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terça-feira, 9 de agosto de 2011

...por, tudo em geral e nada em particular...


 Por que razão muitos de nós procuram incessantemente o que não precisam, compram o que não querem sem que lhes faça falta, gritam com os mais fracos, têm um semblante pesado, riem e de imediato choram, vivem angustiados e ansiosos?...Porque não identificam com clareza o que lhes faz falta, em vez de nos enganarmos todos os dias?!!!...não entendem, sabem apenas que permanecem descontentes... Há sempre alguma insatisfação lá dentro...e, voltam a procurar, por aqui, por ali, por todos os cantos de si, por todos os cantos dos outros...permanecendo, insatisfeitos. Alguns destes, têm tudo! Quero dizer, têm tudo o que os outros lhe cobiçam, o que faz com que acreditem que encontraram o que procuravam realmente...

Enganados, um dia acordam e verificam que não. Afinal não era aquilo o que procuravam. Outros, só percebem que apesar do esforço e da determinação objectiva que os faz alcançar a cada esforço mais e mais, continuam na esperança de vir a encontrar o que lhes faltava. 

Há ainda, quem desde sempre teve muito, daí que, nem sabe bem o que procura ou se procura alguma coisa de facto. E, aqueles que nunca tiveram nada?!Será que são dotados da mesma capacidade absurda de insatisfação permanente? Talvez sim e talvez não. Talvez sim, porque nada têm, ou talvez não porque o seu tempo, a sua vida, é preenchida exclusivamente adquirir, sem ter tempo para pensar. São muito mais as conquistas que este Homem terá que fazer, do que aquele que nasceu com tudo o que queria...no entanto, também este insatisfeito...

Todos os dias assisto a desabafos, uns mais sentidos que outros, mas todos acabam por ser, queixumes e mágoas de vidas que se vivem por metade, porque lhes falta sempre qualquer coisa...Ou será, esta a condição humana que esta vida nos reserva?

Se assim é....onde reside então o dia D, o equilíbrio fundamental à existência humana sem muletas barbíturicas, sem  paroxetina,  fluoxetina ou sertralina... Qual é a formúla química para homens e mulheres, crianças e animais viverem em harmonia e com amor, de forma serena? ... Onde seja possível desfrutar a vida  e transformá-la apenas num orgasmo permanente..., bom...

...Já não falo para ninguém. Falo para mim, só para mim... Há muito que me deixei de retóricas para os outros...tenho apenas para mim, as minhas convicções a respeito e a propósito...

A solução está no amor, no afecto.
E, nas suas diferentes formas... de se espandir, de se espalhar...

O Homem nasce e cresce  no seio da família ou num núcleo qualquer idêntico... Assim, a dimensão que a sua família lhe Der,  será o seu  ponto de partida...onde, cada um tem o seu, com uma dimensão distinta...Receber, quase todos sabemos fazê-lo, mas, é em dar, que reside a verdadeira dificuldade...Penso: Se não sabemos dar e, como resultado... damos pouco, são poucos os que o recebem...e a insatisfação sobrevive por entre nós, enquanto tiver de que se alimentar.

Somos nós que alimentamos este monstro que cresce a cada dia, ao nosso lado...enquanto 12 milhões de pessoas morrem, literalmente, de fome...e, nós, morremos empanturrados de tudo, menos do que nos faz verdadeiramente falta...


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Escombros e gritos a várias vozes...


- NÃO ACEITO A CONDIÇÃO QUE ME IMPÕEM! Gritava aquela mulher baixinho em sofrimento, para dentro dela. - NÃO QUERO. MEREÇO MUITO MAIS E MUITO MELHOR, QUE O QUE ME OFERECEM AGORA! TENHO A CERTEZA!...Voltava a gritar em desespero...E, eu!!!!!!?
- Eu ouvia os seus gritos de sofrimento e de agonia e sofria solidária...sem quase nada poder fazer.

A sua voz dizia outras coisas, quando falava...e, eu ouvia...
Resignada com a decisão tomada por outros, por pessoas que amava e de quem se sentia "escrava" com "prazer" e  por "prazer", condição herdada por gerações no feminino, a que se habituou como profissão,  não queria fazer sofrer ninguém, preocupar ninguém, alterar as rotinas de ninguém e tentava de forma ordeira como toda a vida fez, compreender, convencer-se de que aquilo era o melhor para si e sobretudo o melhor para eles, uma vez que a decisão tinha sido aquela.

Acreditava que... - Jamais aqueles que amo e amei de forma incondicional, por quem sofri, padeci, me humilhei e passei fome... serão capazes de não zelar pelo melhor para mim, agora, que me faltam tão poucos anos para me ir embora e deixar em paz o mundo dos vivos...Apesar de tudo isto, concebia  ainda, mais um sacrifício na vida pelos que ama, fazê-los felizes pela decisão que haviam tomado...absurdamente, e, contra minha vontade...

...mesmo  no fim da vida, ...fazia-o por eles...

- Não lhe restavam forças para contrariar, retorquir ou até se impor...
Como eu a compreendia...Sentira isso com a minha mãe, quando passei a ser mãe dela... e ela deixou... tranquila. 

Não há uma determinada  idade na vida para que isto aconteça. O fenómeno acontece por necessidade dos pais, são eles que o definem e nós os filhos apenas o sentimos,... que dali em diante, passamos a ser pais deles. Acontece a todos nós, os mais novos..., que apesar de já não sermos muito novos pois os mais novos são os nossos filhos, a quem apelidamos de netos... velhos ainda não somos,...E, os mais velhos sentem que foram ultrapassados pela rapidez do mundo à sua volta, enquanto tratavam de nós. Um dia saem a porta, e verificam que tudo mudou, tão de repente, sem que lhes fosse dado tempo para o acompanhar.  

É nesse dia, que os pais se sentem filhos de novo e os filhos se sentem, então, pais realmente...mesmo, depois de terem  filhos.

Acordo e adormeço a ouvi-la... a ouvir o seu choro envergonhado de criança sozinha, que se sente abandonada, à noite, no quarto da Sãozinha que vive ali vai para dezassete anos. A Sãozinha já não sente, ou sente pouco...dezassete anos depois...

- A comida é muito boa, diz para si mesma baixinho...- Elas são carinhosas comigo, diz para si mesma baixinho...- Isto é muito limpinho, diz para si mesma baixinho...e, tenta esboçar um sorriso para si, baixinho para não acordar a Sãozinha...E, diz o mesmo a quem a vai visitar...

