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terça-feira, 1 de março de 2011

O vôo dos pássaros...



Este ano dei pela Primavera chegar, por ti. Foste tu que me anunciaste a sua chegada. ELA chegou mais cedo do que eu esperava...

Não fiquei contente com isso, como foi meu hábito em anos anteriores. A chegada da Primavera é sempre um momento forte, um momento que se sente por dentro, que toda a natureza SENTE, porque nos acalenta a alma e o corpo e nos propõem histórias com história, que nos abre mais os braços, que nos faz ir a correr para ao pé de quem gostamos e fomentar a vida. Nenhum ser vivo, consegue deixar passar esta estação do ano, em branco...e, tu, não foste diferente, seguiste o rumo...
...o vôo dos pássaros...

...ainda não me foi anunciada oficialmente, vai ser um destes dias...quando isso acontecer, já vou estar preparada e aí, logo vejo se me apetece recebê-la...
 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

As minhas duas mãos...



Permaneci naquele parapeito...de queixo pousado...

Sozinha de olhos tristes e corpo sem ter noção do que sente por dentro... me despeço, de tudo o que me fez dançar em várias estações da vida. De cabelo solto e alma presa, vestida me dispo e me volto a vestir de lábios escarlate por entre sentimentos sem mágoa nem histórias, nem duplicados. Tapo a minha boca... não quero que me vejam os lábios forrados de pétalas, ...calo-me...

No meu regaço papéis dobrados em quatro, de vida a dois e mais dois e mais dois... Procurei sempre a felicidade das histórias...hoje, vivem encerradas em linhas de escrita esquecida...que o tempo acabará por decifrar...que eu própria já não sei fazer, nem lembrar...

De olhos rasgados...Fazes-me sinal, para que impere o silêncio e oiça alguém a dedilhar um sonho no piano...para que oiça o Nocturno de Chopin,...

... quando o compôs, neste último momento, arrancado a ferros de desejo e de raiva...de ternura e de amor, de matar o desejo da saudade, a pauta não queria, a música abraçava-o. Os meus olhos não me reconhecem mais, cada um interroga o outro, interrogam-se simultâneamente, das dúvidas com que são capazes de viver...Não existem nem olhos, nem corações que não tenham dúvidas a respeito de alguma coisa...

Deito-me, nua ...Não reconheço o meu corpo...

Sozinha aconchego-me em mim que já conheço, e no despeito da lua enterneço e me consolo. Eu... sou duas mãos, uma direita e outra esquerda, idênticas, semelhantes, quase siamesas, mas ambas têm vontade, querem a mesma coisa, sem querer...Tu és duas mãos, uma direita e uma esquerda, idênticas, semelhantes, quase siamesas, mas ambas têm vontade, querem a mesma coisa sem querer...Todos nós somos duas mãos...Eu e ela permanecemos juntas, mesmo quando a convivência não é pacífica. Volta a pedir-me silêncio...

Volto para o parapeito da vida, somos duas...pouso o queixo...

Olho-me de todos os ângulos...

Calo-me, tapo o meu corpo e fecho os olhos molhados...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011



Calmo mar salgado que endoidece sombras,
agita miragens, sufoca de prazer e de desejo
ceifando corpos por anunciar...

Calmo mar salgado que acolhe aves de todas as espécies
sem escolha
sem oportunidade de dizer não,
atraídas pela beleza e pela grandeza dos teus gestos...

Calmo mar salgado que rouba vidas a meio
numa viagem sem fim, ...que se desfazem na sua grandeza
e que enaltecem ao vê-lo...

Calmo mar salgado bravio
que de manso nada tem...
transformar-te-ás um dia, em
Calmo mar doce amado, sem sentido ou significado...
e, na boca de ninguém...

É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar...

Sabes-me mal...sabes-me a sal...sabes-me bem...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Forma metafórica de sentir...


Saber-te ou saber-me por perto, acalma o meu estranho sentir...
metafórico...

Permaneço presa no meio dos escombros das possibilidades...
Tudo continua em aberto, eu, tu,
uma história que teve início num fim...
e vou-me deixando escorregar devagarinho...

Permaneço suspensa aqui e ali.
Perduro no tempo memórias, estranhas vagas de emoção
que para trás vão ficando, enquanto o relógio assinala as últimas badaladas.
Lá fora, tudo é turvo, branco, frio, húmido  e onde a esperança é uma filha bastarda.
 
Que estranha forma de colmatar um desejo insaciado
que não sei definir, mas que me rasga por dentro
É um desejo cruel, monstruoso que me agarrou nas suas garras
e que teima em não me largar,
numa luta desigual...é desumano.

