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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

De olhos bem fechados, os odores quentes e ocres tomavam conta de si na mesma velocidade que as folhas das árvores precediam o Inverno! O Outono da vida fazia-se notar sobretudo no seu rosto! ...e, cada folha que se precipitava  no sentido do chão e se soltava daquela árvore madura, recordava.lhe momentos passados que um dia estiveram presentes no centro da vida de Luna, A humidade atravessava o ar e os corpos que se tornavam pegajosos nas primeiras horas do dia. Acordávamos e adormecíamos quase sem fôlego.

As montanhas, longe do olhar alheio, pareciam adamastores envergonhados, gente invulgar e sem rosto, prontas avançar na nossa direcção!

 De lábios semicerrados, a medo, abria devagar as persianas do rosto banhado em suor, que lhe realçava o tom escuro da pele fustigada pelo sol do verão acabado de se despedir, para aos poucos dar conta de uma Lua gigante no céu que olhava fixamente para si!

Luna, temia o pior! O momento que vivenciava, neste preciso instante, faziam-na lembrar horrores de épocas passadas com as quais não aprendera a conviver, ainda! Tudo lhe parecia ora diferente, ora igual, ora igual, ora diferente! Teorizava para dentro de si - havia anos que a vida se encarregava de nos colocar à frente dos olhos, vezes sem conta (na verdade, todas as que forem necessárias) a mesma coisa!,,, melhor dizendo! o mesmo problema de aritmética para resolver com números diferentes! A intenção era clara e ao que parece, sempre a mesma! Chegar ao resultado x! ...no entanto, enquanto não mostrássemos a nós próprios que éramos dignos de realizar tamanha prova, jamais sairíamos do mesmo lugar, onde um dia, havíamos ficado presos. Luna tinha sido uma excelente aluna a matemática quando estudante, mas incapaz de resolver operações sem números, mas com pessoas!...anos, após anos, sempre a mesma equação por resolver!...

Vencida pelo cansaço, de ombros caídos, corpo arrastado e olhos de interrogação, sem quaisquer certezas do que via à sua frente, a Lua gigante teimava em cegá-la sem querer! Era chegado o último crepúsculo e com ele o tempo compreendido entre o vespertino e o matutino, o momento exacto e único em que Luna se sentia confundida, entre o sonho e a realidade!

...

sábado, 4 de outubro de 2014

...Já oiço ao longe a tempestade...

O céu muda de cor;  passa de azul e branco transparente, a cinzento opaco. 
O vento chama por ela. Primeiro baixinho e depois vai levantando a voz. E, as poucas folhas da árvore de sempre, agitam-se de entusiasmo. Gostam de movimento, de euforia, do prenúncio que existe no ar...

A brisa inesperada e fresca anuncia a chuva que a antecede; nas cores, num céu tímido e ao mesmo tempo, determinado a deixar cair sobre a terra todas as preces, de mãos levantadas pelos homens nos momentos de desespero. 
A terra, acolhe as primeiras gotas com satisfação e um prazer lascivo. O odor invade tudo e todos.
Os Homens respondem fantasiando, misturando imagens de sonho e de caos, inebriados pela esperança e pela expectativa do que a tempestade pode trazer. Deixam-se levar! Contudo e apesar dos cheiros de prazer sentidos, nada encerra a possibilidade do fim.  Será o interlúdio da transformação há tanto esperada? ...ou,  será apenas mais uma réplica tempestuosa, estéril e inconsequente, que deixará cair por terra as derradeiras esperanças que ainda nos restam do limiar da vida! 

Enquanto isso, o meu corpo treme, por dentro, em uníssono, adivinhando o que está para chegar! Sinto, que me divido em partes desiguais, mas que cada uma delas encerra um sentido! E que de um corpo só, me transformo em dois. Cérebro e coração. Os restantes componentes da  carne perdem agora o significado. É como se não os reconhecesse mais, como se nunca tivessem feito parte de mim. Tento acalmar-me como posso. Falo-me, como se estivesse a falar com outro alguém. 

Dispersa a flutuar no caos em que me encontrava, fui resgatada por uma voz doce...deixei-me ir...