- ESTOU INDIGNADA, digo eu agora....quase a rebentar.!..Respiro fundo, reformulando os meus pensamentos e os meus sentimentos a propósito...- ADMIRO ESTA MULHER e GRITOOOOOOOOOOOOOOO.
- Estou-me nas tintas para a Sãozinha...
- Que me oiça, que acorde com os meus gritos de raiva e de insatisfação,....... não me RESIGNO com a nova condição que lhe atribuem.....

Fumo...e assisto à chegada por todas as portas que circundam aquela sala grande,  feia, com um pé direito alto e contígua a outra, onde arrumados em fila em sofás e em cadeiras, se encontravam depositados corpos, alguns estragados pela vida e pelo tempo, de cabeças vazias ou meias vazias pelo torpor de vidas tristes e já sem vida...à chegada para uma das refeições. Alguns roçam de muito perto a loucura, não sei se a trouxeram de fora se a adquiriram aqui, mas não faço perguntas...Não quero ouvir as respostas...Sentam-nos, quase encastrados, colocam-lhes os babete - avental para não sujar a roupa de 2ªfeira...porque, à noite vão para festa e têm que ir bonitos e apresentáveis...ou, porque só têm aquela muda!!!...ou, porque sim e pronto.

...e, enquanto a oiço, porque ainda não a liberei para jantar....olho em volta..., a cena é de um horror cinematográfico, muito próxima de alguns filmes que vi...não há empregados na sala, apenas hóspedes, ninguém tem um ar são e alegre, ....é o nosso destino... dirão os que ainda conseguem proferir palavras...resignados com a vida.

Vidas no feminino e no masculino que já não significam nada....!!!!!, nem para eles nem para ninguém...O silêncio e o meu momento de absurda contemplação é interrompido por uma mulher numa cadeira de rodas que não pára de dizer....Aiiii, Jesussss que me estou a sentir mal, sentada em frente a outra muito mais nova, que olha para ela de frente, mas não a está a ver, porque não  quer ver nada. Curiosamente, tinha-a visto antes na sala contígua da televisão, igualmente feia, a dar um beijo nos lábios a um senhor de mais idade... o que me chamou atenção, ao ponto de me questionar, será este um namoro arranjado aqui?....será, que aqui, ainda há amor em qualquer lado?...onde se manifesta?...


....Via, olhares perdidos por todos os lados, desinteressados de tudo, cabeças desmoronadas em cima de corpos desmoronados ou inertes... Alguém esboçou um sorriso, chamou-me atenção...Era um homem lúcido, um hóspede, alguém ainda agarrado à verdadeira vida que não queria largar,... que loucura seria a dele para ser ali hospedado? ..foi o único que vi a ler naquele final de tarde, os outros ou dormiam ou dormitavam entregues às poltronas ao som de uma televisão que debitava informação em nada importante para aquela gente. Haviam perdido a vida ainda vivos, que lhes interessava as notícias?... Um passeava para trás e para à frente, arrumava cadeiras no lugar certo, punha mesas direitas, de bengala numa mão e arrastando o corpo, aquele peso, que se lhe dessem a escolher o deixaria para trás...toda a tarde vagueou por entre os vivos, mortos, quase mortos diria.  Reparo numa mulher, que não tinha visto até então, devia ter estado toda a tarde a arranjar-se, desceu para o jantar, chegava como se tivesse sido convidada para ir ao restaurante...cabelo apanhado num carrapito tradicional, vestia de forma clássica, camisa beje devidamente abotoada e saia preta comprida, meia de vidro e sapato a condizer. Tinha um ar distinto, aneís nos dedos, vinha de mala na mão. Fiquei espantada. Não proferiu uma palavra. Chegou, sentou-se em frente de outra mulher com quem ia partilhar aquela refeição, ninguém cumprimentou ninguém. Pousou a mala com cuidado, com extremo cuidado, enrolou a pega da mala e abordou o assento da cadeira de forma elegante.

Havia em todos aqueles gestos, deliberados ou encomendados pelas mãos de alguém... uma estranha forma de estar...de sentir...e, de viver o fim da vida...

Começavam a distribuir inofensivos copinhos de plástico pelas mesas, com bolinhas coloridas lá dentro que pareciam divertidos e felizes por irem ser engolidos por bocas santas, que se não o fossem acabariam por ficar passado pouco tempo após a sua ingestão.

Os hóspedes não ficaram nem felizes nem descontentes por vê-los, nem por saber que iam alimentar os paladares de boas recordações, ...como antigamente, noutros tempos, quando viviam nas suas próprias casas em que faziam a comida com gosto e mesmo antes de comer as papilas gostativas davam pulos de contentamento... quando os sentidos ainda estavam vivos dentro deles...não respondiam aos apelos mais instintivos....reinava por ali a apatia..., a indiferença...a vontade nenhuma de agradecer à Vida um dia terem vivido...

...felizmente, ela já quase não vê...
INFELIZMENTE, EU VEJO...TUDO...E, NÃO QUERO...POR ISSO, GRITO DE RAIVA E DE DOR e falo por mim e por eles...


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Questiono: Porquê?; O quê?; Como?;Quem?; Quando?; Onde?...


Porquê?
Porque tem o meu coração vontades súbitas de se expressar? Porque tem o meu cérebro saudades emergentes de querer partilhar com o meu peito, o que a minha alma me diz...Até hoje desconheço. Não encontro uma resposta....Mas é verdade, sinto-o.

O quê?
Um sentimento alegre, mas controverso e diverso, que se espalha pela aurora do final de cada tarde numa luz ténue e me lembra cheiros e significados. O que é...vem cá de dentro, do fundo,... bem do fundo do meu âmago. E, enquanto não explode ou rebenta, não sossega, nem me dá sossego...

Como?
Aproveito portas e travessas e deixo as palavras sair, jorrar por entre os meus dedos feitos boca. Muitas não têm nexo ou sentido...surgem soltas, desgarradas, desfasadas, decididas sem pedir autorização. Outras vêm juntinhas, encostam-se a mim com carinho, encaixam-se, onde tudo faz sentido do princípio até ao fim.