Foi um amor que me adoptou, sem que desse por isso
Não o procurei, aconteceu...que ilustra o meu mundo
pardacento, real, onde as fronteiras existem e a vida acontece por metade...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A rua sinuosa e cinzenta...


Subia  a rua mais sinuosa e mais cinzenta de todas...

Maria vinda do caos, regressava de novo, agora...
ao mundo dos conceitos e dos preconceitos, dos esconderijos, das regras, das vicissitudes, das teorias sem sustentação, das frases feitas, das pequenas ditaduras, das democracias fingidas, da vaidade das elites, das crianças sem futuro sustentável, dos cegos por opção, dos voluntários à força, dos infelizes sonhadores, dos devastados por uma vida de esforço sem recompensa, da maldade, da crueldade, da mentira, da tirania, da exploração, da guerra, do sofrimento, da doença, da coacção, do abuso pelos mais fracos, da ironia dos vivos, da falta de esperança, dos moribundos, das instituições ludibriantes, da longevidade sem qualidade de vida, da supremacia dos pequenos poderes, do medo que move pessoas, do triunfo dos porcos, da maldade a todo o preço, do dinheiro, das compras substitutas de patologias maiores, da ambição desmedida, da ausência de respeito pelo nosso semelhante, da falta de dignidade, de amor, da ausência de laços, de valores, do desespero, da maldade do Homem, ...e, da falta de vontade e de força para mudar isto tudo...

...olhava para trás, sem saber o que fazer...
...mergulhava na dúvida que nunca julgou que pudesse um dia ter...quando voltasse...
Pôs pés ao caminho com tanta certeza, de que as coisas haviam mudado, ...passara tanto tempo...

Permanecia no limbo de um e de outro mundo, olhava para um lado e para outro...Sentia-se numa encruzilhada e detinha as pernas, que aos poucos ficavam trémulas...Alimentara a esperança de que um dia, quando subisse a rua mais sinuosa e cinzenta de todas, iria encontrar finalmente o arco-íris...Fora o último tornado que varrera a terra, que lhe contou.

Maria, depois de tanto tempo de viagem dentro de si, onde teve oportunidade de se encontrar com os seus defeitos todos, com as suas virtudes, onde travou autênticas batalhas com os seus medos, saiu vitoriosa e acreditou que dali em diante poderia refazer mundos...Por isso saiu e aventurou-se, voltando.

Um passo em frente... mas, os seus olhos não conseguiam alcançar o brilho próprio da presença das cores, da luz... Chamou o vento. Gritou bem alto, por ele. Precisava aconselhar-se, precisava do seu amigo... Não obteve resposta. Repetia os gestos e o olhar, para um lado e para o outro. Voltou a gritar, aflita...

Acabou, encostada a uma parede, por onde foi escorregando devagarinho até se sentir sentada. Maria, percebeu que teria que resolver sozinha o seu destino. Ponderou... perdida no tempo, o tempo que este lhe dera para o fazer, pensava no vento e questionava-se. "Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afecto que espera recompensa? Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro?..." Maria tinha consigo todas as respostas. O vento um dia escrevera-lhe uma carta, que ela resolveu nunca abrir. Guardava-a consigo, fazendo parte da meia dúzia de pertences que carregava para onde fosse o seu destino. Por instantes, pensou abri-la...imaginou, que se sentiria mais acompanhada naquele momento de decisões difíceis, em que precisava decidir entre abandonar o seu mundo interior para sempre, ou voltar ao mundo dos Homens...olhou, em volta, procurou-o de novo com o olhar, numa última esperança, antes de decidir o que fazer...Nada, nem brisa... 

Maria, fechou os olhos, acabou adormecendo...

... amigos, meti os pés pelas mãos...:-))...no meio da confusão onde por vezes me encontro, apaguei o meu último texto - A rua sinuosa e cinzenta....pior, não fiquei com qualquer cópia. O post já tinha alguns comentários, pelo que peço desculpa aos seus autores. Será que alguém me pode ajudar a recuperar esse texto?

Obrigada
Ana A.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O guião


 
O guião estava terminado.
Entre um pedacinho de chocolate negro, e outro, que gostava de deixar derreter na boca devagarinho,  revia os últimos pormenores de uma trama  doce/amarga, que iria entrar sem pedir licença nas vidas da sua cidade e nas cidades de todo o mundo. Estava ansioso por começar a rodar o filme. Tinha os protagonistas  ideais para uma história de amor, quente, com contornos de realidade  urbana,  que retratava com precisão a contemporaneidade dos nossos dias, com a marca da sedução e  da sensualidade.  Conseguiu.