- Onde aprendeste música?
- Ouvindo-te cantar...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

(sob o som da chuva certa e dos relâmpagos, que me faz acreditar que a Terra e os homens ainda estão vivos)

....chegou o Tempo, de sair à rua!
...que a chuva persista por entre o sol de Outono!...que amanse todas as veredas endiabradas e os pensamentos mais vulgares, a vida mundana e fugaz que nos corrompe!...que cada raio nos altere a consciência, das coisas, da vida, e se transforme numa oportunidade de dar ouvidos a outras sonoridades!


...que beije todas as pedras das calçadas e ame todos os caminhos que levam ao amor! que nos inunde do que nos faz falta realmente!...que nos lave a alma e nos banhe o coração do que é apenas verdade!


...é Tempo de voltar para casa, 
e uma vez em paz, que se aninhem uns nos outros! que sequem as faces dos seus semelhantes! que deixem que nos lambam as feridas!...de volta à condição de simples seres humanos!...

Alfa (II)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Longe...

Longe vai o tempo de palavras trocadas

Longe vai o tempo de todas as palavras

Longe vai o tempo

Longe vão as palavras trocadas num tempo
Longe vão as vontades de trocar palavras até na ausência delas
Importava o tempo, nessa altura
mesmo que não houvesse palavras para trocar

Longe vão as vontades de trocar tempo e palavras
Longe vão as vontades de trocar palavras contra o tempo
Importavam as palavras, nessa altura
mesmo que não houvesse tempo para trocar

Longe vai tudo, longe, longe, longe...

Restou apenas a vontade de trocar...
qualquer coisa,
seja o que for,

sem palavras e sem tempo, resta-nos agora o silêncio e as metáforas para trocar...

como nos divertimos apesar de tudo...



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Afinal, qual é a morada do diabo?!!...onde será que vive?!!...eu, prefiro nem saber. Não tenho por ele qualquer espécie de simpatia, empatia, ou outro afecto qualquer. Ignoro-o, e faço com que me ignore também. Não tenho medo dele. Aliás, diria antes, que tenho alguma curiosidade. Tenho a certeza de que se nos cruzássemos, uma única vez, que fosse,  não iria correr bem. Tenho inúmeras perguntas para lhe fazer, que fui guardando de há muitos anos para cá. Bombardeá-lo-ia. Pobre, chego a ter pena dele.

Na verdade, nunca me questionara sobre esta matéria, até então...Foi, quando alguém me chamou atenção para o facto, que resolvi questionar, questioná-lo. Como havia referido antes, ignoro-o. Se é que existe, disfarçado. Também não o procuro dentro de ninguém ou dentro de alguma coisa.

Acabaram por me deixar a pensar!!!quando, colocaram a hipótese deste poder residir dentro de mim...Senti-me ofendida. Achei impossível. Já teria dado por isso, ao longo da minha jovem vida. Já se teria tentado manifestar outras vezes, certamente. Ao que tenho ouvido falar, ele  é exibicionista e vaidoso. Não acredito que tivesse conseguido viver dentro de mim todo este tempo adormecido, sereno,  sem se fazer notar. Eu teria dado por ele.

Se um dia tiveres saudades de um lugar que te trás muitas e boas recordações como um café no meio da cidade; e que por isso voltas lá de novo; e, que por não ser Verão não vais à gelataria do lado, que tem o único sabor de há anos, arroz-doce com bagos de arroz e canela;  depois de passares numa das tuas livrarias preferidas  e mais umas quantas lojas, num final de tarde de domingo; e enquanto passas os olhos por um dos livros novos que acabaste de comprar acompanhada por um chá quente e meia torrada e te parecer entrar alguém conhecido, mas que talvez não seja, porque só o viste uma vez  por minutos, e acredites não ser, apesar da dúvida não ser erradicada por inteiro, mas, porque, entrou e saiu e não te cumprimentou; e,  se, saíres desse lugar com a certeza de que não poderia ter sido, apesar  de continuares a ter presente essa possibilidade, ou essa impossibilidade em consonância com o comportamento; Mesmo depois, de ocupares aquele espaço tantas outras vezes, sem que nada acontecesse, ou julgues que tivesse acontecido, porque apesar de saberes que existe uma remota possibilidade, afinal estás no meio da cidade onde os cafés proliferam, e nem toda a gente gosta de café, como não gosta de caracóis, ou de outras coisas, aparentemente estranhas, ao paladar.
...Mas, se dias depois, te mandarem um vídeo de um filme que já viste e de um livro que já leste sem qualquer legenda, que primeiro estranhas e não entendes a mensagem subliminar, que aguardas uns minutos por uma mensagem adicional que clarifique qualquer coisa e que por fim  lês: You kow when it is the devil...e, devagar, começas a somar cada passo da realidade para trás, cada momento...Tens dificuldade em acreditar, que haja uma relação entre todas as coisas, para além de tanta não lógica, o que te passará pela cabeça? $%&/(()/)=(/&#!#%/()=="###. Certamente, ..ficarás a pensar para o resto vida, que afinal ele existe, que te reconheceu, que já se cruzou contigo e que vive naquele café.

