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sábado, 2 de outubro de 2010

Quando nascer de novo...


Quando nascer de novo...
não vou voltar a ser mulher, 
nem homem,
nem pássaro, nem golfinho,
nem Sol, nem mastro,
nem realidade, nem vertigem,
nem dor, nem pesar,
nem mágoa, nem pranto,
nem sombra, nem lágrima,
nem pó, nem grão,
nem Mar, nem chão
nem fado, nem canção

acabei de decidir,
vou ser um livro...

(vou nascer no meio dos livros...)

...No fim do tempo, numa boa hora, as águas vão rebentar e vou brotar de algum ventre materno... vou nascer de novo, mas desta vez numa biblioteca, no meio dos livros...e tornar-me-ei um deles...

vou ter capa, sem que ninguém me acuse
vou ter folhas como as árvores, sem secar
vou ter letras impressas no corpo, sem que ninguém me olhe de lado
vou sobre uns e com outros, sem ser classificada
vou andar de mão em mão, sem ser acusada
vou estar nas montras à venda, sem que seja olhada com luxuria

vou ser de papel...

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...o ambiente é de delírio, a emoção prolifera por entre os presentes...vai nascer um livro novo.... é sempre este o ambiente quando está para nascer um livro novo.... em suspense encontram-se inúmeros autores e personagens sonhadas, que assistem aos nascimentos de quem um dia se metamorfoseou... 

...clássicos e contemporâneos aguardam ansiosamente o nascimento... Stendhal, Victor Hugo, Miguel de Cervantes, Garbriel Garcia Marquez, Herman Hesse, Dostoiévski, Emile Zola, Emile Bronte, Dante Alighieri, Machado de Assis, José de Alencar, Bocage, Fernando Pessoa e heterónimos, Shakespeare, Homero, Joyce, Kafka, Mário Quintana, Jorge Luis Borges, Melville, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Netzsche, Antoine de Saint-Exupery, Paulo Coelho, Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, Orwell, Virginia Woolf, Daniel Defoe, Chuck Palahniuk, Sófocles Jung, Alexandre Dumas, Pablo Neruda, Tolkien, Agustina Bessa Luís, Alberto Braga, Stieg Larsson, Augusto Cury, Bento da Cruz...
viverei numa biblioteca e serei um livro, ...multiplicar-me-ei em histórias de sonho...de guerras...de vidas...de amores...e desamores...de aventuras...

...deixarei de ser quem sou para interiorizar cada  história, cada personagem ...vou viajar pelo mundo em páginas e páginas de letra impressa, vou viajar no tempo de páginas amarelecidas pelo pó,... vou sentir a curiosidade e a expectativa inicial de um livro que se começa a ler...vou sentir, ao canto de cada página, a saliva de dedos que me tocam para me desfolhar na curiosidade de ver como acabo, vão-me devorar...
...e vou correr o risco de ser posto de lado antes de terminar, porque não consegui a empatia de quem me acolhe. As folhas e folhas que vou ter, vão ficar embriagadas de tantas letras e vão formar palavras e emocionadas construir frases no empenho de uma história alucinante ...

esquecer-me-ei de mim enquanto Ser...vou ficar calada para sempre, para que me oiçam com atenção... vou ter sempre dentro de mim a enfeitar-me, marcadores coloridos, de papel, de plástico, de metal, de prata, com pedras coloridas ou preciosas...
...esquecer-me-ei de mim e deixarei de falar, de me vestir, de comer, de beber, tarefas cansativas de rotinas urbanas sem precedentes...

e entre livros, grandes e pequenos, fantásticos e didácticos, a cheirar a novo ou antigos, ...deitar-me-ei ao seu lado numa estante ou numa qualquer mesa de cabeceira que me acolherá depois de umas mãos...e feliz, vou aguardar que me voltem a pegar, tantas vezes, quantas o entendam necessário até satisfazer por inteiro a curiosidade ou o momento de alguém...

...transformar-me-ei em múltiplas personagens imaginadas por cada um dos escritores que me escrevem... vou ver rir, vou ver sofrer, chorar, amar, amar sem pensar, naufragar, viajar, prometer, desafiar, não cumprir, imaginar, desmentir, seduzir, permanecer, desencontrar, subestimar, enlouquecer, caracterizar, repetir, sacrificar, analisar, cristalizar, surpreender, acautelar, proporcionar, ...no fundo, quero dizer viver...e amar, amar, amar...

...e assim, serei eterna na minha forma de estar...


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Exclusividade ou protagonismo...



...a discussão terminara, ...Maria saia magoada e António ficava entre aquelas 4 paredes do hotel de subúrbio com meia-dúzia de quartos pintados de verde água, em que uma barra cor de rosa aumentava o ridículo da decoração. Por todo o lado, havia folhos e florinhas miúdinhas, perfiladas lado a lado que atavam aquelas paredes umas ás outras sem culpa aparente. Paredes, que inúmeras vezes testemunharam os encontros dos dois.

Fechou a porta atrás de si, amargurada com o desfecho daquele encontro. Não era assim que o tinha imaginado...Sempre que combinavam encontrar-se, ela pensava, minunciosamente em cada detalhe. 

A escolha daquele hotel, nada tinha a ver com o sentido estético dos dois, mas tinha sido a opção possível e que haviam tomado em conjunto, após dois anos de encontros fortuitos no carro, no campo, longe dos olhares alheios, que teimavam em pousar sobre eles onde quer que entrassem, pela felicidade que irradiavam.

Eram bonitos. Talvez por isso, brilhavam por onde passavam. Maria, tinha uns lindos cabelos castanhos compridos, uns olhos quase verdes e doces, amendoados e um corpo torneado de curvas. António, era igualmente moreno, ligeiramente mais alto, de cabelo liso e um sorriso de fazer inveja.

No início, em que uma paixão arrebatadora ainda lhes tirava o sono e o discernimento, não havia tempo a perder, todo era pouco. Previam então, que se iriam encontrar muitas vezes, pelos menos nos anos seguintes e isso obrigava-os a procurar um espaço, adequado à paixão que sentiam um pelo outro e que até aqui, tinha sido circunscrita ao automóvel dele.      