Quem?
Eu...alma de ninguém multicolor que abrigada dos outros encontra o refúgio apenas dentro de si. Translúcida; sonhadora inveterada; gipsofila;  de uma loucura sã; de inocência adulta; fraga do ventre de alguém; forte e fraca nos momentos; que geme quando é preciso e faz gemer quando passa; criança nos seus desejos; que ama a vida e a guarda; que encontra a felicidade em apontamentos; Maria de sonho e de nada, insignificada.


Quando?
...nos momentos mais disformes, inadequados...onde nem uma caneta tenho à mão...nem paz, nem perdão; ...para acalmar a minha ira, amor, ou indulgência expressiva de uma vontade súbita de viver e significar algo mais, junto de alguém ou de mim.

Onde?
Num universo qualquer, onde a Ordem exista e persista...

Vivemos num mundo padrasto, que nos bate sem motivos, que nos divide, que nos compra, que nos vende ....que é austero e arrogante..........se, não for os "mimos" que podemos dar uns aos outros em cada gesto, a cada dia, para que serve a nossa existência?

... a  minha existência está resolvida...

sábado, 16 de julho de 2011

The gift...


Sonhei um dia dar-te o Mundo, mas tu recusaste. Foi um dia que não esqueço...Um presente recusado...num passado..

Naquele dia a minha alma amanheceu cheia, cheia de amor, de carinho e de compaixão... para te dar tudo. O Mundo, era o exemplo maior da minha generosidade. O presente que representa tudo para mim...

...mas, assustei-te sem querer. Quando de mãos estendidas, te entreguei este presente, numa caixa bonita com um laço exuberante.

Desconfias-te...
Não estavas habituado, a que um estranho tivesse tanto para te dar, assim, num repente...

Olhavas para ele incrédulo. Perguntavas-te - Porquê?!!!...Se estaria a brincar com os teus sentires mais profundos que ninguém conhece?!!!...Não estavas realmente habituado à generosidade que existe, de vez em quando, entre os Homens...

No entanto, houve momentos em que senti que querias receber, que tinhas vontade, que te apetecia, que desejavas, que sonharas com isso, tal como todos nós sonhamos...
Mas, as interrogações a meu propósito, eram maiores, eram gigantes....e,  a vida, tinha-te feito acreditar que já tinhas gasto todas as tuas oportunidades...
A esperança..., que ficara para trás, para os outros...

...Procurei, sem conseguir, diferenciar-me.
Tu, quase viste o que te quis fazer notar...

Um dia, percebi que o momento tinha passado,  tão rapidamente, levando-te com ele...
Procuraste a racionalidade de ti...distanciaste-te dos sonhos...

...e, entendi, que não passei de uma névoa boa, por instantes, aos teus olhos. 
Um translúcido momento de esperança, de que a vida afinal até pode valer a pena...

...A oportunidade.
...A oportunidade.

Muitas páginas depois. ...ainda hoje me questiono e procuro as razões das tuas dúvidas...
Percebo agora, que quem não acredita na generosidade da vida,  uma vida quase metade,... vacila e não sonha...

Eu continuo com o Mundo nas mãos para te oferecer, ...pelo prazer de te dar..
.Reformula e recebe-o...vindo das minhas mãos ou de outro alguém que te queira oferecer...
Dá, o prazer de dar, a alguém...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Olonam de papel ...



Olonam  procurava um destino, uma história onde se pudesse aninhar. 

Tinha nascido no meio de conversas, contos e lendas, sonhos e fábulas a roçar a imaginação,  mas também a realidade dos ensejos e dos vagares. Não tinha pretensões...

Gostava apenas de vaguear sem destino e aproveitar cada momento, tirando prazer das situações por onde passava. Observava cada gesto dos outros, cada atitude, cada vaga, cada jeito, cada tono ou emoção sua, ou alheia ...e aprendia. Emocionava-se. Gostava de se emocionar. 

Acreditava que a vida sem emoções e sem afectos não valia a pena. Estava afeito desde Novo, a viver por entre as verdades da vida e não se inibia ou virava costas às alegrias ou às tragédias. Também não as vivenciava com intensidade. Prefere notar, vir, atentar, explorar, tentear, com a arreda necessária de um narrador omnipresente, ubíquo. Isso basta-lhe. Preenche-o.

Olonam,  quando era menino acreditava que todos os homens eram  trechos de Deus. Hoje, já homem maduro, consorciado, adulterado, acredita que Deus está para, acolá dos homens e que apesar de todos eles serem tocados por Ele numa qualquer etapa da vida, se distanciam da sua fé e muitos morrem sozinhos. 

Olonam, não tem pretensões. Vive cada história apenas com convicção e por crença.

...Contudo, Olonam é ténue, é de papel, daquelas árvores transformadas e que de verde mudam de coloração e se enraízam. Olonam, enraizou-se numa história que começou em fragmentos e que um dia terá consistência. Corpo de Homem e Corpo de Deus.

Não tem fronteiras...

Por onde passar, deixará rasto, indício, a sua índole. Olonam ficará para sempre esculpido nas árvores e cinzelado no papel.

- Tudo isto, se valer a pena, claro. Nunca será Olonam, apenas porque Sim.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

O céu pode esperar...


...não sei porque tudo começou... já tinha a cabeça na almofada, depois de uma manhã que se estendia tarde a dentro na discussão de tarefas misturadas com muita retórica e formalidades...quando os meus olhos começaram a pesar mais que o meu corpo e voei no insólito...Eramos três dentro do carro, ...eu, tu ao volante e alguém no banco de trás. Sentia uma alegria estonteante sem procurar saber a razão... talvez porque decorrido todo um tempo em que estivemos separados e que a distância não nos deixava aproximar, pela incompreensão do que cada um de nós queria da vida, realizava um desejo escondido, secreto de acalmar uma inquietude por mim vivida acordada. É difícil explicar a alegria sentida... perguntava-me, porque me encontrava ali, com aquelas duas pessoas de rostos semelhantes... o que faziam aquelas pessoas ao pé de mim...olhava para um e para outro, sem entender, mas feliz.

Repentinamente, debruçado e inclinado sobre mim, estavas tu...envolvias-me o pescoço e o regaço com os teus dois braços de forma leve, amistosa, senti-me um pouco embaraçada, sabia que não estávamos sós, de seguida estendias-me um beijo envergonhado, na penumbra do alcance do passageiro do banco de trás, ...ao mesmo tempo que eu recebia aquele acalorado carinho sem me questionar, sabendo-me bem a envolvência que me propunhas, sem qualquer outra intenção de ir mais além... chamei atenção, afinal ias a conduzir  por um caminho sinuoso e avançando em frente a significativa velocidade...desvalorizaste o facto e tranquilizaste-me...deixei-te continuar agarrado a mim.