Afinal, onde reside o diabo?...qd tudo o que alguma vez achei possível, foi um novo encontro, casual, dadas as coincidências no passado que me levaram até ali, pouco provável, apesar das distâncias, com alguém que conheci de longe,  que parece não querer diminuir a distância, por razões que desconheço, talvez porque eu seja mesmo a personificação do diabo e não saiba e tenha a mesma antipatia pela figura como eu própria.

Yes, i know ...when it is the devil...

I'm not an angel, but i'm not the devil too...sou apenas uma pessoa...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Queria inundar o meu coração de ti até transbordar e me sair fora do peito. Só assim um novo amor seria diferente dos demais.
 Mergulhar nos teus silêncios e adivinhar-te, seria o exercício perfeito que me faria bem à alma. Contemplar os teus gestos e decorar cada um seria um vício para mim. Em troca, deixar-te-ia aninhar entre as minhas coxas e debitar  promessas para o resto da vida.

Queria inundar o teu coração até explodir de alegria. Que importava se me estilhaçava em pedaços depois de sentir o gosto da felicidade. Dar-te-ia a lua e o universo onde poderíamos caminhar de mãos dadas ou brincar às escondidas, por entre estrelas e planetas existentes ou ainda por descobrir. Em troca, deixar-te-ia inundar-me de lucidez e de esperança.

...toma-me então nos teus braços que me deixo ir, sem delongas.
...tomo-te então em meu peito e respiro.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Voltas

Se fosse contar em passos a distância que se impõem, daria voltas à Terra e as minha chagas seriam visíveis...

Há distâncias impossíveis de medir  mas que se sentem. ...Sentem-se na carne, na pele, nos ossos...nas dores que sentem, no coração, no peito, na alma, num braço e noutro, numa perna e na outra, no pescoço, no ventre, nas costas, na nuca, nos olhos, nos lábios...

Quaisquer  Pés ou Jarda, Quilate ou Onça, Milibar, Torricelli ou Colher de chá, se revelaram incapazes de o fazer, ...de a colmatar junto com a dor...

Resta-me a esperança na Velocidade do Vento... Que transforme esta conversão estendida, do que é hoje, no que foi...

Quero converter estes meus passos em Pressão,  Volume ou Massa e que o Comprimento diminua este meu vazio sideral...e, me aproxime do mel que contêm os seus beijos...

Depois do antes ...ou, mesmo,  antes do depois, tudo será diferente...Como assim já o é hoje, como toda a vida foi...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Alma ao vento

O que trago dentro da alma é muito mais do que corpo
É altruísmo, é compaixão, …é um porto.
É um amanhecer…,
é, um amor desenvolto
que não será ofuscado, nem podado, nem mar morto…

De uma sombra desfocada do que fui, do que serei
Iludida pelas margens de um rio que corria à minha frente
Pus um pé em ramo verde,
queria brincar, queria ser gente…
Imaginei…

Eram sonhos de criança que me inundavam a vida
numa esperança desmedida como então havia poucas
Não me fiquei por aqui...
Fiz disparates..., senti..., fiz coisas loucas...

E de tantas experiências
acabei a acreditar virada ao mar
Que um dia nasceria uma frente, tornada quente, que me diria
Que imaginar e amar,
é o sonho de toda gente...




Ventos voados depois...