Foram muitos os momentos, em que esqueciam as suas oficiais vidas e se entregavam para se perderem. Maria amava António e António amava Maria, sem dúvida.

Gostava demais daquele homem, para alguma vez pensar, que ele um dia lhe ia sugerir a exclusividade. Por várias vezes tinham abordado o assunto, sem nunca ouvir da sua boca qualquer opinião séria a esse respeito. Brincava sempre com a situação e deliberadamente desviava as atenções para as graças ou piadas que tinha facilidade em fazer pelo o bom o humor que o caracterizava. António, era um homem gracioso e sedutor, enquanto não se sentia obrigado a expor as suas verdadeiras opiniões a respeito do que quer que fosse. No entanto, quando assim era necessário, o seu rosto transformava-se, tornava-se rude de feições perdia a graça e a sedução, para se tornar frio e racional. Poucas vezes ao longo dos anos, Maria o viu com aquele semblante que não lhe deixava saudades.

Era a primeira vez que discutiam...desde, o início de tudo.

...

Acabara de se sentar ao volante do seu carro e recordava agora, andando para trás no tempo e viajando pelas memórias de bons momentos entre os dois, que a complexidade da sua vida e as opções que tomou no passado, eram manifestamente incompatíveis com os desejos de ambos,...mesmo sem futuro.

Maria, não permitia a homem nenhum que lhe pedisse a exclusividade, porque ela tinha  escolhido para si, que a sua vida seria pautada por protagonismo.


domingo, 26 de setembro de 2010

Lisboa abandonada ao silêncio...




Lisboa estava agora abandonada ao Silêncio... 

O Agosto, levara consigo todos os transeuntes...os homens, as mulheres e as crianças, as companhias com quem partilhara sonhos comuns daquele ano...os amigos, os amantes, os apaixonados, os poetas, os pintores e os músicos, os escritores e os seus leitores, entre tantos...cansados que se sentiam de um ano intenso de rotinas e cheiros agri-doces, sentidos por Lisboa. Cheiros estes, agora mais intensos do que antes, pela audácia das gentes que a habitavam e viviam nela durante a maior parte do seu tempo, onde não se podem esconder, nem esconder nada...

Tinham ido todos embora...

A saída sazonal, marcava o momento e Lisboa sentia-lhes a falta. A falta de todos aqueles que lhe percorriam o corpo e a alma, calcorreando os becos, as vielas, as ruas, as avenidas, as colinas de forma silenciosa ou de forma estridente e às vezes até desconcertante...que faziam Lisboa corar, havendo uns que lhe deixavam mais saudades que outros.

Olhava em volta e sentia-se sozinha...Na solidão daqueles dias, restava-lhe à noite a Lua por companhia, o Tejo e o silêncio. Uma vez por outra, juntava-se a nós um sem abrigo que não tinha tido nenhum convite para ir a banhos de mar e sol, numa qualquer estância de praia do nosso país ou  no estrangeiro. Passávamos horas, deliciados a ler.

Outras vezes, aproveitávamos para colocar a conversa em dia e admirar o Silêncio. O Silêncio era de todos o mais recatado, o mais calado, nunca proferia palavra, limitava-se a observar.....e, a Lisboa, bastava sentir-lhe o olhar e mergulhava no seu enternecedor corpo envolvente e deixava-se cair por entre os braços e dedos do Tejo, em silêncio... Que bons, que eram estes momentos de paz...

Lisboa descansava...e a Lua, o Tejo e o sem abrigo em paz, ao som do Silêncio, aproveitavam para fazer o mesmo.

Fomos acordados pelo barulho das gentes da minha terra de volta às rotinas. Desfeitas as malas e barrigas cheias de sonhos realizados pela metade,... atropelavam-se com saudades de casa... e Lisboa alegrava-se ao vê-los chegar...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Across the Universe...



- Há vícios estranhos...estranhos de bons, bons de estranhos, bons e estranhos, estranhos, bons...

...e, Pedro não se intimidava, por isso. Sempre que desejava contemplar os pássaros azuis que se perdiam por se encontrarem tão longe...assim o fazia, sem preconceito.

Pedro tinha este vício havia pouco tempo, talvez por isso, o estranhasse... aquele vício vindo não sei de onde, que lhe aconchegava o corpo. Umas vezes, pela manhã, outras vezes à tarde ou até mesmo à noite procurava-os no céu, azuis como gostavam de ser...

Junto com eles em bando, surgia por entre as nuvens uma menina que trazia consigo um balão vermelho...e que os guiava até Pedro, porque tinham perdido o Norte.

Outras vezes encontrava-os no mar, onde o céu estava reflectido. 

Sabia, no entanto, que nem sempre os encontrava aumentando-lhe o desejo e a saudade  que tomava conta dele. Estranhava-lhe as ausências,  mas não tinha outro remédio senão esperar que aparecessem para lhe fazer brilhar o olhar.....compreendia-os, porque eram pássaros selvagens e livres, como o próprio Pedro.


Sempre lhe tinham ensinado que aqueles olhos azuis raiados, não podiam contemplar o que quer que fosse... não fosse o céu, o mar ou os pássaros leva-lo com eles no seu azul, mas Pedro "sofria" desde pequenino de uma curiosidade enorme que aproveitava para desafiar o Mundo. Foi por culpa dela que encontrou todo este saber de homem feito, que aprendera o nome de todos os mares e estrelas muito antes do tempo, que desafiara muitas vezes a vida sem lhe pedir nada em troca a não ser o Conhecimento. E, numa ocasião desafiou o destino...

Há vícios que valem a pena, pensava para si... e este é um prazer doce, que o faz viver a cada vez e lhe dá vida...

Até hoje, não se arrepende...aprendeu a ver azul, pássaros, balões e tira prazer do seu maior vício... across the Universe.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Corpos, de ventres planos...