Revia, pela ultima vez, os diálogos do argumento que toda a sua vida desejou escrever, sem preconceito...e com orgulho.
...
"Ela:
...deixa-me ver-te...
...desnuda os meus olhos, desta venda que me sufoca e que me mata na esperança de sentir o calor do teu cheiro. Já não sinto os meus lábios, nem os meus dedos...

Ele:
 - Espera um pouco, tem calma, deixa-te ir...sem pressas, deixa que o teu cabelo não aguente mais estar longe do meu ventre e me procure...

Ela:
- Deixas-me louca...vou "despedaçar-me" em ti...

Ele:
- ...se fores capaz...deixar-te-ei percorrer a minha imaginação... e num único fôlego  sentirás a minha alma ávida de ti, das tuas loucuras, do que seriamos capazes de fazer e desfazer juntos em uníssono, prolongando a vida apenas em  pedaços doces de luxúria, triunfantes, em que não existindo barreiras a insanidade do amor será rainha...
...serena o desejo de descobrir novos lugares, latitudes ainda por alcançar, porque os pontos cardeais a percorrer entre nós confundem as bússolas no espaço e no tempo... juntos... vamos enfeitiçar a Lua para que viva apenas cheia, o Sol lamber-nos-á a pele para nos ludibriar de cor, o Mar transformar-se-á no nosso chão a percorrer...
...
Ela:
-  serenamente, adormeço...
...permaneço, no entanto, à mercê de um desejo desmedido, que me absorve os pensamentos  e que te encontra nos sonhos por onde passo..."
...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

...corpo e alma...um bocadinho de muito calor..




Soprava um vento norte sem mágoa de ninguém, ao mesmo tempo que a neve caia fora e dentro de mim... Através da vidraça, onde permanecia de manhã à noite, conseguia ver a minha alma frígida, mate, que outrora se tinha perdido do meu corpo,... a rondar a minha casa, neste instante. Esbocei um sorriso a sério, após inumeráveis anos...


Tudo começou, quando um certo dia a minha alma quis vaguear pelo mundo. E, sem qualquer satisfação demitiu-se, deixando-me só... Eu, tinha acabado de completar trinta anos...eu, e ela... dormia tranquilamente na minha cama sem desconfiar de nada... eu, ... Fruiu o meu estado profundo, sem sonhos...e, saiu. Ouvi a porta bater, julguei ser o vento...

Na manhã seguinte, quando acordei senti-me diferente, não sabia explicar, sentia-me profundamente triste, vazia, mutilada, decepada, magoada, ofendida,...sem perceber porquê. Notei alguns minutos depois, quando me olhei no espelho, que não me via, não me sentia...Tudo eram interrogações para aquele estado do avesso que havia encontrado, naquela manhã branca que sibilava... tudo, perdera o esplendor. 

A vida lá fora e cá dentro não tinha sentido, ordenança, sequência, inferência, desígnio, desafio, força anímica... Os pássaros não eram mais os mesmos..., o mar nunca mais se ouviu..., as árvores deixaram de dar frutos..., as pessoas deixaram de ser interessantes..., os livros perderam as histórias..., as fábulas perderam os animais e as lições de vida..., a vida perdeu-se nas mortes apelantes..., o meu coração desistiu de sentir...,  o sol escondeu-se..., o arco-íris perdeu as cores..., os peixes cessaram de nadar..., apenas..., às vezes..., as crianças conseguiam arrancar de mim um esgueiro e afectado sorriso...

No início, julguei-a. Numa cólera forte que não imaginei existir dentro de mim,... transformada em tempestade, trovejei sobre ela raios e trovões, chuva forte, granizo...Ofendi-a, chamei-lhe nomes… ingrata, desprendida, falsa, traiçoeira ... não compreendia porque me abandonara, …ninguém gosta de ser abandonado, e eu não sou diferente de ninguém,...Tínhamos brincado juntas, traquinices de criança,  interrogações e loucuras de adolescente partilhadas...boas lembranças. Não entendia, porque me abandonara, como fora capaz...Fê-lo, sem proferir uma palavra ou deixar um papel escrito...

Com o passar do tempo madurei e ordenei os pensamentos, ... entendi que fora em busca da sua própria liberdade, da felicidade dos Homens, do calor...de um bocadinho de muito calor...onde se sentisse albergada, acesa. 

Sabia, que as almas para viverem em plena luz, precisavam de calor. Apesar, de a amar profundamente, o corpo onde permanecera asilada em anos perdidos, fazia-a sentir-se desconfortável, fria, carente, ...e, por isso partira em busca do calor desejado, que as alimenta. E, lembro agora, desmemoriada, que por muitas vezes a vi de mãos trémulas, sem reparar. Achei que as almas tremiam, todas as almas tremiam, porque eram assim.