Quando um dia a caminho do vento Norte
Numa tempestade esguia, entremeando relâmpagos
encontrei a minha alma
Sempre calma, tranquila, no seu bote...

E, dela despontou um raio
que me avivou a memória...

E, acabei testemunhando...
Que este corpo quis tantas vezes apenas, foi amar
sem prisão, submissão ou vitória

Por quantos sonhos manteve, este meu corpo inventado
Abraçou a minha alma
...e, desculpou-a, fatigado
Deixando-lhe uma lição...

Sendo corpo, alma ou paixão
Terá direito a amar e a sonhar sem direcção...

AA 6-12-2010

domingo, 6 de novembro de 2011


Gosto deste vento frio que me atravessa a pele e teima em fazer de mim o seu refúgio. Gosto da chuva forte que cai e me convida a dançar nas suas águas. A chuva é doce o vento é destemperado...e, eu...Eu, não passo de água e sal, ...

Envolta em areia molhada onde a vida se aninha e me viola saborosamente por todas as reentrâncias, deixo-me levar ao som da sua música melada. Não há significado nenhum para isto nem sentido, nem agravo, apenas prazer...

As nuvens ficam caladas, a olhar-me... e eu flutuo deixando-me ir ao som do mar que sai do fundo dos búzios e das estrelas magoadas e brilhantes. Ficaram ofendidas comigo quando um dia não as deixei entrar em cena. A cena passava-se de dia, não havia razão para as deixar entrar...Disse-lhes que fossem tomar um café enquanto eu estava a sonhar. Zangadas, saíram batendo com a porta, não vacilei...já as conheço, mais tarde voltam.

Gosto daquele vento frio que vem do Norte que me abraça e me faz voar,  que me empurra para os sonhos acompanhado de uma chuva forte que cai dentro e fora de mim, ao contrário de palavras transparentes que de tão leves não atravessam ninguém.

Ele continua assobiar a levantar no ar folhas de Outono e paixões sem tempo, que deslizam de forma envergonhada por entre os homens até apanhar um coração indefeso. E, há por aí tantos..., todos os dias me cruzo com eles. Consigo distíngui-los no meio dos outros. Têm uma cor e uma forma diferentes, são magenta como as romãs mais maduras e mais arredondadamente cheios também, transbordam no que têm para ofertar sem pedir nada em troca, por isso vivem suspensos e leves... destarte seguem o seu caminho sem garantias de sucesso...

- Não importa, só a viagem... já valeu muito a pena. - Pensam...

Umas vezes, são interceptados pelo vento Norte de que vos falo e aí caem redondos num extase que apenas haviam ouvido contar, nunca tinham experimentado. Os repetentes vacilam, mas as lembranças carregadas de emoção da última vez fazem esquecer as contrariedades que aparecem depois fazem-nos seguir o mesmo caminho. Uns e outros deixam de ter vontade própria para ter vontades próprias de um enlace sem limites. 

O vento Norte é capaz de tudo...
e, a chuva, que de vez em quando o acompanha imprime nos homens os cheiros a terra molhada...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

...the most of everything is a second sense second...

 
... não sei o que as pessoas procuram no mundo se "paz" se "pão"..., não as entendo...Creio que, nem elas sabem..

.Determinadas a não passar "necessidades" versus sofrer, numa luta permanente, dilaceradas, entre não ter nem uma coisa nem outra, travam batalhas consigo até conseguir pelo menos uma delas...Não sabem viver com a ausência das duas, nunca aprenderam...Na verdade,  eu também não, confesso...

Desenfreadamente,  procuram dentro dos outros a resposta para as dúvidas que habitam dentro de si...e transformam-nas nas soluções...  Optando por pão não têm paz! optando por paz não têm pão!...é como se o  Universo e os Deuses tivessem determinado há muitos mil anos atrás, numa orgia de excessos no céu, lugar onde habitam, que essa seria uma das condições humanas...Eles, tinham consciência das nossas inconsciências, eram conhecedores da raça humana,....e,  sabiam que desta forma, encontraríamos justificação para nos levantarmos da cama todos os dias...(não queriam um mundo de dorminhocos) ...Refiro-me a motivação...o motor que nos impele ou empurra todos os dias para a vida...