 "Encandeiam-me os corpos de ventres planos..."

...neles apetece sonhar e mergulhar sem remorsos,... sentir-lhes a pele macia..
...mergulhar nos seus umbigos redondos e convidativos, para dançar uma valsa estonteante...


...como cachorros acabados de nascer, sem força nas patas...
que apenas avistavam uma névoa e se guiavam pelo cheiro na esperança de saciar a fome... procurávamos o conforto e o aconchego de um leito, com um corpo estendido...

Ainda hoje, enrolas o ventre sobre ele e apareces em espiral junto de ti... e bailas
ao sabor das ondas dos corpos sagrados
e delicias-te com aquele cheiro mágico,
de algodão doce que te leva para muito longe....ou para muito perto, das nuvens.

Por cima de nós, sobrepõem-se paisagens,
camadas marcadas pelo passado,
vidas inteiras de holocausto que nos lembram, a existência do amor e da vida...

...e as marcas, dos beijos e dos desejos infundados que sentimos uma vez, enquanto loucos...

Juntos rompemos madrugadas solarengas e frias
de portões altos e paredes fortes
e buscamos um no outro, as amarras de papel de muitas cores...

Foi no teu ventre liso que aprendi a esbracejar
e a voar, dentro e fora de mim...
onde encontrei um pássaro pousado num pinheiro manso,
adulto, capaz de cuidar de alguém...

Meu Deus, como me encandeiam os corpos de ventres planos...

 

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A harpa de Eurico...



...

2º Acto - As lembranças (1)

Eurico Cuneo do outro lado da vida, formulava desejos de sonho em lugares românticos...

Ao som do frio e do calor das suas notas, desejava abraça-la...  assim que pudesse. Pretendia envolvê-la  nos seus braços e adormecê-la para sempre junto de si... sentia-lhe a falta. 

Era tão grande a saudade e a admiração que tinha por aquela antonomasia morena, de carácter  doce, que às vezes, imaginava que tinha asas e podia voar azul ao som da sua harpa...e, voava mesmo...flutuava, dedilhando... Apaixonado, em tradução literal recordava abendmusik....

Fim do 2ºActo.

Interlúdio

3ºActo - As lembranças e o princípio da agonia ...(2)

...ouvia o Ré no sistema alfabético como se ela lhe cantasse ao ouvido, baixinho, sussurrando nota a nota e perdia a respiração e o fôlego...

Accelerando, não sabia mais o que fazer para acalmar aquela saudade e aquele desejo semmmmmmm fim. Aquela lembrança dorida, que tanta alegria lhe trazia e lhe aconchegava a alma por instantes salteados... Lembrava os beijos, os mimos, os colos trocados... os risos, as carícias, os afagos e a ternura imensa dos poucos e curtos momentos, que uma vez passaram juntos...

... as luzes apagam-se, o pano cai e a plateia cristaliza...

Momento do reencontro. Cenografia: sem tempo, sem horas, sem lugar, para poderem viver finalmente um amor verdadeiro, intenso e serem felizes...
No quarto-muro....deixaram o teatro da vida, para viver de verdade...

...até, que o dramaturgo dê início a um novo processo criativo reinventando a história.

FIM


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

de volta... de umas férias culturais..




...voltei, de umas férias culturais....cheia de saudades do  calor, de ouvir falar português... e o que é que encontro....Hot in the city...

sábado, 24 de julho de 2010

Lost?!!!!




...um dia tudo acaba, para dar lugar a um novo começo...
...de outra forma, dar lugar a uma esperança renovada...

Alice, logo, logo, está de volta...foi só até à Lua e voltou...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Alice, num País sem maravilhas...



...hoje deito-me zangada, pensava para si Alice.

Estou definitivamente, zangada. Zangada com o meu País, Ele não me merece. Não quer saber de ninguém....

Que não queira saber de mim, eu cá me arranjo,... agora, que não queira saber de ninguém!!!! Não O entendo.

Que não queira saber dos antepassados e de todas as gerações presentes que o ajudam a construir todos os dias, mais um bocadinho, não posso admitir...Não gosto de O ver a, abandonar alguns à sua própria sorte, sorte que nunca tiveram e que nunca vão ter, quando era suposto ser a vez dele a dar-lhe a mão. Eu também dou, mas sozinha não consigo.

Há alguns anos atrás, as pessoas tinham esperança, tinham futuro, sentiam-se amparadas  por Ele...agora, cada vez menos, tudo é volátil por aqui. A vida, a       , o           ,  a             , o           , a            e até os sonhos... Tudo se dissipou, tudo mudou...não consigo mais entende-lo.

Juntou-se às "más companhias, rodeou-se de gente sem escrúpulos, de gente mentirosa, de gente oportunista, a carreiristas, a boys, a seguidistas, a gente que vive em pedestais e ignoram tudo a baixo de si próprios, que não encontram nada nas gentes genuínas...o que é que se passa Contigo?

Já não te reconheço...

Vou-me embora, para onde os sonhos não morram, que durem e sejam um dia concretizáveis, para um outro lugar onde o prazer pela vida não desista de o fazer...vou à procura do coelho branco de olhos azuis e relógio no bolso...que me faz sonhar e acreditar no futuro.

Adeus País, quando te encontrares, encontrar-me-ei contigo de novo...

bjssssss
 

domingo, 18 de julho de 2010

Yes, soon...



...é tão bom, 

...quando numa praia envolta pelo nevoeiro que tem como companhia um calor tímido...
.. quando numa praia quente pelo sol e húmida pela maresia,

te ofereces ao céu e ao mar sem medo...

...deitada de costas, à deriva, sem nada onde te possas agarrar ou esconder caso algo inesperado aconteça,
 te entregas em consciência à procura do prazer que é teu, e é merecido... 


...se por um acaso,  a areia desaparecesse debaixo de ti de repente, como que por magia, permanecerias inerte... apenas suspensa pelo sentir dos teus sentidos...e, a espuma abraçar-te-ia para não te deixar cair e cada grão de areia iria aninhar o teu corpo, para que não sentisses dor....