Fazes-me falta, segredei algumas vezes para dentro de mim...fazes-me, tanta falta...Contudo, em vão. Quem se cruzou com ela por estes tempos, conta que atravessava vidas, de um lado para o outro, feliz, liberta, dormia num corpo qualquer de quem nem precisava saber o nome ou os hábitos. Na manhã seguinte partia, sem deixar rastro ou cauda de cometa...Aprendeu  nesta viagem, como se aquece o corpo onde se elegeu viver. Pareceu-lhe inicialmente complicado, agora  faz aquilo com uma perna às costas...

Assente na janela, mantinha-se o meu corpo, como naquela manhã sem fim, ...nunca teve outro lugar. Os olhos engastados lá fora, a cada estação... branca-neve, verde-nascer, cor-de-laranja-sol, ocre-folhas no chão, ano após ano...

E, lá estava ela, acaba de chegar do mundo...bateu.

Abri a porta, os meus olhos olharam os teus, abracei-te e a seguir derreti... o sangue, voltara a correr-me nas veias, agora quente, aqueceu o meu corpo todo, uma sensação que, por pouco quase esquecia...olhaste-me, dizendo:... trago comigo, um bocadinho de muito calor...Aconteceu o reencontro, contigo e comigo…Voltaram a ser felizes juntos, corpo e alma, para sempre quentes...


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O resgate da Lua...



A humidade e o frio do final da tarde, entranhava-se... Estava sozinha e sentia a solidão como nunca. Sentia um vazio pesado, pronunciado, difícil de aguentar. Era diferente, do vazio que senti outras vezes no meio da multidão, quando de volta a casa cruzava vidas e sonhos de novos e velhos, onde não havia crianças. Mas era igualmente insuportável...talvez, por não existirem crianças.
Adormeci...
Acordei mais tarde...não sei onde, ...no meio de folhas...
No bosque, as árvores centenárias de várias espécies, altas e robustas,  carregadas ainda de folhas secas, escondiam-nos da luz ténue de um Sol que acabara de cumprir a sua missão e que estava de partida.

A última imagem que tenho gravada na memória, era de que mal se viam as primeiras estrelas no céu, quando os dois, de pés descalços,  rumamos a uma clareira iluminada pela Lua que se adivinhava grande, redonda e muito branca. Pisávamos folhas de Outono, castanhas amareladas, que gemiam baixinho de forma sentida à nossa silenciosa passagem e seguíamos o mesmo caminho sem hesitar, de mãos dadas, porque elas sentiram saudades de se entrelaçar.

De olhos vendados,  percorremos lado a lado quilómetros de chão com um odor de raízes e folhas humedecidas pelas primeiras chuvas, petrificadas e em decomposição, que iam enriquecer e alimentar um solo seco e gretado nos espaços iluminados pelos raios de sol...até à clareira que nos ia acolher.

Não compreendíamos, porque razão, uns seres com asas, nos tinham largado ao mesmo tempo, no mesmo lugar, perguntando para dentro de nós com que objectivo. Para trás, tinham ficado momentos em que senti  as minhas pernas roçarem os braços mais finos das árvores e os meus pés tocarem as suas copas. Contigo não sei como foi, não sei o que sentiste,.. eu senti tudo...

Chegamos e desmaiamos inteiros. A lua olhou para nós, reluzente, brilhante e enorme. Toda a sua luz se transformara em energia que despejava com prazer sobre os nossos corpos ávidos de calor, outrora mutilados pelo tempo e pela ausência prolongada um do outro. Transformou o que sentíamos num eloquente reencontro final. Abandona-mo-nos à mercê das saudades, dos filhos da natureza presentes, do lugar, do momento e procurámos os corpos um do outro, começando uma dança. Uma dança quente...

A Lua assistira lá do alto embevecida, ...de autora do nosso resgate...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Lady D'Arbanville

Queria amadurecer as minhas palavras
para te aconchegares nelas
Queria que elas se transformassem em algodão 
e que te pudessem acarinhar e receber...
Amar-te-ei em surdina...
por entre os escombros da vida das gentes
sem que ao menos te sonhe...
Sentir-te-ás o príncipe 
de todas as donzelas
e o arquitecto das abóbadas perfeitas
sem saberes porquê
Porque eu sou,
Porque eu existo.
Pronunciarei sussurros aos teus ouvidos
e recriaremos uma história de amor,
daquelas que todos desejam e escondem dos outros
Não sei porque o fazem
de onde lhes vem a vergonha
Quando não existe melhor sentir e significar
de alguém por alguém...

