança, amores permitidos e proibidos, vestes, ficando nuas e sentindo um frio de arrepiar. Levara também as árvores, os pássaros e os seus ninhos e as crias de todas as espécies animais e vegetais…
Sem perder tempo, o vento ciclónico e terrivelmente apressado levou consigo também todos os filhos, as Mães, os Pais, o Pai Natal, o trenó e as renas, as prendas, os doces, o que tanto queríamos e o que nunca tínhamos desejado de bom e de mau e levou também o ano anterior.
Levou A música… que profunda tristeza sentiu Maria, … a música fazia-lhe tanta falta.
As pessoas interessantes que conheceu,
A magia das coisas, as coisas boas e as coisas más.
Consigo, o vento levou ainda os mares, os rios, os lagos e os charcos. As fontes por isso secaram, não queriam ficar sozinhas. Os peixes coloridos e os prateados também tinham desaparecido, abriram a porta e saíram em fila, uns atrás dos outros, pelos céus...
As nuvens empurravam-se, umas às outras, carregavam em cima aviões com pessoas, pessoas com histórias, histórias de famílias, de laços e de “nós” consanguíneos.
Os sacos que nunca serviram para outra coisa, aproveitaram para transportar o que restava, as coisas mais humildes. Levaram brinquedos novos e velhos, apanhavam tudo com uma das asas e metiam dentro de si tudo o que lhes acontecia pela frente.
Maria não queria acreditar que um tornado fosse capaz de anarquizar tudo e que após um período de trégua, voltasse a baralhar e dar de novo.
Percebera, então onde estava. Permaneceu o tempo todo dentro de casa, refugiada num canto da sala. Cerrava os olhos, para de vez em quando matar a maldita curiosidade por entre os dedos e ver na direcção de uma das três janelas ainda fixas às paredes da sala…o que continuava acontecer…
Maria olhava em volta, e via o caos e o vazio.
….
Por último, os seres Tornados homens levaram as palavras e com elas, Maria deixou de poder dizer o que quer que fosse, desaprendeu de soletrar e tombou silenciosa e inerte.
O Seu último olhar foi para ver Maria, voar de si própria, dançando com o vento e esboçando um sorriso.
-Adeus, Maria - disse a si própria.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
...observada (II)...
- Não é por acaso que me chamo Joana, mas ainda não é o momento para vos revelar...
- Hoje andei em círculos...
- Perdida nos meus pensamentos e nas tuas palavras..."procurei-te" por toda a parte...
...o último agasalho que vestiu esta primavera, muito antes deste calor apressado...Joana, despediu-se da última brisa, fazendo dele a sua casa e o seu botão...
- Sonhei contigo... No meu sonho...abracei-te...beijei-te e amei-te como nunca outra vez...
...atenta à leitura e àquela passagem em particular, do livro que tinha entre mãos, Joana lia em voz alta, "...um dia vou encontrar-te e com a serenidade e a curiosidade que me caracteriza vou explicar tudo, para que não restem dúvidas entre nós. Explicar, que os equívocos de código por que passamos foram justificados pela distância e pela proximidade que nos impusemos e que de forma inconsciente deixamos proliferar... pretendo deixar claro, que não era essa a minha intenção, nunca foi, desde o início de tudo...
Procuro apenas a simplicidade, não a complexidade das coisas... procurei em ti um amigo, apesar de toda a gente me dizer que a amizade entre um homem e uma mulher é impossível de acontecer (essa afirmação para mim, nunca fizera sentido...) por isso, mais uma vez voltei a tentar...
Isso, não chegou verdadeiramente acontecer...ultrapassamos o espaço e o tempo e até hoje a dúvida permanece...O que é que ambos procurávamos?
Isso, não chegou verdadeiramente acontecer...ultrapassamos o espaço e o tempo e até hoje a dúvida permanece...O que é que ambos procurávamos?
...procurávamos!!! apenas um amor puro e são, apaixonado, onde reinasse o carinho, a cumplicidade, um amor abandonado à ternura, aos momentos, sem necessidade de tréguas porque as guerras não existiriam, mimos,... Sim, um amor ardente também, sempre que quiséssemos... porque, o fogo faz parte de mim e de ti... e de toda a gente que não procura apenas prazer, mas também um coração onde se aninhar."
Joana, fazia uma pausa para pensar no que acabara de ler..., aquelas palavras pareciam-lhe familiares,...na verdade, aquele livro que de quando em vez lhe aparecia nas mãos, sem ela o procurar, queria que aquelas palavras lhe trespassassem o coração e a tornassem mais gente, ...para que deixasse de amar tantos os livros e passasse a amar mais as pessoas...
O texto continuava e confessava ainda, que eram as imagens que envolviam alguém numa saudade ténue, mas permanentemente presente, que se lhe agarrava ao peito sem dó, nem alma... estava amarrada, ancorada ao desconhecido... pela fantasia e pelo desejo...e a concentração desaparecia...
Joana, perdia agora o sono, depois de ter despojado o sonho...
