Maria, procurava hoje respostas para muitas das perguntas que lhe assolavam a alma...Não podia fazer mais nada senão entregar o seu mundo à Vida e ficar à espera para saber o que ela lhe retornava, um dia quando fosse mais pequenina...
No Mundo em que nascera, as pessoas nasciam velhas e com o passar dos anos ficavam cada vez mais novas...amava profundamente, aquela ordem decrescente das coisas, das pessoas, das histórias...tudo acontecia ao contrário. Maria, nunca conhecera outro lugar, senão aquele onde vivera uma vida inteira ao contrário...
Estabelecia, no entanto, por vezes comparações, com um outro mundo que um dia uma criança anfitriã lhe contara, recentemente chegada de um mundo avesso, em que a ordem de tudo era crescente e em que os Homens nasciam meninos e acabavam velhos, sem forças e sem vida.
Causava-lhe uma certa estranheza, confessava algumas vezes a si própria...como é que alguém, por exemplo, poderia contar de zero a cem, sendo que cem não era o início da vida, mas o fim. Fazia muito mais sentido que antes de zero uma vez que não existia nada, senão o vazio, fosse o fim de tudo...
No mundo de Maria, as pessoas sabiam imediatamente, quando nasciam velhinhas que iriam viver determinado número de anos, ...a incógnita não existia. Sabiam que tinham x anos para fazer o que quisessem, aprender, construir, edificar, dar, receber, amar e organizavam-na como entendiam, não desperdiçavam tempo, nem pessoas, nem atitudes, nem oportunidades, nem momentos, nem sonhos..Recordava-se de ouvir a criança anfitriã contar que, no mundo avesso, acontecia tudo ao contrário e por isso as pessoas não eram felizes, porque se perdiam no tempo, desperdiçando muitas coisas valiosas para a existência de uma vida plena...Era um mundo de desperdício, aquele mundo do avesso em que nunca vivera.
Maria nascera velhinha, com noventa anos aproximadamente, repleta, transbordante de sabedoria, carregada de princípios e significados, sem um único sonho por realizar, com um património humano incalculável... com histórias de vida maravilhosas que aqueciam os lugares e as pessoas que a rodeavam para a ouvir contar a sua vida, agora, já criança... e com o passar do tempo foi uma mulher madura, bem sucedida profissionalmente, amada nos momentos certos por alguéns do seu mundo, foi feliz no futuro/passado, no presente/presente e no passado/futuro, recuperou a beleza da pele, a vitalidade dos jovens, o cabelo sedoso, os olhos que transpiravam vida, e rejuvenescendo...até ao berço, despediu-se em paz, dela própria...
Eu, muitas vezes, procuro perceber em que mundo vivo...mas, em tudo se assemelha ao mundo avesso...deve ser isso...