Recordo-me que a determinada altura e quando vi que estavas a perder o controle da situação e o controlo de ti, permanecendo eu, sem me mexer do meu lugar e saboreando apenas os carinhos que me oferecias,... que, em simultâneo me ocorria abrir a porta do carro e atirar-me berma fora, por pressentir que algo mau estava para acontecer...receei e preferi acreditar que não...lembro-me de te interpelar, para que tomasses consciência do que estavas a fazer, voltaste a contrariar o meu receio, ....trocamos algumas palavras que acompanhavam a velocidade a que seguíamos estrada fora,... inúmeras curvas...

Desabafaste algumas palavras, dizendo que não sabias explicar aquele momento e a confusão que estavas a sentir, eu... tentava orientar-te, colocar-te no caminho da razão, da racionalidade, na estrada estreita por onde seguias e nos fazias seguir,... De trás não vinham novas, palavras nenhumas...e, arrisquei dizendo, ao mesmo tempo que os meus olhos alcançavam uma solução para evitar o pior, apesar de o lugar ser escuro, numa clareira à entrada de um pinhal... a seguir a uma curva inclinada à direita, disse: Pára ali à frente, por favor...(é o sítio ideal, há espaço para acalmar e entender o que acabou de se passar dentro de ti, dentro de nós todos, clarificar eventuais equívocos, dúvidas, ....respirar fundo, oxigenar o cérebro...) Conforme proferi aquelas palavras senti o guinar do volante para a direita ao mesmo tempo que o carro tentava subir aquela curva onde vivia a minha esperança...ele acelerou desesperadamente, até onde o motor o permitiu para conseguir concretizar a manobra e o carro voou em direcção ao céu, levantou verticalmente e o meu coração disparou, tinha os olhos abertos, uma sensação de aperto onde a voz perdera a expressão e só se ouvia dentro de mim... Acabou, a seguir morreremos, pensei... quando, o carro for contrariado pela força da gravidade e retornar no sentido inverso contra a terra, contra o chão... previa o som do impacto da matéria, daquele corpo e daqueles corpos contra o chão...não queria assistir, sentir, desejava morrer antes que aquele instante acontecesse...fechei os olhos, não senti...tudo não passava de um pesadelo...

domingo, 29 de maio de 2011

The Beagle Boys...Contemporâneos.



Vou contar-vos como adquiri o meu piano...

...a meu pedido, Patacôncio,  procurava um piano. Gostava de música e isso bastava-lhe...Fixara-se em dois filmes a que tinha assistido no cinema em mil novecentos e qualquer coisa, em que ambos tinham um protagonista, um piano de cauda, Stheiwell,....

Patacôncio, gostava de se imaginar naquela praia ao largo da costa da Austrália a tocar piano, com o vestido arrojar pelo chão de sapatos molhados ou no meio da II Guerra Mundial ao lado do Reich, naquela sala perdida e destroçada pela guerra, a tocar Chopin...Patacôncio, era um ladrão erudito...

Um dia contactou com os Beagle Boys, que andavam sem nada para fazer...Falou com o 176-671, este atendeu de imediato ao seu pedido. Havia uma relação próxima entre estes, o 176-671 e o 176-761, trocavam frequentemente, histórias de experiências sobre delitos e discutiam com precisão todos os detalhes,  locais, objectos a roubar, cofres espalhados por aí, segredos de cofres,...  Conheciam todas as prisões do país, mas também todos os caminhos para fugir de todas elas,...

Uma vez, na tentativa de fuga de uma prisão, escavaram um túnel que os levaria para fora dali, mas por engano foram parar ao País das Maravilhas. A estadia foi curta por lá...eram muito trapalhões,..tropeçaram na Alice, partiram o relógio de bolso ao Coelho Branco, pisaram o rabo do Gato Cheshire, roubaram o chapéu ao Chapeleiro Louco e claro está, acabaram a fugir da Rainha de Copas entidade suprema naquele país...em pouco tempo viraram o país do avesso. Voltaram de novo para o mesmo túnel, que os levou de volta à prisão. 

O 176-671, falou com o 176-761 e com a ajuda do 176-176 ultimavam pormenores para o roubo do instrumento.

Depois, de inúmeras vezes tentarem roubar sem sucesso a Caixa-Forte do Tio Patinhas eram obrigados a fazer furtos de pequena monta, para fazer jus à profissão. Ao mesmo tempo que davam muito trabalho ao Mickey e ao Coronel Cintra para defender o património do seu tio. Patacôncio, arqui-rival de Tio Patinhas, não lhe perdoava o roubo da namorada na sua época.

O Vôvô Metralha desmemoriado permanentemente e a Titia Metralha que faziam parte da família, muitas vezes queriam ajudar e juntavam-se à quadrilha apenas para criar resultados ainda mais desastrosos. Este trio de metralhas, muitas vezes eram  ajudados ainda por mais um ou dois não ultrapassando os cinco, desde que houvesse pijamas às riscas. Havia ainda um Primo Azarado (1313) e o Meio Quilo (1/2), para além dos sobrinhos Metralhinhas que adoravam pregar partidas aos rivais sobrinhos do Pato Donald. Outros bandidos havia em Patópolis, Mancha Negra, Bafo de Onça que competiam com os metralhas, sempre contribuindo igualmente para o final desastroso.

Os anos passaram, eles foram envelhecendo dentro dos seus fatos às ricas, pretos e amarelos...hoje, já pouco ou nada roubam, muito menos um piano. Não têm força para o carregar. Quando eram novos e empenhados, trouxeram-me um  cá a casa, o que guardo aqui na sala , preto, com as teclas em marfim. O piano é o instrumento que mais gosto,...mas também confesso que não deixo de sentir uma empatia  pelos irmãos- metralha, talvez por ter lido tanta banda desenhada.
Que saudades...



domingo, 22 de maio de 2011

A solidão dos bombons...