Acordarei, no entanto, feliz
ao imaginar que também o és, ... Lady D'Arbanville...

sábado, 8 de janeiro de 2011

O tempo das maçãs...



Era uma vez, uma maçã dentada, que brotara num país pequeno. Abocanhada  ao longo dos nossos antepassados, vivia tristonha por sentir que lhe faltava um pedaço. Ela, não entendia por que o destino lhe reservara uma existência diferente, mais brilhante, mais magnética…ninguém entendia, mas testemunhavam  a ocorrência...

Por adágio do pecado, o Cristianismo usou-a para ser mordida por Adão quando quis enternecer e seduzir Eva. Ficou no cacho dos homens, depois de deslizada a seiva e engolida a carne. Sobre o fruto apetecível que tem origem no pecado e, que simultaneamente, dá a morte e  vida, multiplicaram-se histórias, contos,  mitos e lendas.

Eris, a Deusa da discórdia, depois de ofendida por não ter sido convidada para o casamento de Pelais e Tetis, por vingança, lançou, em plena cerimónia uma maçã de ouro com a inscrição: "À mais bela – Kallisti". As Deusas Hera, Atenea e Afrodite disputaram o título e tentaram Pares com a mulher mais bela presente, Helena de Esparta, o que desencadeou indirectamente o início da Guerra de Troía; As maçãs de ouro aparecem também no Jardim de Hespérides, como fruto da árvore da vida; Herácles, como castigo dos seus doze trabalhos, fora requisitado para viajar até ao jardim de Hespérides e recolher todas as maçãs de ouro da árvore da vida; Hipómenes, ganhou a mão de Atalanta, depois de a vencer com três maçãs de ouro (os dons de Afrodita, a Deusa do amor); Guilherme Tell, teve de atravessar com uma seta uma maçã colocada em cima da cabeça de seu filho; Na lenda dos colonizadores americanos a história de “Joãozinho semente de Maçã”; “A garota com a maçã”; “A branca de neve e os sete anões”, em que Blancaneus, cai morta quando come uma maçã envenenada pela bruxa; e, Isaac Newton, que se inspirou para desenvolver a teoria da gravidade, ao ver cair uma maçã de uma árvore.

Mas, foi na segunda metade dos anos 70, que dois hippies da Califórnia, lhe deram um novo estilo, uma nova forma e uma nova filosofia de vida. Quando um raio de luz incidia sobre um prisma triangular, os estudos de Newton, diziam que, do outro lado, é projectado um espectro exibindo várias cores. As mesmas cores são utilizadas na maçã feliz, as cores do arco-íris não seguindo a mesma ordem, representativo de rebeldia. A maçã é uma das espécies de frutas que precisa acumular mais horas de frio, com temperaturas inferiores a 7 °C. Tal como a conheço.

De tempos a tempos, sente-se só e recorda com a alegria os ensejos em que vivera suspensa numa árvore acompanhada de todas as outras maçãs, agarrada à árvore-mãe, uma macieira de ar frágil mas corajosa e que tudo tinha feito ao longo da vida para manter a comunhão e a felicidade dos seus frutos. Deu-lhes o melhor que sempre soube, que sempre teve, que sempre conseguiu. Vestiu-os com as melhores cores, a cada Verão. Em nada diferente de todas as árvores-mãe.

O pomar que acolhera esta macieira corajosa, há muitos anos atrás, era um pomar trabalhador de semblante ríspido caracterizado pela condição masculina e os valores da altura, liberdade de características masculinas, que vincularam o seu percurso e a sua forma de estar. Nunca deixou de fazer o seu papel de braços abertos pronto para receber os seus frutos. No entanto, muitas vezes se ausentou à procura do melhor, …outras vezes, desaparecia numa dúvida vã que nos acompanha a todos e que nos faz inclusive questionar a forma da nossa existência, …simplesmente desaparecia, mesmo presente. Percebíamos a sua presença, porque o ar rude, se fazia notar, quando achava necessário e exercia a sua autoridade na plenitude.

O pomar amara a macieira no inicio daquela época assim que a vira chegar, na sua juventude e no seu esplendor, que também era o dele. Foi entre Novembro e Janeiro que a transplantaram para aquele pomar. Trocaram dúvidas enquanto acabavam de crescer e criaram raízes agarradas um ao outro. Recorda-a na primavera vestida de flores pequeninas brancas e amarelas de onde provinha um cheiro fresco, viçoso, de árvore pronta para dar frutos, que ainda hoje recorda.