 Apesar da teoria "duvidosa" que recaiu sobre nós como condição, a prática, não nos deixa qualquer dúvida, mas antes uma sensação estranha de forte insatisfação...daí que, nos dias em que temos muito "pão" queremos "paz" e  nos dias em que estamos em "paz", falta-nos "pão"...

Se tivéssemos assistido à discussão lá em cima, onde os Deuses argumentavam, defendendo teorias e teses sobre o tema ao mesmo tempo que comiam uvas e outras iguarias e bebiam vinho, deitados em leitos limpos, de barrigas fartas, trajados com vestes douradas e prateadas, num local de paisagens esplendorosas com vista cá para baixo, num clima ameno, ......e, de mentes já toldadas pelos excessos avaliar pelos risos descontrolados, ....talvez nos fosse mais fácil de entender a condição determinante,... apesar da complexidade da questão...

Se ao menos, eles entendessem que sem nenhuma das duas não passamos de moribundos, sem uma delas insatisfeitos crónicos e com as duas, torna-se mais fácil a existência humana...
Devo dizer, que esta última opção, que nos parece a solução ideal, apresenta inúmeras contrariedades e me levanta sérias dúvidas, ...imaginem...Precisaremos desta última como solução ideal, na justa medida das necessidades que criámos para nós próprios, ...mas na verdade, não precisamos de tanto para nos tornarmos felizes...

...os deuses, continuam lá em cima sem saber do que falam, inebriados pelos excessos...a decidir a nossa vida...

Eu, obriguei-me a optar, procurei o caminho que mais me aproxima de mim mesma...prefiro paz, o pão acabará por aparecer, nem que seja aos pedaços...

PS: ...do dia, torrado se for do dia anterior, transformado em açorda para aproveitar os restos, com manteiga ou sem ela, a servir de conduto ou a acompanhar a refeição, para empurrar a refeição...


sábado, 29 de outubro de 2011

Salva pelo Jorge...


Adormecera.

Da melancolia e do aperto no peito repentino, restava apenas a vontade de me desembaraçar de algo que não era meu, não era de ninguém, apenas dela...Tornava-se impossível de continuar de um minuto para outro...Voltava a dor, a tristeza e a vontade de chorar...Tentava aguentar-se, achar graça ao programa da televisão feito para rir, dar atenção a mais uma ou outra história repetida que ouvira várias vezes de então para cá, desempenhar mais uma ou outra tarefa que fazia parte do protocolo da profissão de fim de semana, rir sem vontade porque a tarefa não tinha qualquer motivo para rir, sofrer calada em solidariedade, dar de comer, limpar a boca, dar os remédios a horas sem se enganar, levar sem que quisessem que assistisse a momentos que requerem intimidade, e ela também não queria..

As horas passavam felizmente, os ponteiros continuavam a rodar sem parar, ainda bem...

Até ao final do dia, conseguira levar tudo sem sentir, ao contrário da última vez. Antes, por esta hora... já chorava sem parar, fumava cigarros atrás uns dos outros e bebia café, sentia uma pequena dor do lado direito junto à anca ao mesmo tempo que ouvia um conjunto de música de festa de aldeia, de uma qualquer aldeia distante, mas não o suficiente...tanto assim, que seguia a letra das músicas, umas mais alegres que outras,... e nessas..., nas outras, chorava ainda mais, pela tristeza do que seria obrigada a viver.

A vida magoava-a a cada momento, mas pior que isso, magoava pessoas de quem gostava como a ninguém e isso fazia-a sofrer mais ainda. Sofriam as duas.

Dormia cedo agora, mais do que antes. O reboliço de uma casa cheia, risos, música, correrias, euforias,...palavras deitadas à rua sem pensar, levianas, era agora insuportável. A visão era turva,... e para grandes males, grandes remédios e os remédios eram agora tantos, doces e amargos, inteiros e em metades. O peso de oitenta e quatro primaveras e verões, e de oitenta e três outonos,... se conseguisse chegar ao próximo inverno era uma vitória estonteante. Carregava consigo, para além da camada de creme diário para amaciar a pele a fralda nocturna... Sentia-se repleta de lembranças, umas recentes e outras demasiado antigas de quando criança, que ainda a mantinham de pé, à espera daquele dia em que iria ajustar todas as contas com ele, caso ele tivesse vontade, porque ela já não sentia forças para discutir ou apenas argumentar...provavelmente, optaria por se deixar ir e pronto... Falava da primeira ida ao Teatro São Luís ver um filme de um cantor da época, o primeiro filme a cores,... entusiasmada, depois de um prato de sopa numa casa pobre como a sua, sem floreados,... a pé descia da Graça ao Rossio e subia ao Chiado, - Era tão bonito aquele teatro, vamos ficar na geral...