Joana, completava uns cheios 83 anos,  por altura da troca de prendas, vindas de quem se gosta e outras, a quem se dá por educação; por altura da criação de quadros e fotografias fingidas de  famílias unidas;  por altura de fantasias, das histórias que nos contam em criança, e infundadas vocações, que só surgem nesta época nos espíritos mais sonhadores, sempre e sempre em redor de uma árvore enfeitada e colorida, que sem ter culpa de nada, nem de pena para cumprir, acaba decepada e a fingir  como a maior parte de todos, os que brincam de solidariedade, compaixão, fraternidade, amor pelo seu semelhante. 

Era uma mulher simples, lutadora, que a vida obrigou muitas vezes a crescer depressa e a ser forte. Quem a olhava, via apenas uma mulher franzina. Quem a conhecia, sabia que era muito maior do que o que víamos de facto.

Preenchia os seus dias com pequenas coisas. A sua vida dependia do Verão ou do Inverno para sair de casa.

Adorava, ver os momentos do Peter Pan entre as crianças e a Catarina, com quem esbanjava gargalhadas na sala, que eu ouvia no quarto. Sabia muitas coisas das vidas dos ilustres que decoram as revistas cor-de-rosa, que leu até à pouco tempo, antes de o Glau, lhe ter  quase comido a vista esquerda. 

A sua vida, tinha tantas histórias, que as contava como se tivessem acontecido ontem, recordando com precisão todos os  pormenores.  Hoje, já só lhe apetecia dedicar-se a coisas fúteis e sem culpa. A pequenos prazeres que não exijam muito esforço. As suas pernas cansadas de viagens intermináveis, teimavam em andar devagarinho, ao contrário da cabeça que corria a mil à hora, entre o passado e o presente de forma muito límpida, ainda.

Adorava vibrar, com gritos e gestos, aos gloriosos golos de um clube que amou a vida toda. Vermelha, de raiva, às vezes, por uma táctica que não entendia, discutia sozinha com o écran da televisão, com os jogadores, com o árbitro, com o treinador, mas... ficava sempre alegre no final de cada jogo, ganhasse ou não o seu clube do coração. Havia dentro dela uma águia.

Tem um pássaro chamado Mantorras na gaiola, com quem gosta de falar, mas está preso. É a sua companhia diária. Ele, o Malato que está preso dentro do televisor, a Amália que está presa dentro do rádio, e uma ou outra amiga que foram condenadas há uns anos a viver dentro do telefone tal como a maioria dos seus familiares mais distantes ou mais próximos. De vez em quando, vê alguém, que passa lá por casa uns minutos, para que não se esqueça da silhueta dos seres humanos, mas mal dá para começar a falar do tempo, quanto mais contar histórias.

Joana, teve 5 filhos, tem 6 netos e um destes dias, em que partilhou com alegria a alegria de poder conversar, de dizer alguma coisa e ouvir uma resposta, de voltar a fazer uma pergunta e ouvir várias respostas, com um sorriso, contava aos presentes uma história maravilhosa, que eu não podia deixar de registar aqui ou num pedaço de papel.
...
- Não vá sem resposta. Dizia Joana a propósito de piropos, tentando olhar na minha direcção.

- Um destes dias, fui com a M. J. ao supermercado e na fila para pagar as compras, disse para a minha empregada chamada  M.J. com quem partilhava momentos  uma vez por semana. 
 - Ó menina, vá me buscar  um maço de algodão, que me faz falta. 
 A M.J., surpresa, vá se lá saber porquê, respondeu.
- Para que precisa a senhora de um maço inteiro de algodão? 
Joana, quase, quase indignada com a pergunta, repetiu a ordem de forma ainda mais determinada.
-... Vá, ora agora, porque preciso. 
Sem mais explicações encerrou o discurso directo, muito embora indignada com a audácia. A M.J.., dirigiu-se imediatamente ao corredor onde se encontravam os d.p.h. e tentava satisfazer o pedido o quanto antes, enquanto pensava na pergunta tola que acabara de dirigir a uma mulher que tem idade para comprar tudo o que lhe apetece, quando lhe apetece, sem precisar de dar qualquer satisfação a ninguém.

A indignação ainda não lhe tinha passado, completamente. Joana, aproveitou o momento para desabafar com a empregada da caixa, que pacientemente, esperava a vinda da M.J.., mais ligeira, mais leve, porque as histórias de vida que tinha, ainda não lhe pesavam nada. M.J. era uma mulher ainda nova e a dever ainda muito à vida.

- Ora agora, não querem lá ver, que eu com a idade que tenho, não posso precisar de um maço inteiro de algodão?
Com esta pergunta em forma de desabafo a indignação tinha passado e a explicação que não tinha dado à M.J., dava-a agora, gratuitamente, à empregada da caixa, que concordava consigo, abanando a cabeça.
Com um sorriso tímido dizia: 
- Sabe, que apesar da idade que tenho e de ser viúva,  eu ainda uso sutiã e gosto sempre, depois de fazer a minha higiene matinal e vestir o sutiã, de colocar um pouco de algodão aqui por baixo,  para não me ferir.
Joana confessava a sua intimidade.  A empregada da caixa compreendia a situação numa expressão facial sentida,  enquanto acrescentava que a sua avó, mais nova, já não usava sutiã há alguns anos.

Entretanto, a M.J.. chegava junto de si.  Joana virou-se um pouco para trás, para confirmar  se ela tinha feito o recado em condições e, acabava de constatar que atrás de si, estava um senhor de uns 70 anos de idade, com as compras na mão, para pagar.

Virou- à pressa na direcção da empregada da caixa e desejou que ele não estivesse ali desde o início,  a ouvir a confissão que acabara de fazer. ...Não deu importância, preferiu acreditar ter estado sozinha o tempo todo com a empregada da caixa a quando do desabafo, ...de qualquer modo, a idade,  já não a deixava corar.
Reparou pelo meio do troco, que o homem tinha desaparecido. Se calhar esqueceu-se de comprar qualquer coisa, pensou.
Já pronta para sair, devagar, com o peso das histórias de vida e algumas compras,  que as outras dividira com a M.J, o homem apareceu à sua frente surpreendendo-a,  e estendendo a mão disse:
- Posso oferecer-lhe, este pequeno presente?
Não estava embrulhado, a situação não lhe dera tempo. À sua frente, tinha uma caixa bonita com a fotografia de uns bombons que nos saltavam para a boca e para os olhos. Joana, aceitou, agradecendo a gentileza.
Continuou o seu caminho acompanhada da M.J., que nunca disse uma palavra. Apoiada de um lado pelo antebraço da M.J. e, do outro, pelo saco das compras, continuaram na direcção do carro.