Apesar do tempo, hoje, ter transformado aquele amor, numa tranquila alegria de ter apenas alguém por perto, amadurecem em paz,   cientes do que construíram o melhor que souberam, orgulhosos de tudo o que têm, do que não têm e do que deixaram ficar para trás sem solução aparente, que lhes deixa uma preocupação sempre presente quando se forem embora. 

Desse amor, nasceram frutos de várias cores, forças, estilos e fulgor, de várias castas, Golden Delicious, Granny Smith, Reine des Reinettes, e Apple. Cresceram na liberdade das ruas, sempre vigiados por amas de aventura e perigos amigos. Voltavam a casa ao final dos dias, para dormir e comer, com os  joelhos podres e braços  amachucados por uma briga com outras maçãs mais bolorentas ou com bicho, mas com um sorriso enorme por terem ganho mais uma batalha e vencido mais um dia.

Cresceu à procura da melhor caixa, do melhor supermercado, da melhor montra, de maior protagonismo, …daquele bocado…Venceu. Contínua a sentir que lhe falta um pedaço, mas aprendeu a viver sem ele.


Se ela entendesse, que o significado dessa mordida (bite = byte), desse pedaço a menos, traduz que todos os dias milhares de pessoas sorvem dela o conhecimento, deixaria de se sentir tristonha e sozinha de quando em vez…porque, está sempre acompanhada, por toda a gente em todo o mundo, apesar de não os ver. É feliz do seu modo, orgulha-se por se encontrar espalhada pelo mundo inteiro, por ter chegado onde chegou, tão longe, …é o orgulho dos pais.



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Olhos que não vêem, coração que "quase" não sente...



Nunca me deveriam ter ensinado o significado da palavra "saudade", talvez agora desse outro nome ao que sinto com esta intensidade.

Para que serve a saudade que sentimos? ...para nada, concluo.

Porque sentimos saudades do que existiu e do que nunca existiu, de quem esteve e não esteve connosco, das palavras trocadas e das que ficaram por dizer? ...para nada, concluo.

Então, para que foi que inventaram esta palavra, que não serve para nada? ..."Saudade".

Determino, que os inventores anciãos desta sentença, sejam condenados eternamente, a ter saudade de tudo quanto gostaram...e, que quando não aguentarem mais, percebam o que se sente quando sentido por outros... a impotência, a angústia, a incapacidade,  a impossança, a debilidade, o afogo, a constrição,  a ânsia, a estrangulação, o desassossego, a agonia, o tormento, …

...talvez assim, sintam que é necessário apagar dos dicionários de todo o mundo e por sequência das nossas memórias, esta palavra e o seu significado…


“olhos que não vêem, coração que “quase” não sente”…será?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Bom Ano 2011



Findo este meu ano
sem saber o que o próximo me vai trazer
trocava as surpresas pelas certezas
do futuro
Incomodam-me as incógnitas
Não queria que ele terminasse
Havia ainda tanto para fazer
e para dizer
Sobretudo mais e melhor
Quero o melhor para mim e para quem estiver por perto
que do longe se faz perto
honestamente melhor
Resolvi entrar no próximo em terras vizinhas
p'ra que me traga o salero
que este não apresentou
de tão Lusitano que foi

....
Teve fado, nostalgia,
mágoa, melancolia
Teve sonho, corpo inteiro, reticências
devaneios
algumas ausências
loucura, ternura, alegria
sempre esguia
Teve metáforas deliciosas
outras em tudo escabrosas
Muitos signficados
de vários apaixonados
outro tanto derramados

E, muito do que por aqui se disse
ao longo de todo o ano
foi muito mais que, desdisse
que verdade, amor ou paixão
Foram reflexos magoados
por todas as gentes vividos
de onde vieram significados
por todos interpretados
de sonhos ou talvez não
Aqui me dispo e dispo outros
com vontade de os vestir
sem nunca deixar de dizer
ou me obrigar a mentir
A perfeição não existe
em tudo e em todos nos trai
Somos seres aglomerados
cheios de significados
excepto no que está para vir
Adorei estar com vocês
que me lêem outras cores
aguardo com expectativa
a vida para além da vida
e o desenrolar de novos amores

Um beijo para o caminho,...
...de um novo ano à nossa espera.

Feliz 2011, para todos quantos se sentem bem ao passar por aqui...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O virtual Jogo de Xadrez


Na batalha de uma vida
por entre reis e rainhas,
torres, bispos e cavalos
amargurou um menino
que nunca fez parte do jogo...
O jogo não existia por não haver jogadores
havia peças brancas e pretas
havia reis, rainhas, torres, bispos, cavalos e peões
havia duas cores distintas
branco e preto
e havia o momento em que se misturavam
criando uma fronteira cinzenta, pardacenta
umas vezes mais escura que outras, mas sempre cinzenta
era o limite das cores,
onde se fundiam
...para o bem e para o mal...

venceu o mal, o contrário das histórias com final feliz...