...e, cada onda, procuraria distrair-te com o seu canto, para perderes a noção da matéria.

É TÃO BOM...quando, o Sol te faz festas e o Mar canta para ti.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vidas suspensas...no mar




No mar em que vivo...vivem, muitas vidas suspensas... Não caem nem se levantam, tropeçam a toda a hora em peixes e pedras. De tão dependentes, vivem na condição de suspensas.

Amarradas a redes de malha apertada... nunca chegarão a conhecer as maravilhas do fundo do mar.

Só as raias-meninas felizes, que flutuam ondulando as asas e a cauda, que rastejam e que se escondem debaixo da areia, brincam como crianças livres... Do fundo do mar, vêem à superfície peixes-triste, peixes-vazio, peixes-lágrima, peixes-pedaço, peixes-desencanto, peixes-abandonado, peixes-não amados, peixes-rejeitados...vidas sempre suspensas, que nunca chegam a ser livres.

Apenas os peixes-liberdade brincam e deslizam nas águas por todo o Oceano, ora nas profundezas, ora a roçar a superfície... livres, nadam e mergulham...

domingo, 4 de julho de 2010

João...na corte de D. João V.



Faz tempo que não se via tanta alegria na Tapada de Mafra.  Desde cedo que o reino animal e vegetal permaneciam em alvoroço...

...de tal forma, que é possível ouvir daqui o burburinho.

...desde 1747 que não se ouvia tamanho entusiasmo na Coutada Real. Os veados, os gamos, os javalis, os ginetos, os saca-rabos, as raposas, as várias espécies de aves de rapina bem como, todas as espécies de origem vegetal, plátanos, sobreiros, pirliteiros, carvalhos, choupos, pinheiros e eucaliptos ...aguardavam com entusiasmo a chegada de João, o pequeno/grande Guerreiro.

- João era um menino doce na intimidade e um guerreiro na Vida. 
Talvez por ser do conhecimento do povo (a segunda oração da frase anterior),...que todos os animais e vegetais permaneciam desde cedo irrequietos, por ali.

Ao longo dos poucos anos que tinha de vida,  os animais tinham ouvido contar histórias sobre os feitos, as batalhas e as conquistas de João Guerreiro. Havia também quem o tratasse por Zulu, mas esses eram poucos, senão apenas, os que com ele partilharam em tempos, momentos de uma tribo por onde andou, lá no outro continente. Por muitos lugares tinha deixado marcas e saudades sobretudo.

Dizia, ainda o povo, conhecedor do seu  curto percurso, que tinha grandes amigos, alguns humanos outros naturezas mortas, de muitas folhas e letras onde se contavam histórias, umas de encantar e outras nem por isso.

- Ribombavam os tambores, quando a carruagem chegou. As crinas dos cavalos, puros lusitanos cobridores, luzidiam aos primeiros raios de sol... não porque fosse cedo, mas porque o nevoeiro encobria o astro-rei de há uns dias, até então. Todos os animais já tinham comido pelo menos duas vezes, quando o pequeno/grande João Guerreiro colocou o primeiro pé, no primeiro e único degrau da carruagem.

O casal de  lobos residentes recentes da tapada, tinham sido incumbidos de uivar ao primeiro sinal da sua chegada, que era dado pelo inigualável voo da águia-de-bonelli até então de vigia.

Foi o que aconteceu. Comecei a ouvi-los...uivo atrás de uivo, no marco mais alto da Tapada...uivavam tão alto e tão imponentemente, que quase me senti tentada  a ir ver a sua chegada, mas era impossível, alguém me tinha marcado na agenda outros planos para o dia de hoje, ir mais para Sul.

Nesse momento, por aqui tudo parou, os carros congelaram, as pessoas cristalizaram, e os relógios marcavam a hora da sua chegada. O tempo tinha parado e a Vila estava inerte.

João, saiu finalmente de corpo inteiro e todos em uníssono permaneciam  em silêncio absoluto. A curiosidade era tanta, que queriam gravar todos os seus passos e os seus gestos.

O silêncio foi rompido por uma voz que anunciava a sua chegada ao patrono,  D. João V, rei de Portugal e aos seus convidados reais.  Filho de D.Pedro II e de Maria Sofia de Neubourg, foi aclamado rei em 1707. Com os cognomes de "O Magnânimo ou o Rei-Sol Português", recordado entre dentes, como o "Freirático", devido à sua  conhecida preferência sexual por freiras, revestiu todo o seu reinado de luxo em consequência da descoberta das minas de ouro do Brasil e igualmente fascinado por Luís IV, rei da França e o  inventor do luxo, apreciador de diamantes, champanhe (vinho dos reis), sapatos de salto alto, gastronomia rica, as perucas, os predecessores de boutiques, griffes e salões de cabeleireiros e perfumes, assim como dos primeiros criadores de alta costura.

Como propulsor, o reinado de D. João V, foi caracterizado, por aspectos de muito interesse: o barroco na arquitectura, mobiliário, talha, azulejo e ourivesaria;  na filosofia surge Luís António Verney com o Verdadeiro Método de Estudar e, no campo literário António José da Silva. É fundada a Real Academia Portuguesa de História e a ópera italiana é introduzida em Portugal.

Estadista exemplar, admirador das teorias absolutistas, beato e eternizado pelo esplendor da corte, da vida social e cultural e das fortunas gastas para engrandecer a coroa, mas também para satisfazer caprichos pessoais, obcecado por freiras e viciado em afrodisíacos.


João, por sua vez, com os pés assentes na terra, desfez então uma vénia pela cintura saudando os presentes...
...conquistou tudo e todos imediatamente com aquele simples gesto. Consigo, trazia um amigo, para lhe contar uma história, caso a cerimónia se tornasse enfadonha nalgum momento.