Joana, percebia agora tudo. Aquele homem, ouvira a história toda do princípio ao fim, sem fazer qualquer ruído para não a assustar.

Depois de colocar os sacos no porta-bagagens, sentou-se, à pendura, ao lado da M.J. e depois de desfazerem a curva, olhou na direcção da sua janela. Do outro lado do vidro fechado, imóvel a olhar para si, permanecia um homem gentil de 70 e tal anos, agora que o via melhor, apesar de ver mal ao longe, que lhe dizia Adeus, acenando feliz para ela. 
Joana, sorrira à vontade, acenando de volta, trocando com a M.J. risos envergonhados, lisonjeados e divertidos...,  porque alguém reparara nela com outros olhos, com a idade que tinha.

Enternecíamos nós, a cada palavra da história que acabava de contar, sorrindo a cada descrição, a cada emoção, fazendo perguntas e mais perguntas, na expectativa de um futuro ou uma história de amor. Aquele homem, procurava companhia, não queria estar só, rematava Joana.

Depois de uma pausa, que nos dizia que a história terminara, dizia com um laivo de tristeza  e de resignação, mas, de maneira, a não deixar ninguém com problemas de consciência, já bastava os que cada um tinha e que faziam parte das suas próprias vidas.
- Eu só falo (com alguém) à terça-feira, que é quando lá vai a M.J. fazer-me a limpeza a casa. Depois estou, 4ª,5ª,6ª, sábado, domingo e 2ª sem falar de novo com ninguém.

Não conseguia ver os seus amigos, senti-los de perto, sentir-lhes o calor, nunca lhe ofereciam bombons.

Joana era uma mulher livre, eles estavam todos presos. A Catarina, o Peter Pan, o Malato, o Mantorras, a Amália, que nunca lhe respondiam, talvez porque estavam presos. ... e, também, não lhe faziam perguntas....só falavam e cantavam o que lhes apetecia, como se ela não existisse...

Os bombons foram oferecidos à netinha mais nova que tem.O senhor de 70 e tal anos, continua a ir ao mesmo sítio fazer compras, porque a M.J.. já tem trazido a notícia para casa à 3ªf, quando vai limpar... Joana, continua dando apenas atenção às coisas fúteis, porque já não está para se ralar. Faz a sua higiene diária e compra maços de algodão...


sábado, 23 de abril de 2011

Labirinto do Sol...


 Por vezes, julgo que me deixei lá atrás...e segui caminho...

Olho para trás várias vezes, na esperança de encontrar-me de novo. Mas a distância a que assisto sentada na praia, presa a um ponto, manda-me andar no sentido inverso ao que deixei...que não sei o que foi, nem sei definir por palavras, apenas sentir com os sentidos...A sensação não é tranquila, é de perca, de subtracção... Seria, eventualmente dramático se, quando olhasse em frente, não sentisse a esperança de vir a encontrar alguém muito melhor...num estado diferente e mais elevado na escala, escala por mim encontrada para justificar a forma de cada um de nós, em cada momento da vida...( ... designo-os por patamares, planos ou camadas).

Umas vezes, sou ainda um bocadinho da que ficou lá atrás, outras, a que continua andar no sentido contrário, determinada, e, outras ainda, sou a que permanece sentada no meio, entre a distância percorrida entre as duas, com a diferença, de que não estou na mesma linha de alinhamento, estou um passo atrás, e com a distância suficiente para no meu horizonte conseguir ver as duas, a que ficou e a que continua andar...à mesma distância.

Não sei para onde vai a da direita, mas vai tenho a certeza, que não consegue parar...Quase a perco de vista...A da esquerda, está parada num ponto à esquerda, desta linha imaginária que estabeleci  entre as elas. Não percebo qualquer movimento da parte dela, cristalizou por ali...mas, percebo que vai ficando cada vez mais pequenina, diminuta, à medida que a que está à minha direita se movimenta... e eu que estou no centro, entre a  distância entre uma e outra, me desloco obrigatoriamente, corrigindo o centro e mudando de lugar a cada passo percorrido pela da direita...

Estou de costas para mim própria, - eu, que escrevo....sentada de pernas cruzadas, na praia, "fixa" a um ponto da terra, ao centro da linha imaginária que estabeleci....Mas se me colocar de frente para mim mesma, - eu, que escrevo,  ou, sem me soltar daquele ponto,  no centro, e, me virar de frente para mim, ou ainda, ...se deslocar o objecto, onde todas as personagens se encontram... tudo se altera...

À minha esquerda agora tenho aquela que anda sem parar e à minha direita tenho a que permanece estática... só eu, continuo-o a mesma, não perdi as minhas características, permaneço ao meio, no meio das duas, no meio da linha imaginária que define a distância entre uma e outra...e, continuarei a deslocar-me e a corrigir o meio,  o centro, a cada passo percorrido pela determinação da  que se encontra à esquerda...

Confundo-me...Confundo-as...Confundo todas as personagens que vivenciam na minha imaginação este relato, com tantas voltas que dou...numa espiral devassa de movimentar personagens como se fossem bonecos, tiro e coloco no lugar que me apetece, faço-as rodopiar, sobre mim, sobre elas próprias, sobre o objecto, sobre o plano e estabeleço as linhas imaginárias que me apetece até obter um raciocínio lógico. Tenho até dificuldade em dizer onde me encontro! já não sei! ...mas não preciso. Ninguém pergunta...e, se alguém se atrever, posso sempre responder, ...lá, do lugar de uma das quatro...que sou eu...por qualquer uma...

Durmo, acordo e brinco no Labirinto do Sol, com o jogo que inventei...Brinco comigo, não com alguém...um jogo que serve para me ler de outros planos, de outros prismas...e me mostrar, a mim, como somos multifacetados...


sexta-feira, 1 de abril de 2011

You are my favorite ...


Maria lia um romance e recordava passagens anteriores, que a história e o tempo quase apagaram com o passar dos anos da sua lembrança...as memórias eram tão efémeras que "quase" não deixavam que ela recordasse sequer a cor dos olhos dele...A sua capacidade para apagar da história, momentos de uma sensação agri-doce era infalível. Ela detestava esse sabor e isso fazia por ela a determinação necessária.