O jogo não existia, a não ser o jogo da vida
onde todos somos peões
onde todas as peças têm um valor relativo
dependente da função da peça
e da estratégia da vida
amargurou uma menina
que nunca fez parte do jogo...
por causa da amplitude de movimentos
que a cada peça corresponde

O jogo não existia, o jogo nunca existiu...senão, o jogo que a vida nos obriga a jogar todos os dias.

Vencidos por nós...

 

Nada colmata as distâncias
não há actos ou afectos que as alimente
Nada colmata o que ficou por fazer
as coisas mais simples
de que a vida também é feita
transformam-se em desencontros latentes
que espreitam a cada esquina os destinos
e crescem ás avessas
Nada sobrevive em mundos distintos
águas que só se misturam ás vezes
sem ter o mesmo curso
por muito que o seu correr seja feliz
Nada vence a escuridão o espaço criado
as lacunas
Nada vence as pausas de frio deixado pelo calor ardente
Nada vence a ira gratuita a resvalar o prazer pela maldade
de quem se sente enganado
Vencidos, nos deixamos ir cada um para seu lado
para mais longe ainda...
que a distância que sempre nos separou
onde um dia nos encontramos perto

Nada nos vence, senão nós próprios...
Fomos vencidos por nós...

Al Berto - pintor e poeta/ Poema - A carta da árvore triste


"escrevo-te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora
o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã
espaço de penumbras e de incertezas
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite
este vácuo lento este visco dos espelhos
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele
começa a asfixia o perigo de ter amado
no mais profundo segredo das noites devoravamo-nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto
como um presságio
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras
revelam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido
é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola-se-me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou-se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram-se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever-te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar-me-ia todo o desejo
cegar-me-ia tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter-me-ia sido fatal
conduzir-me-ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar-me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo
sinto a manhã cada segundo mais próxima
ameaçadora e cruel
a luz arrastar-me-á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer
arremessar-me-ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir
tenho a certeza de que parto para sempre
não haverá regresso nenhum
creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
a paixão nascesse durante o sono
um país um pouco maior que este quarto
fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
inventaria mesmo desculpas plausíveis
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
catástrofes
e na espera duma carta acabaria por me embebedar
beber muito e esperar
esperar
digo tudo isto mas já ..."

                                                                                                      Autor: AL BERTO


A vida esgota-se em nós... peixes voadores...

Mais do que nas palavras que proferes
é nos teus olhos e nos teus gestos que encontro a verdade 
do que sentes
Antes de começares a falar
Depois, passado um momento tudo flui
Expões os nós maiores
e começas a desatar, largando pontas soltas aqui e ali, por todo o lado
Ficas à espera que as agarre e que as enlace a qualquer coisa,
mas algumas não passam disso mesmo
pontas soltas, à deriva ainda procuram significado
não as consegues agarrar a nada, porque não têm onde
é mesmo assim, nasceram soltas, nada mais
Procuramos a lógica de tudo, tu e eu
quando ela por vezes não existe
nem tudo  é um desencadear ordinário, numérico
há números que vivem sozinhos, soltos desintegrados da ordem
e isso não tem que ser obrigatoriamente ausência de uma lógica que conheces
Não é um jogo, não há peças de xadrez
A seguir deveriam aparecer os laços, os supostos laços em que as duas pontas soltas se encontram
para se entrelaçar
mas são de papel
que ao dobrar
rasgam...
Deixas comigo o pior de ti, levas contigo o pior de nós...
É difícil acreditar que o Mundo é melhor do que nós dois juntos
Mas há um amor que não subsiste
que não tem força
A serenidade desapareceu do seio dos Homens

A vida esgota-se em nós...

A derrota



Maldita insuficiência do suficiente
Maldita instabilidade que vagueia por onde não deve
Maldita desconfiança adormecida
Que acorda a cada sono
que não deixa repousar ninguém
Diz-se amiga do amor
Chamo-lhe inimiga da verdade
das histórias bonitas
Maldita erva daninha que cresce a cada instante mais pequeno
E que mesmo sem ser regada
sobrevive
Maldita metástese, que alojada se esconde
disfarçada de vida
que mata aos poucos a verdade das coisas
das vidas, das possibilidades e dos sonhos
Maldita desconfiança
que abranda amores, que faz recuar águas
quentes
Sofredores maiores, dos que a ela se vendem
a quem confiam, a quem desabafam os seus maiores desejos
de quem ficam reféns na sua existência toda
não vivem a plenitude de tudo
sofrem, fazem sofrer
porque atrás de todas as coisas há sempre um fantasma, impiedoso
prestes a resistir e pronto para vencer sempre
Arrebatados, julgam 
Entre ela e eu poderia ser eu a vencer
Mas tu não deixas, não queres, não acreditas
Ela tem a verdade escrita no peito
eu tenho apenas a incerteza do teu acreditar
Dou-me por vencida, entrego-me...
vou-me embora sem forças
Vocês estão os dois do mesmo lado
eu fico sozinha, derrotada...

domingo, 26 de dezembro de 2010

and now ladies and gentlemen ... we fly to...