De cabeça erguida e corpo hirto, passou os olhos pelos presentes, às senhoras distribuiu sorrisos com os olhos e meias vénias só com a cabeça e aos senhores apenas meias vénias sem sorrisos. João, tinha aprendido há muito, como saudar uns e outros. Tudo eram conquistas.


Pelo meio de vestidos amplos, volumosos e pregueados, corpetes folgados, panniers e as farthingales na armação das saias, penteados exuberantes, altíssimos, com enchimentos e elementos decorativos, perucas, leques, maquilhagem empoada, chapéus enormes e com muitas plumas, indumentárias femininas e  casacos justaucorps, ajustados na cintura, coletes bordados, calções extremamente justos, lenços originados das golas da chemise, muito volumosos no pescoço, passeavam-se homens e mulheres na cópia perfeita da corte francesa de Versalhes.


Da ementa, faziam parte várias iguarias, como tigelas de caldo de galinha com uma gema de ovo e sopas de vaca, perdigões assados, guarnecidos com linguiça, coelho, peitos de vitela de conserva, pastelões de várias carnes, pastéis fritos de carneiro com açucar e canela, ôlha castelhana especialidade de carnes várias com grãos, nabos e açafrão, doces fritos e fruta do campo.

Durante a cerimónia e mesmo não conhecendo ninguém, misturou-se subtil, humilde e habilmente com toda a gente, como era seu hábito.  Esta era uma das suas características mais marcantes, vivia no meio do povo e da nobreza e da burguesia, com quem trocava gargalhadas, opiniões, histórias de todos os tempos e mundos por onde tinha passado...pediam- lhe para contar bravuras, mas ele fugia de o fazer.

Enquanto isto, na Vila mais próxima onde eu vivia e após o turbilhão que abalou o tempo e o congelou, pude correr à vontade, gritar, esbracejar, dançar no meio da estrada, deitar-me no alcatrão, assobiar alto, dizer palavrões, despir-me na praia por inteiro, tomar banho sem salpicos de ninguém, ficar em pé em cima das mesas de um café, eu sei lá...
...fazer até, o que não se deve em lugares públicos porque é feio, dizem...Tudo continuava ainda imóvel. A minha festa continuava entre jograis e mercadores, reis e rainhas, nobreza e povo cristalizados, em que eu era a única em movimento.

...Pelo meio da alegria estonteante que tomava conta de todos, ao fim de longas horas de repasto, música e muito vinho, de penteados agora desfeitos e de roupas  desalinhadas...João, abandonara a festa...sem que ninguém desse por isso...precisava entrelaçar o coração e a alma por entre as histórias contadas pelos amigos que tinha sempre consigo, ....procurara um lugar ermo entre bichos e plantas, admirava agora a paisagem e o silêncio. 

A natureza tomava conta dele, espreitava-o curiosa e em silêncio...apenas a águia-de-bonelli sabia o seu paradeiro. Acabara adormecendo com a cabeça amparada pela barriga de um gamo fémea ao som das folhas dos carvalhos e dos choupos que embaladas pela brisa faziam música.

E, eu entretanto, na minha vila adormecida,  depois de fazer tudo o que antes me tinha sido interdito   aproveitei  o silêncio que ali também reinava, para escrever, escrever e escrever até adormecer sobre os sonhos...

Amanhã, vai ser outro dia, resta saber se alguém pretende acordar...


sexta-feira, 2 de julho de 2010

...Se a minha segunda pele falasse...





Se a minha segunda pele falasse...

...iria, revoltar-se com a primeira, por esta não dizer tudo...
...iria, queixar-se do que tenho deixado que façam todos os dias, interruptamente, à primeira,
...iria gritar comigo e acordar-me, adormecida que fui pelo tempo passado, para voltar a sentir como quando era criança...
...iria invocar a primeira e dizer-lhe que muito embora a adolescência já distante, o fulgor das emoções permanece e os afectos nos vinculam
...iria avisar toda a gente, que se deve saudar a maturidade e a serenidade característica de uma idade que ainda só vejo ao longe...
...iria chorar comigo as ausências que sinto, dos que me eram queridos e já partiram para outro lugar

...e diria, que não se deve deixar magoar, nem gretar ou ressequir pela inconsciência presente.



Se a minha segunda pele falasse...

iria gritar aos que alguma vez me tentaram amarrar, (sem amarras)..., e aos que quase conseguiram, que sou um espírito livre com asas e abençoada pelos deuses bons...logo, que é impossível, mesmo que tentem.

...iria aconselhar os que nunca ancoraram, que o porto de abrigo que sou eu... é um porto seguro...
...iria como eu abraçar a vida nos momentos de prazer e acolher os risos dos outros que oiço ao longe...

... e diria à primeira, ...  que quem ama, liberta...o que  nos faz retornar  ao ponto de partida e ainda com mais vontade de estar...afinal, o amor nunca sobreviveu em cativeiro.


Se a minha segunda pele falasse...

...iria dizer ao ouvido da primeira, que a tolerância e o altruísmo existem como afectos necessários à convivência entre os Homens...


...se a minha segunda pele falasse com a primeira, eu escusava de existir...

 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sympathy For The Devil ...ou, as pedras da Ilha de Escorpião...



... de vez em quando, lembrava-se da  pedra trazida da Ilha de Escorpião...aquela pedra, que um dia viajara dentro da bagagem de qualquer alguém para satisfação de um capricho, vinha de longe... de uma ilha perdida no meio de um mar.

...da origem vulcânica,  de vez em quando, saltavam pedras de todas as cores e feitios, facetadas, reluzentes... porque, aquele não era um vulcão qualquer, concluíra.

...fora privada da companhia de todas as outras pedras, largadas ao pó da lava, depois de seca e ao enxofre branco que enfeitava o cume e a encosta...não houve tempo para despedidas. Agarrada por uma mão branca de pele macia, ao som de risos de felicidade, ouvia a profecia do destino:

- Vou levar-te, como recordação desta viagem de sonho que está a terminar. Quero lembrar-me para sempre desta ilha onde deixei marcas da minha passagem...