Esse condimento que a atravessara em determinados momentos da vida, enraiveciam-na, tornava-se desconfiada e triste, cheia de raiva, amarga, doce, agri-doce... E, ela detestava ser assim, agri-doce. Tinha consciência do seu estado nessas alturas. Mesmo não havendo, aparentemente razões para ser abrupta com os outros, por eles não serem o problema, não conseguia deixar de o ser. Recordava-se que antes de sentir pela primeira vez este sabor, era apenas doce, divertida, alegre e sorria com a facilidade de um adolescente. Naquele tempo, terá amado o mundo e a vida, as coisas e as pessoas. Hoje, já só amava as coisas...as diferentes coisas, a natureza, a natureza morta e os animais...O mundo, a vida e as pessoas tinham-na devastado, sem lhe restar sequer a possibilidade de tudo voltar ao lugar onde um dia estiveram, durante anos...

Ás vezes, sentia vontade de saltar a janela e voar até à outra janela... Poisar no parapeito, olhar nos olhos e conversar...ou, simplesmente, encostar-se no ombro e enternecer em paz ao lado de uma outra vida, ao final de um dia atrás do outro...

Procurara saber para que serviria aquele sabor agri-doce que sentia ao virar de cada palavra proferida por alguém, ou por ela própria? Tantas.Tantas, tinham sido  as palavras vomitadas que não surtiram de modo nenhum o efeito que pretendeu....tantas.  Maria, não passava da menina preferida por tanta gente. Esse sentir não lhe apaziguava a alma nem o coração. Não queria de modo nenhum ser a preferida de ninguém, mas a amada apenas...

Não era mais a mesma... ser a preferida ou ser a amada, eram  expressões diferentes que desembocavam em sentires distintos...E, Maria hoje, procurava ainda a profundidade dos sentimentos dentro dela e dentro dos outros... A busca incessante não a deixava serenar...

Numa esperança renovada, que negava aceitar tudo por metade, Maria metia pés ao caminho, e num voo planado, bem rasteiro, dava mais uma oportunidade à vida de lhe mostrar que os amores não existiam só nos romances que lia, nem nos sonhos, mas também na vida real.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A memória de Hiroshima...


 
...as placas oscilaram sem avisar, a terra estremece de dentro para fora e num som estridente, tudo abana à passagem do monstro. Passou por baixo dos pés de todos aqueles que se sentiam poderosos à superfície e por baixo dos pés dos humildes também...a seguir veio a água e varreu tudo do lugar.  As pontes perderam os rios, os barcos perderam a água, os aviões perderam as pistas, as casas perderam os alicerces, os comboios  perderam os carris, os carros perderam as estradas, as pessoas perderam os familiares, os amigos, os conhecidos, os entes queridos e, a terra...a Terra  desviou-se do seu eixo, será que se perdeu de si mesma?...O eixo do mal? ...

Há muito, que muitos destes já tinham perdido o Norte, e outros que se tinham perdido dos seus. Agora, outros ainda, perderam a vida, para além de tudo o que tinham e que perderam. Mas, nada importa depois da vida perdida. Há quem se perca todos os dias disto e daquilo, por não querer ser encontrado por ninguém nem por nada e há quem se perca todos os dias na esperança de se encontrar consigo ou com alguém...

Abalroados... atemorizados, procuram o chão e os alicerces... a sustentação de vidas construídas sobre estruturas transparentes sem a solidez necessária para aguentar tempestades, furacões, maremotos, terremotos, tsunamis ou outras intempéries que devastam a vida da terra.

Onde foi que ficou a insustentável leveza do Ser, que nos torna leves e flutuantes à passagem da força da natureza!!! desconheço!!!...Perdidas no interior das trevas cor de rosa desmaiado, procuram uma nesga de esperança, um raio de sol que os aqueça,  que lhes aqueça a alma e os seus contornos. Que monstros são estes que nos fazem sentir pequeninos e indefesos, crianças amedrontadas que não têm atrás de quem se esconder...Não há presente, passado ou futuro que nos sossegue, que nos acolhe ou que nos tome nos seus braços e nos embale...

Se a Terra perdeu o eixo do mal onde se sustinha, não me importo...prefiro outro eixo qualquer, que não seja sustentado pela física e pela matemática, mas que dê conta certa no final...Se somos interceptados por monstros de barriga vazia, que se alimentam do sofrimento dos homens, dos gritos de dor, da perda, da ausência, da saudade de quem se ama, da devastação, dos escombros, do caos, só nos resta aprender a viver por conta própria e transformar as nossas estruturas transparentes em sólidas concepções e convicções que nos guiem pela vida. Não nos sentiremos sós, porque nos temos a nós próprios, apesar de isso não nos bastar...

Mesmo que o ar se torne irrespirável, cada um de nós terá sempre uma bolha de oxigénio puro que nos proporcione continuar a raciocinar de forma límpida de geração em geração e transportar connosco o património mais valioso, que é o Conhecimento...

Memórias de Hiroshima, Nagasawki, Chernobyl e agora Fukushima...

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Formúla Química, H2 O...

.. Diz a ciência da Vida que tudo são fórmulas químicas:

"Uma fórmula química é uma representação de um composto químico. Por exemplo, a fórmula química da água é H2O. A fórmula química sendo uma representação de um composto químico pode nos fornecer algumas informações sobre a substância que ela representa. Por exemplo a fórmula da água H2O. Nesta fórmula aparecem letras e número. As letras representam os elementos químicos que se unem para formar a molécula de água. O número subscrito é chamado de índice e indica a quantidade de átomos do elemento presente em cada molécula. No exemplo da molécula de água, H2O, significa que cada molécula de água é constituída por dois átomos de hidrogénio e 1 átomo de oxigénio. É interessante notar que o número 1 é omitido. Com estudo mais aprofundado sobre Química a fórmula também nos diz o tipo de ligação química que ocorre entre os átomos formadores da substância, a que tipo de função química a substância pertence. Neste caso a representação H2O é chamada de fórmula molecular.