 
A lareira

Há uma lareira acesa entre nós que nos aquece
Que reinventa os afectos nesta quadra
É o alaranjado fogo que promete que os dias amanhã serão diferentes
Mais doces, mais solidários
As chamas têm asas, que se desfazem a cada crepitar
Para se refazerem noutras formas
Com a intensidade do calor adquirido
Atingimos o aconchego sublime
E aconchegamos os que estão ao nosso alcance
É um calor necessário, que aquece os corações mais selvagens
E nos transporta o pensamento para lugar nenhum, senão para junto de uma lareira
De contornos humanos, com histórias presentes e passados
pessoas fascinantes carregadas de compaixão e paixão pela vida
É este calor que a faz permanecer acesa
Sem lenha, sem pinhas, sem fogo
continuando arder...



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bom Natal e um excelente Ano Novo

Para todos os que aqui passam, desejos de um Feliz Natal, cheio de saúde e de coisas boas...bjss



"Chovera toda a noite. As ruas eram autênticas ribeiras, arrastando na enxurrada toda a espécie de detritos. Os carros passando a alta velocidade espalhavam, indiferentes, água suja sobre os transeuntes, molhando-os, sujando-os. 
    O Tonito seguia também naquela onda humana, sem destino. Tinha-se escapulido da barraca, onde vivia. Os pais tinham saído cedo para o trabalho, ainda ele dormia, os irmãos ficaram por lá brincando, chapinhando na lama que rodeava a barraca. Ele desceu à cidade, onde tudo o deslumbrava. Todo aquele movimento irregular, caótico, frenético. Os automóveis em correrias loucas, as gentes apressadas nos seus afazeres. E lá seguia pequenino, entre a multidão, numa cidade impávida, indiferente, cruel mesmo. Passava em frente às pastelarias, olhava para as montras recheadas de doçuras, ele comera de manhã um bocado de pão duro e bebera um copo de água. Vinha-lhe o aroma agradável dos bolos, o seu pequeno estômago doía-lhe com fome! Chovia agora mansamente, uma chuva gelada, levando uma cidade onde se cruzavam o fausto, a vaidade, o ter tudo, os embrulhos enfeitados das prendas, com a dor a melancolia, o sofrimento, o ter nada e no meio uma criança triste e com fome! 
    Mas o Tonito gostava era de ver as lojas dos brinquedos. Lá estavam os carros de corrida, o comboio, os bonecos, enfim todo um mundo maravilhoso que ele vivia, esborrachando o nariz sujo contra a montra. Lá dentro ia grande azáfama nas compras de Natal. E os carros de corrida, o comboio, os bonecos eram embrulhados em papeis bonitos para irem fazer a alegria de outros meninos. Uma lágrima descia, marcando-lhe um sulco na sujidade da carita. Eis que os seus olhos reparam num menino, que de lá dentro o olhava. Desviou-se envergonhado. Não gostava que o vissem chorar. E afastou-se devagar, pensando nos meninos que tinham Natal, guloseimas e carros de corrida para brincar. Ele nada tinha, além da fome e a ânsia de ser feliz e viver como os outros. Pensou no Natal, no Menino Jesus, que diziam que era amigo das crianças a quem dá tudo. Por que é que a ele o Jesus Pequenino do presépio nada dava?
De repente, uma mãozinha tocou-lhe no ombro.
    Voltou-se assustado. Era o menino da loja que lhe metia na mão um embrulho bonito. À frente a mãe, carregada de embrulhos, fazia de conta que nada via. Abriu-o e deslumbrado viu um carro de corridas, encarnado, brilhante, como os olhos do menino que lá ao longe lhe acenava. Ficou um momento sem saber o que fazer, mas depois largou a correr, mostrando bem alto a sua prenda de Natal.
    Parara de chover. O sol tentava romper as nuvens escuras, lançando um raio de luz brilhante e quente sobre o Tonito, que ria feliz, numa carita sulcada pelas lágrimas."
 
Autor: Fernando Sequeira