...ninguém procurou saber se queria ir, se ela queria ir para outras paragens, distantes e diferentes ...ela não tinha querer, não passava de uma pedra...

- Mas, por quem tenho a mesma compaixão que... for the devil...

(ainda hoje, a guardo cuidadosamente dentro da mesma mala, quem sabe um dia não volto à Ilha de Escorpião).

Sex, Lies, and Videotape, 1989


Acabara de ler um livro, outro,...não lhe apetecia fazer nada... o tempo gasto pela espera de mais tempo, levou-a para a frente do écran. Adorava ver um bom filme, projectado na parede da sua sala... sempre gostou mais da imagem de um projector que de qualquer diminuto televisor ou lcd que consigna a imagem a um espaço tão reduzido...Visualizar, uma película em dimensões reduzidas, deixava-lhe sempre mesma sensação, de perder algum pormenor de uma história que não sendo sua, poderia um dia passar a ser protagonizada por ela...
 
...Sinopse: Sexo, mentiras e vídeo, um drama dirigido e escrito por Steven Soderbergh, com um protagonista que ela adorava, James Spader.
A história outrora baseada num drama "banalizado" nos dias de hoje, sem a mesma carga predominantemente negativa de outros tempos, trazia para dentro de si,  pessoas, situações e vidas que na nostalgia de pilares de betão, eram vidas suspensas...onde o sexo, as mentiras e o vídeo continuavam presentes...
James Spader desconhecia que ela existia e que ela o admirava como actor...Ela, no entanto sabia muitas coisas sobre ele, tinha lido tudo sobre a sua carreira, que interpretações, que prémios tinha recebido, com quem contracenara neste ou noutros filmes ao longo da sua carreira cinematográfica, antes e depois deste drama de 98 minutos. Um excelente actor, agora quase esquecido...
...o  final de tarde chegava, o sol nunca chegara a aparecer... e a noite começava a recolher o dia, apenas para se sentir dona e senhora de um céu enorme...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Recordar - Brincar com as palavras...cifra de transposição ou anagrama...



(adoro esta música ....faz tempo que não a ouvia,...é uma música da minha adolescência,...e agora voltei a encontrar-me com ela  - Eagles. Para o meu filho, a  inspiração para esta história,...)

...e se parássemos um pouco...estou cansado! - Respondia o menino, com a cabeça deitada no antebraço pousado na secretária, sem forças para erguer aquela invenção de outros tempos, a esferográfica. Depois de um dia de escola repleto de letras, números, conceitos, regras e muita brincadeira, a meio de mais uma semana, de um ano lectivo qualquer e perdido entre livros, cadernos e lápis, o João esforçava-se para não desiludir a mãe, que ao seu lado paciente permanecia.

- Por favor, João estuda. Suplicava a mãe, sonhando com um futuro melhor para o seu único filho e por isso a sua única esperança.

- Escreve um título para uma composição, em que utilizes apenas 20 letras, nem mais nem menos. Usa apenas: três E's; quatro S’s; dois P’s; dois A’s; dois M’s; três O’s; dois U’s; um C e um R. É o último T.P.C. que te passo hoje, amanhã continuas... depois, podes brincar com as letras como quiseres.

Ainda mal tinha agarrado na caneta, já as palavras se atropelavam umas às outras e queriam saltar para fora daquele pequeno cérebro, sem que este conseguisse proceder ao seu registo.

Cada uma gritava mais alto que a outra, para se fazer ouvir.

- Eu sou a primeira! Dizia com convicção uma delas, por ser a mais antiga.
- Não, a primeira palavra da primeira frase sou eu, porque sou a mais bonita de todas.
- Ora, ora, replicava outra. - Era o que faltava, eu cheguei primeiro.
E outra, - Pois eu sou a 2ª palavra da 3ª frase, está bem? A confusão continuava...

Ao fundo o João ouvia.
- Não, não e não, eu quero ser a 5ª palavra da 14ª frase, já disse! - Eu tenho mais perfil para ser a 8ª da 10ª frase. - Eu quero ser a última palavra da última frase, para que  todos se lembrem de mim...

…e assim ensurdessivamente???!!!, ou ensurdecivamente, ensurdecessivamente ???!!! Esta, era uma palavra tão nova, tão fresca e acabada de nascer que nem ela própria, ainda sabia como se iria escrever. Os gritos das palavras estonteavam os ouvidos ao João.

Teimosamente, empurravam-se umas às outras sem conseguir formar em fila indiana, para dar início ao exercício, ao desafio invulgar. O cérebro do João, não conseguia sequer a concentração necessária, para enviar uma simples mensagem à sua própria mão. Mão essa, que por sua vez havia de fazer deslizar o bico da caneta sobre o papel.

Interrompidas pelo menino em desespero foram as palavras, que perplexas e assustadas ouviram em tom determinante e decidido!
- Por favor, parem de fazer barulho! Comportem-se! Preciso pensar! Eu, é que vou decidir a ordem porque vão ficar alinhadas, aprumadas na folha. Ouviram?

Abrandando o tom, acrescentou:

- …primeiro, preciso saber, quantas palavras consigo fabricar com aquelas vinte letras; escolher o tema do texto e só depois, dar-vos um sentido, organizar-vos em frases/orações com sujeito, predicado, complemento directo ou indirecto… dar sentido às orações, simples ou complexas; como pretendo que sejam ligadas entre si, por forma da conjunção ou da subordinação; optar por conjunções e locuções conjuncionais coordenativas ou subordinativas, copulativas, adversativas…, condicionais, comparativas, temporais, concessivas ou finais… Mas, para hoje, a minha mãe disse que só teria que criar um título, o resto da composição só irá ser feita amanhã, não há razão para se atropelarem, parecem crianças no recreio.

Fez-se silêncio… a maioria das palavras e das letras perceberam finalmente, que não precisavam correr aos empurrões, talvez só amanhã, caso o João voltasse a estudar.