- Não, não posso distrair-me, tenho que me concentrar, pensava para si ...Mas a razão, tinha já sido inundada pelo sonho e o sonho por ser só sonho se desfazia...
Perguntava-se:
- Que sabor teria sido esse que lhe ficou? de nada, de coisa nenhuma... que lhe aguçou um dia o paladar...
Joana, permanecia acordada...não conseguia mais dormir...e questionava-se..., sobre que livro seria aquele que teimava em ficar ao seu lado acordado de vigia...
sexta-feira, 14 de maio de 2010
...observada (I)...
Joana, deixou-se beijar pelo Sol ainda envergonhado!
Acordou tarde, nesse dia. Desde o Inverno passado, que os seus sonos tinham mudado de horários... Meses havia em que nas noites, seguidas de dias de frio e de chuva, Joana procurava o calor da cama, cedo. Era como se todas as noites tivesse um encontro marcado com alguém, quase sempre à mesma hora... rumava ao vale e aninhava-se...pegava num livro, que ao fim de duas ou três páginas se aconchegava ao seu lado. Algumas vezes ela não queria, mas o corpo implorava-lhe que fosse procurar o calor e o conforto...
O livro, tinha noites inteiras que a ficava a observar...enquanto o candeeiro não se apagava...observa-lhe os gestos, o rosto moreno, os olhos fechados, os lábios carnudos, o nariz elegante, o contorno dos maxilares bem definidos, os cabelos castanhos soltos ... a respiração, ora tranquila ora ofegante, os sorrisos de prazer ou as expressões de sofrimento, de medo, causados pelos sonhos bons e pelos sonhos maus, que nunca chegavam a ser pesadelos. Joana, nunca tinha pesadelos.
Aquele livro conhecia-a a dormir como ninguém...e, recordava muitas vezes, durante o dia, a pele suave das suas mãos e o toque dos seus dedos, e tinha saudades de ser tocado por ela. À noite, satisfazia o desejo quando ela lhe pegava, sempre com cuidado e saboreava aquele manusear cuidadoso e ternurento. O odor que ambos exalavam no ar era reconhecido com prazer, pelos dois. Sabia que Joana o amava, mais que a qualquer outro, apesar de inúmeras vezes de a ele se lhe juntarem outros, que permaneciam na sua mesa de cabeceira pelo tempo necessário de serem consumidos, lidos só pelo prazer da leitura...depois arrumava-os de novo noutra divisão da casa e nunca mais lhes dava atenção.
Com ele, era diferente, já havia alguns anos e nem um nem outro se cansavam de se olhar, de se ver, de se tocar. Ambos adoravam o silêncio e as palavras.
Quando Joana por alguma razão está ausente, é ele que dorme e que sonha com ela...Ainda hoje, ...
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Paula Rego (Lisboa -1935)
...ainda bem que a pintura e os pintores existem... e abençoadas mãos que nos fazem brilhar os olhos...quando o sol já se fechou, a esperança se desvaneceu e a vida voltou de novo a ser apenas vida, simplesmente...
Absorvo e alimento a sede de conhecimento, os traços, as cores, a rudeza e a beleza das imagens em que o masculino e o feminino se fundem para aprender outras artes, outros sons, outros significados... e aproveitar para renascer de novo...
Absorvo e alimento a sede de conhecimento, os traços, as cores, a rudeza e a beleza das imagens em que o masculino e o feminino se fundem para aprender outras artes, outros sons, outros significados... e aproveitar para renascer de novo...
sábado, 8 de maio de 2010
Place To Be...
...como os dedos viajam em corpo de piano... Este é o meu corpo, estes são os teus dedos...tu és o meu piano...
quinta-feira, 6 de maio de 2010
"Peço desculpa pelo atraso..."
Amigos, peço desculpa pelo atraso, distraí-me com as horas, ...
andei a fazer uns cursos de decoração via net onde aprendi muito e resolvi decorar a casa onde vos recebo todos os dias, ... nesta tarefa, passei horas a mudar os móveis de sítio, a escolher as cores, a colocar quadros nas paredes, .... para que se sentissem bem por aqui, sempre que aparecessem. Ainda faltam uns pormenores (coisas de mulheres), mas está praticamente pronta...
Ah..., é verdade, os livros permanecem arrumados nos mesmos sítios e como sempre espalhados pela casa toda, para que não tenham que os procurar ... ah, e ainda, a porta permanece aberta, basta empurrar e entrar,... mesmo que eu tenha saído para fazer qualquer coisa...
bjs Alfa
terça-feira, 27 de abril de 2010
BOOK
Amigos, resolvi agradecer as minhas quase cinco mil visitas com este vídeo, que achei fantástico.
Assim... se por acaso aparecerem aqui por casa e eu não estiver, já sabem....a porta está aberta, não precisam bater...entrem, sentem-se e peguem numa qualquer história que escrevi para mim e para vocês e leiam... Logo, logo estarei de volta...Um beijo enorme para todos os que me visitam e o desejo de que amem os livros, as letras e as palavras tanto quanto eu.