Inúmeros anos passados sobre todo este enredo, ...acabei salva pelo bailarino, pelo Jorge que via o filme da sua vida, sentado no palco do mesmo teatro, filmado pelo Marco...Ela, já adormecera, depois de mais um jogo do benfica, o seu último amor.

O Jorge pequenino veio salvar-me da melancolia do momento e levou-me para o quarto, onde fiquei em cima da cama expectante enquanto ele contava a sua história dentro daquela caixa que transborda de tudo desde que se carregue num botão... o outro, o Jorge bailarino, estaria algures no presente, em sua casa sentado na poltrona que o aconchega à vida...Ela, adormecera na cama, adornada pelas lembranças...Eu, permanecia de vigia...

...Obrigada Jorge pelo resgate, ...and please, keep going...


A ilha...





Estes são definitivamente os meus dias. Os dias de que mais gosto do calendário inteiro. Dias de chuva, de chuva de verdade e de vento, em que a natureza se afirma, se firma aos olhos dos homens mais cépticos. Não lhes restam dúvidas, nem a mim por outras certezas.

É nestes dias que me encontro comigo de forma mais íntima, talvez por ser feita de água, de haver em mim mais espaço preenchido pela água que por terra. É nestes dias que me dispo à minha frente, que me encaro, que me falo, que me oiço e traduzo em palavras o que a pele me deixa sentir. Não sem antes buscar uma folha em branco, olhar para ela, limitada pelos quatro cantos, com respeito, sem pudor, para de seguida a encher de vocábulos com ou sem nexo, não me preocupo, ela entende-me, está habituada.

Também ela aparece nua..., sem vergonha, sem embaraço e pronta a ser preenchida de forma arbitrária com as palavras que saltam inusitadas e sem ordem, cheias ainda de vida, porque acabaram de nascer. As mais novas encostam-se umas às outras à procura de aconchego, sentem-se ainda perdidas no meio de tanto branco, sentem frio, arrepiam-se. As últimas já nada temem, têm companhia. É o calor que cresce conforme se vão enroscando, encaixando, fazendo sentido. 

A minha folha, traja agora um vestido que se  molda em cada linha imaginária, dos pés à cabeça. Eu, permaneço cada vez mais nua, a escrever ao som da chuva que malha na minha janela sem perdão. Viro a página.

Vazia, olho o espelho,... não consigo ler-me mais..

Não me insisto, não me obrigo, não me devasso...

Ela, poisada sobre a secretária de madeira deixa-se ficar..., deitada em comunhão, com a caneta...

...Lá fora tudo é água. Cá dentro tudo é água também. Avisto ao fundo, dentro de mim... uma ilha...onde me vejo e revejo, pequenina.

Sou uma criança  rodeada de mar...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Underground - O silêncio dos inocentes...


Debaixo do chão, para além dos ratos, viviam indignados e de cabeça para baixo homens e mulheres de respeito, capazes de feitos sem tamanho para o bem e para o mal...pena era, que as vitórias de outros tempos estavam tão longe do pensamento e da razão que já não se arrumavam nas memórias, nem nas cabeças de ninguém. Pertenciam a um passado longínquo, cheios de pó, em prateleiras esquecidas no tempo. 

Encurralados em lugares onde a luz não existia ou era fraca, onde quase não se conseguia sequer respirar, perdiam a cor, o brilho, a vivacidade, a força, a expressão, a vontade de se expressar, a voz, a garganta..., tudo isto, porque foram deixando de lhe dar o uso próprio, ou qualquer outro. E, eu, assistia agora à sua morte aos poucos, um pouco por todo o lado.