O silêncio, agora trespassado apenas pela música de fundo proveniente do rádio que tinha no quarto, trazia a quietude perfeita. Meteu mãos à obra, adorava edificar desta forma.

Começou a escrever e a ordenar alfabeticamente todas as palavras que surgiam no espírito, tendo sempre como regra as vinte letras, naquela quantidade determinada, para erigir o título que a mãe lhe pedira, como último esforço para o dia de hoje.

…ama/amara/Amo/amor/asco/cessou/com/comer/compor/comum/copa/couro/era/Era/espasmo/espera/
esperamos/esse/espesso/maus/meus/mouros/museu/opus/ouro/ousar/para/passamos/peou/pouco/peso/
pesar/ramos/rapar/raspo/remos/ria/riamos/rumar/rumo/sapo/sarar/se/separar/ser/seremos/somos/sopro/
soro/sua/supra/uma/usar/…

Depois de inúmeras tentativas e muitas possibilidades sem sentido, chegou à conclusão que tinha descoberto uma, sem querer saber se haveriam outras.

Aproveitou para brincar, agora com a mãe, dizendo que ia apresentar-lhe o título da sua composição em cifra de transposição ou Anagrama.

- O que é isso João? - Deixa-te de brincadeiras, vá lá filho, ainda tens que tomar banho, jantar e dormir, para te levantares cedo de novo e não chegares tarde ao colégio.

-Mãe, vou dar-te uma ou duas pistas, para te ajudar a descobrir. Por exemplo: Elegant mana gentelman, tal como Elvis é um anagrama de lives. Foi a professora de inglês que me ensinou. Funciona do seguinte modo…, as letras de uma mensagem são retiradas da sua ordem original e realinhadas num outro padrão. é um anagrama de

- João, por favor, não tenho tempo para as tuas brincadeiras, amor. Preciso de ir fazer o jantar entre outras rotinas da casa, senão não consigo com que te deites cedo para descansar o suficiente. Mostra lá o título que escolheste e deixa-me contar as letras.

- É este, mãe - ...e, sem poucos amar, peou-se…

A tarefa tinha-se revelado difícil, porque o João tinha apostado em cumprir as regras que a mãe lhe tinha imposto e ainda tentou aplicar a cifra de transposição, apesar de cansado de facto. Foi quando disse …e, se parássemos um pouco…que se lembrou dos jogos que se podem fazer com as palavras e com o mesmo número de letras, na quantidade original, procurar encontrando uma outra frase que faça sentido.

Era um exercício difícil, mas tinha lhe dado um imenso prazer. Tinha feito apenas uma pequena batota, que nunca revelou a ninguém e que arriscava, que o professor da disciplina de Português quando fizesse a correcção do T.P.C., talvez não desse por isso, só com a preocupação de ter que ler em pouco tempo 26 composições, que eram o número total de alunos que compunham a turma do 7ºB, a sua turma. Não utilizou o assento grave (´).

Para o dia seguinte, resolveu deixar o corpo do texto. Contudo, já tinha decidido mesmo antes de arrumar a mochila, que iria utilizar as metáforas de quem tanto gostava, as hipérboles, as personificações e os eufemismos, amigos com que gostava de brincar nos dias de frio e chuva que o privavam de jogar à bola na rua.

Um dia queria ser um grande escritor, mas não tinha pressa, sabia que, tinha ainda muito para aprender.



quinta-feira, 27 de maio de 2010

Recordar - ....Laura, em telhado de zinco quente....






Laura, hoje estava pensativa… Enquanto perdia as horas do dia, recordava o último filme que vira, enroscada nele. Não pretendia fazer nenhuma analogia com a protagonista do filme, até porque para além de "ronronar" muito melhor que ela, não era loira, mas parda.


De pêlo brilhante passeava elegantemente por cima de tudo, pelos sofás, no tapete branco felpudo, já para não falar no colo do seu dono.


Aquele homem sem nome, sempre que chegava a casa, a primeira coisa que fazia ao meter a chave à porta era chamar por ela.


- Lauuuuuurrrrrrraaaaaa – melodicamente, entoava o seu nome.


Ela aparecia imediatamente e de forma carinhosa, como era seu hábito, entrelaçava-se nos seus tornozelos num ballet digno de ser visto por uma plateia de aplausos e ficava à espera de ser retribuída pelo calor da sua mão. Aliás, perspicaz como era... momentos antes de lhe sentir o cheiro ao fundo das escadas do prédio, vinha para o hall de entrada e ficava muito atenta a ouvir-lhe os passos, um a um, no último patamar do elevador. Há vários anos que o recebia sempre da mesma maneira e com o mesmo entusiasmo.


Laura não gostava do seu nome, mas fora ele que lho dera no primeiro encontro…

Assim que lhe pegou, numa loja de animais...olhou para ela e disse, entusiasmado com a possibilidade de ter uma companhia no futuro próximo:
- Vou chamar-te, Laura.


Às vezes, ela fazia questão de lhe recordar que preferia outro nome qualquer, e obrigava-o a repetir em vão, sem responder às chamadas. Laura, sabia que apesar de ser ali que existia tudo o que sempre sonhou, naqueles 200m2 de conforto, boa comida e muito carinho... também gostava, de vez em quando fingir ser um pássaro e de vez em quando voar.


O seu dono sem rosto, encontrou-a várias vezes naquela janela das águas furtadas e via-a sair rumo ao telhado de zinco, onde adorava preguiçar nos dias soalheiros em que o Sol fazia o resto... aquecia o telhado. Ora de barriga para cima, ora de barriga para baixo, aproveitava para admirar a paisagem e tudo à sua volta... os carros, as pessoas, … ou então, o rio, o céu, as nuvens e os pássaros.


Um dia apaixonou-se.


Primeiro foi pelo rio, onde se imaginou a navegar, a nadar, a mergulhar e a contar peixes a dois. Depois apaixonou-se pelo céu que era da cor dos seus olhos, azuis. Mais tarde por uma nuvem, mas concluiu que tinham objectivos de vida diferentes. E, por fim, por um pássaro, que um dia lhe caiu à frente do nariz e que a fez acordar no meio de um sonho.