Existem outros tipos de representação:
  • Fórmula eletrónica ou de Lewis onde os elétrons da última camada do átomo são representados por pontos (∙) ou “x” ao redor do símbolo do elemento químico. Exemplo:
Os elétrons da última camada, camada de valência, do oxigénio foram representados por (∙) e do hidrogénio por (x). Outro tipo de representação é a fórmula estrutural plana onde os pares de elétrons que estabelecem a ligação química são representados por traços (─). Exemplo:

Repare-se que os elétrons que não estabelecem a ligação química não precisam ser representados.
Existem outros tipos de fórmulas. Tomando por exemplo CH4 Na fórmula molecular temos que colocar a própria fórmula química CH4
Na fórmula eletrónica, deve-se separar os dois componentes, e uni-los no desenho pelos elétrons que eles estão compartilhando
     H
      :
H..C..H
      :
     H
Na fórmula estrutural também chamada de fórmula de Couper, deve-se retirar os pontos e colocar "traços"
      H
       |
  H-C-H
       |
      H
 Mas podem haver ligações PI, e isso significa que pode estar acontecendo uma ligação dupla ou tripla."

Para o bem e para o mal tudo é Química...Estas definições, explicam o inexplicável....e, com o passar dos anos o Homem, foi criando antídotos e desenvolvendo anti-corpos contra-tudo, contra-todas as coisas, contra-todas as pessoas...contra,contra,contra...

Eu, fundamento a minha Vida, pela Física:

"Física (do grego antigo: φύσις physis "natureza") é a ciência que estuda a natureza e seus fenómenos em seus aspectos mais gerais. Envolve o estudo da matéria e energia, além de suas propriedades, abrangendo a análise de todas as suas consequências. Busca a compreensão dos comportamentos naturais do Universo, desde as partículas elementares até o Universo como um todo.
A Física, com o amparo dos métodos científicos e da lógica, descreve a natureza através de modelos científicos, uma construção humana que, embora não consiga explicar a natureza em toda a sua complexidade, permite compreender e prever com precisão requerida os comportamentos e fenómenos naturais ao fornecer uma sólida estrutura para a compreensão dos mesmos. É considerada a ciência fundamental, sinónimo de ciência natural, dentro de um ponto de vista reducionista; as ciências naturais, como a Química e a Biologia, têm raízes na Física. As aplicações da Física no cotidiano são muito amplas; praticamente todas as tecnologias usadas actualmente devem à Física o seu desenvolvimento.

A Física é uma das disciplinas académicas mais antigas, talvez a mais antiga se for considerada a sua utilização dentro da Astronomia. Ao longo dos últimos milénios a Física foi considerada como sinónimo de Filosofia Natural, Química, e se confundia com certos aspectos da Matemática e Biologia. No entanto, foi durante a Revolução Científica, no século XVI, que a Física consolidou-se, por mérito próprio, em uma ciência única e moderna. Entretanto a Física, assim como qualquer outra ciência, não pode ser considerada uma ciência à parte, pois esta inter-relaciona-se de forma significativa com várias outras, sendo notória a inter-disciplinaridade em disciplinas como a Físico-química e a Biofísica, entre outras. Muitas vezes a distinção entre Física e outra ciência torna-se praticamente inexequível: em disciplinas como a Fisíca Matemática e a Química Quântica raramente ocorre uma distinção nítida entre o que está sob domínio da Física e o que se encontra sob domínio da outra cadeira em questão.

A Física é uma ciência significativa e influente, e avanços na área são frequentemente traduzidos no desenvolvimento de novas tecnologias. 

O desenvolvimento da Física também ressoa na forma de pensar de outras ciências e até mesmo da sociedade como um todo. O desenvolvimento da mecânica, juntamente com sua metodologia, teve influência determinante no pensamento racionalista e mecanicista do Iluminismo. Entretanto, a ontologia mecanicista da ciência, onde todo o Universo pode ser explicado com "simples peças de máquina", foi abalada no século XX com o desenvolvimento da Mecânica Quântica. Embora o advento da física quântica não tenha estendido os domínios da física para além dos fenómenos naturais visto que, como ciência, a Física faz uso do método cientifico, tem como linguagem natural a Matemática e vale-se da Lógica e sobretudo da coerência obrigatória entre ideias e fatos naturais (inerente ao método científico) para a construção e apresentação dos conceitos, modelos e teorias, ela certamente revolucionou a forma de pensar a natureza, mostrando que a compreensão completa desta pode ser mais difícil e utópica do que se imaginara há alguns séculos atrás."

Eu sou Física, apesar da fórmula química...






segunda-feira, 21 de março de 2011

Mother...

Lembrei-me agora, hoje é o dia da poesia, da árvore e de aniversário da minha mãe...

Lembrar-me-ia mais cedo, que hoje era o dia da minha mãe se ela ainda estivesse por cá, ...mas resolvera partir um destes dias deixando a existência mundana para ir atrás de uma paz nunca antes conquistada, após 63 anos...Privou-nos da sua companhia e da sua boa disposição apesar de todos os atropelos e empurrões que a vida lhe trouxe...espero que tenha renascido em cada árvore em flor, em cada flor, em cada tulipa, em cada semente colorida e de uma forma mais vivaz, sem espinhos, num mundo que não sabe o que é a poda, onde o amor a abraça todos os dias pela manhã e lhe dá colo ao final do dia...quero que seja muito feliz onde está...

Falo com ela algumas vezes para que sinta que estou por perto e que nunca a abandonarei...será sempre a minha mãe...

...deixou-me na companhia da poesia, das árvores e das memórias...para crescer sozinha e me tornar Mulher..

Não concordo com o final que a vida nos impõem. ...Esta, como tantas outras histórias, deveria ser uma história em que ao autor caberia o fascínio de inventar o FIM...e, todos os intervenientes ficariam felizes...afinal, na vida real, ninguém concordou com o desfecho e a minha mãe também não...

...um beijo enorme mãe...

quinta-feira, 10 de março de 2011

Estória FELIZ...

É urgente o FIM...,

o fim de uma estória que não tem
porque o inicio estava errado
o meio não fazia sentido
porque nunca fora realmente vivido
nem pelo FIM, nem por ninguém.

O FIM era agora anunciado...
repetido,
evitado,
sugerido,
segredado,
maltratado!

O FIM era agora imaginado...
sonhado por todos,
desdobrado em metades, onde a estória se partiu
para que o princípio existisse
o meio tivesse significado
um princípio baseado
na estória que nunca existiu.

O FIM é o princípio de tudo
onde a ordem se confunde
onde o meio perde a estória
onde a memória é FELIZ...

É urgente o princípio...