PS: ... é absolutamente inovador o Manual de Instruções que aqui vos deixo à disposição, uma descoberta BRILHANTE...
quarta-feira, 21 de abril de 2010
... pontos protagonistas ...
De tear na mão, cansada de tentar aprender a fazer, ora ponto cruz, ora ponto pé de flor, nesta tarde de sol sentada na varanda da minha casa amarela... e depois de várias tentativas, para conseguir o ponto de rebuçado para o pudim do jantar, que quase me levou ao ponto de cometer uma loucura, porque estas coisas da culinária nunca foram o meu forte… adiei, sem culpa aquela tarefa...
...voltei às minhas práticas mais recentes...e, fui ver o que se passava do outro lado do mundo, fiz uma pausa e ingressei na blogosfera...
...voltei às minhas práticas mais recentes...e, fui ver o que se passava do outro lado do mundo, fiz uma pausa e ingressei na blogosfera...
Penetrei no Google,... o ponto de partida, foi uma "investigação" divertida sobre “pontos”, inspirada por uma amiga, a M…
...resolvi começar pelos pontos que me sugeriam mais curiosidade e que me eram menos vulgares...
Principiei pela Numismática e apresentei-me aos pontos ocultos;… transitei pela Geometria e aprendi os pontos colineares;… em seguida, cursei pela Economia e encontrei-me com os pontos percentuais, ... insisti e fui até à Geografia, onde simplesmente indiquei os pontos cardeais e pensei, vou voltar à (H)história, e revivi vários pontos turísticos…. não era nada disto que eu queria …
Procurava pontos quentes, pontos ardentes,... que celebrassem o sol da Primavera que pouco antes me tinha acalentado..., pontos fortes, entusiasmantes e inspiradores que me fizessem abandonar a insipidez dos primeiros pontos... desejava pontos de viragem, pontos de mudança, ... que me arrebatassem para outras paragens... Podiam até ser pontos fracos, mas tinham que ser pontos vitais, que me e que vos presenteassem como a semente de uma dissertação interessante e proporcionassem a quem lia a oportunidade de conversas delirantes e fogosas, ...três pontinhos... Parecem insignificantes estes, pela alcunha, mas quando intitulados de reticências (o seu verdadeiro nome) nunca ficam sem sentido nem significado… pelo contrário, concedem oportunidades a quem os escreve e a quem os lê… de ir, ir, ir até...onde ambicionarmos, ...sem fim...
Pesquisa após pesquisa, ponto após ponto, invadida por tantos pontos sem ordem aos safanões para que escrevesse sobre eles… e, eu, ainda sem ter assente, por que ponto ia nascer esta prosa,… permanecia perturbada, confusa e precisava rapidamente de fazer um ponto de ordem,...
…nessa altura sem esperar, à minha frente, depois de um ponto final, descubro atrás de um ponto verde, o ponto de interrogação abraçado ao ponto de exclamação,...ouvi dizer, que tinham combinado às escondidas de toda a pontuação, um ponto de encontro... parei a observar, não me denunciei...
Meu Deus, era emocionante vê-los, envolvidos de tal forma que não deram pela minha presença...
…as interrogações tinham desaparecido e as exclamações também, …misturavam os papéis, sobrepunham pontos …os pontos dos dois pontos, umas vezes estavam em cima, outras em baixo, outras vezes de cabeça para cima outras de cabeça para baixo, encaixados, enrolados, ...mas sempre pegados como se fossem um só e enredavam-se e tocavam em novos pontos, … ligados naquele instante, descobriam todos os pontos um do outro, os fracos, os fortes, os A’s, os B’s, os C’s e por aí adiante…
...Por fim, o Match Point, Balle de Match, Punto Decisivo, Matenball, Beslissend Punt… e, foram Numismática, Economia, Geografia e acabaram por fazer História ao mesmo tempo…
...Por fim, o Match Point, Balle de Match, Punto Decisivo, Matenball, Beslissend Punt… e, foram Numismática, Economia, Geografia e acabaram por fazer História ao mesmo tempo…
Foi nesta altura, em que ao fundo entrevia um ponto de luz, que finalmente preenchi a insatisfação e o vazio de até aqui, ...descobri, …um dia escrevo sobre eles, sobre os pontos erógenos…
Consumada a descoberta, o sol desaparecia, voltavam as nuvens e a chuva, …
Acabei, aninhada do sofá da sala a ver um filme de 1971, Vanishing Point, … ao meu lado, abandonado, estava o tear que não entendeu a importância do que ali se passara e no ar pairava ainda o cheiro a caramelo que cobria o pudim com prazer e lhe conferia uma cor sedutora.
...por ali me deixei ficar, matando o tempo, ...até que à memória acorreu uma imagem vulgar desta metáfora...
...por ali me deixei ficar, matando o tempo, ...até que à memória acorreu uma imagem vulgar desta metáfora...
constatava que o amor às vezes, em tardes de sol, na praia se resumia ao compromisso de alguém que passava o tempo e espremer pontos negros nas costas de outro alguém, …que imagem sórdida
I know,... it’s just another one point of view…
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