O sonho estava a ser maravilhoso. Eis senão quando, jaz um pássaro sem bando, caído à sua frente e lhe pediu ajuda, estava ferido. Laura, tinha um coração enorme e um estômago habituado pelo seu dono sem nome, a comer comida de lata.


O que toda a gente esperava, era que ela fizesse jus à sua espécie e se atirasse de cabeça para o comer, mas Laura aprendeu a resistir aos instintos mais primários e não salivava pelos seus antepassados.


A fragilidade em que O encontrou naquele momento, fez com que revelasse a sua complacência e compaixão e mais tarde, os sentimentos mais nobres que uma gata pode sentir por um pássaro. Foram dias perdidos de histórias que ele lhe contava do mundo dos pássaros e histórias que ela lhe contava do mundo dos gatos… no telhado de zinco… sempre quente, pelo Sol.


Dias e noites, após...


Laura, abandonou praticamente o seu dono sem nome. Faltava já muitas vezes à primeira chamada, quando a porta de casa se abria, ao fim da tarde. Não lhe fazia mais falta os seus tornozelos ou o calor da sua mão.




E, um dia, pela última vez respondeu à primeira chamada; - Lauuuuuuuurrrrrrrraaaaaaaa. Dançou, despediu-se daquela mão quente que tantas vezes a afagou, subiu ao telhado e voou com ele.




Hoje, não se chama mais Laura, mas apenas Gata.

domingo, 23 de maio de 2010

Recordar - O Vento, o Caos e Maria

(recordar)

Maria estava agora perdida no caos… mais do que nunca…sem ao certo, saber porquê…

Ainda atordoada, perguntava a si própria baixinho porque não conseguia descortinar o caminho de volta para casa. Aquela casa, branca, térrea, com janelas de portadas verdes escuras, um alpendre, e com muito espaço à volta preenchido por alfazema, a seu tempo, salpicado de campânulas e papoílas, que lhe traziam tantas e tão boas recordações.

A sua casa era a única que permanecia no mesmo sítio desde o último tornado, que levara muita coisa pelo ar. Maria, procurava esquecer o assobio do vento enraivecido a soprar aos seus ouvidos. Tinha aquele som gravado e tinha medo. O vento estava zangado, muito zangado. Em plena sinfonia desenfreada, Maria ainda tentou perguntar-lhe de mansinho o porquê de tanta ira. Mas ele nunca a ouviu, porque assobiava mais alto que a sua voz doce e meiga, que só era perceptível no silêncio. Quando cruzavam olhares, ela e o vento, voltava com os olhos a questiona-lo, mas era impossível, porque ele rodopiava, rodopiava e rodopiava, sem nunca abrandar. Nunca lhe respondeu.

Os campos e as sementes, os cheiros, as lembranças doces e amargas, os amigos de sempre, as pessoas em quem confiava, os sorrisos fantásticos que outrora víramos estampados em rostos de felicidade, os sonhos poucos, muitos ou nenhuns, esvoaçavam como se a possibilidade de sonhar não fosse pertença de todos em igual modo e quantidade. O tornado levara almas e corpos, gentes, vidas, sem qualquer preferência por raça, credo ou cor. Levou as conchas todas que apanhou, praias inteiras, golfinhos, cavalos de pau e marinhos…

Retratos de família, brincadeiras de criança, amores permitidos e proibidos, vestes, ficando nuas e sentindo um frio de arrepiar. Levara também as árvores, os pássaros e os seus ninhos e as crias de todas as espécies animais e vegetais…

Sem perder tempo, o vento ciclónico e terrivelmente apressado levou consigo também todos os filhos, as Mães, os Pais, o Pai Natal, o trenó e as renas, as prendas, os doces, o que tanto queríamos e o que nunca tínhamos desejado de bom e de mau e levou também o ano anterior.

Levou A música… que profunda tristeza sentiu Maria, … a música fazia-lhe tanta falta.
As pessoas interessantes que conheceu,
A magia das coisas, as coisas boas e as coisas más.

Consigo, o vento levou ainda os mares, os rios, os lagos e os charcos. As fontes por isso secaram, não queriam ficar sozinhas. Os peixes coloridos e os prateados também tinham desaparecido, abriram a porta e saíram em fila, uns atrás dos outros, pelos céus...

As nuvens empurravam-se, umas às outras, carregavam em cima aviões com pessoas, pessoas com histórias, histórias de famílias, de laços e de “nós” consanguíneos.

Os sacos que nunca serviram para outra coisa, aproveitaram para transportar o que restava, as coisas mais humildes. Levaram brinquedos novos e velhos, apanhavam tudo com uma das asas e metiam dentro de si tudo o que lhes acontecia pela frente.

Maria não queria acreditar que um tornado fosse capaz de anarquizar tudo e que após um período de trégua, voltasse a baralhar e dar de novo.

Percebera, então onde estava. Permaneceu o tempo todo dentro de casa, refugiada num canto da sala. Cerrava os olhos, para de vez em quando matar a maldita curiosidade por entre os dedos e ver na direcção de uma das três janelas ainda fixas às paredes da sala…o que continuava acontecer…

Maria olhava em volta, e via o caos e o vazio.
….

Por último, os seres Tornados homens levaram as palavras e com elas, Maria deixou de poder dizer o que quer que fosse, desaprendeu de soletrar e tombou silenciosa e inerte.

O Seu último olhar foi para ver Maria, voar de si própria, dançando com o vento e esboçando um sorriso.
-Adeus, Maria - disse a si própria.


Amigos,

passem pelo blog "Viver é Pura Magia" que está nos blogs que sigo...Surprise!

Obrigado Ricardo, ficou maravilhoso acompanhado da música de Bob Macfferrin....é para mim uma honra que pegue num post meu e o dê a ler a todos os seus seguidores. Bjs, vamo-nos encontrando por aqui.