Perderam a esperança, entregavam-se à agonia dos dias infindos, em que as palavras desapareceram, umas atrás das outras, reinando um silêncio ensurdecedor de dor, sem futuro e sem volta. A palavra sonho fugira de todos os dicionários sem deixar rasto, dando lugar à tristeza, à desilusão e ao desencanto.

Antes de perderem as formas físicas de se fazerem ouvir, os homens e mulheres com honra, terão perdido a  memória e a razão. Ninguém tem nada para dizer ou para fazer, se a memória se apagar. Talvez, por isso, vivam hoje, de fardo às costas, carregando todas as culpas, as suas e as demais, até as dos homens que vivem a cima do nível do mar.


Dois dos indignados, ainda pouco convencidos de que a vida findava na distância que vai dos nossos olhos ao chão, aventuraram-se e levantando a cabeça, perceberam que havia algo mais..., desconhecido..., que  havia um outro mundo para além deste, onde a vida ganhava um outro significado, onde o Sol reinava, a água corria, o vento soprava, o fogo iluminava corpos e almas e onde as pessoas sorriam  ainda com vontade de o fazer...

Ali, onde viviam encerrados na escuridão e sufocados pelos modelos, pelas tentativas, pelas desilusões constantes, só existiam duas cores, o cinzento desiludido e o preto carrasco.  Mas, o espírito aventureiro, bravo e curioso corria-lhe nas veias, nas suas e nas dos seus antepassados e aquecia-os de tal forma, que lhes empurrava o pescoço e a cabeça na direcção do céu.

Naquele dia, repararam numa nesga de luz, que atravessava  de forma nuclear aquele gueto casario  sem vida, ou sem esperança, como uma vara atravessa um rio ou um mar até adentro e faz navegar um barqueiro de outra terra, não para o agarrar ao fundo, mas para o fazer deslizar...Morria a morte e espreitava a vida. Aquela que um dia os deixara à deriva, com os homens de outro nível no comando. Aquela, que quase os abandonara....aos inocentes, underground.

Enquanto isto, eu, desfaço-me em folhas de papel e de rascunho que levo para onde vou...

domingo, 9 de outubro de 2011

João e as draconídeas...


Ontem à noite, as draconídeas rasgavam o céu em pedaços, deixando marcas cor de prata na imensidão negra do espaço. Apareciam em todas as direcções de forma envergonhada e faziam traços aqui e ali desenhando a via láctea, enfeitada anteriormente pelas estrelas. O espectáculo para quem quis ver, era mágico. 

Correndo de um lado para o outro no seu casulo, João mergulhava no fantástico de cada vez que saia a porta ou espreitava da varanda.
- Acabei de ver uma, é tão bonito. 
E, permanecia, impaciente a olhar o céu, a quem nunca tinha dado muita atenção.

A Lua, quase cheia, defendia as aparições soltas e espaçadas no tempo, com a sua luz branca e fixa que enchia o céu de luar e o João de preses para que se apagasse só por um bocadinho, para poder assistir em paz e na repleta escuridão aquele espectáculo pela primeira vez e  de forma intensa, viajando, no espaço. Mas a Lua não o ouvia. Estava demasiado concentrada, lá em cima no seu pedestral, a tomar conta do céu.

Acabou por desistir e abrir o mais possível  os seus grandes olhos, redondos, de azeitona, negros. Tapara os ouvidos para não ouvir a luz da lua teimosa  que lhe roubava a concentração e deitou-se no chão a olhar o esplendor da natureza, aquele tecto carregado de pontos minúsculos de luz, mais ou menos intensos conforme a distância a que se encontravam da Terra e questionava-se, curioso.

- Porque nunca dei atenção ao céu?, - Quem são estas migalhas luminosas?
- O meu avô!, A minha avó?!, A minha mãe?!!!

João, não percebera que enquanto formulava para dentro de si todas aquelas perguntas, que a Estrela Polar  que estava mais perto de si que todas as outras e mais atenta,  descera até à sua varanda, silenciosa e lhe oferecera o seu colo,  onde João aconchegava a cabeça. Afagava os cabelos de João com uma das mãos e com a outra permanecia agarrada ao céu, a onde pertencia. Por aqui não havia solavancos de condução como nos autocarros, para que pudesse cair, mas havia uma profecia milenar, que dizia, que no dia, em que soltasse as duas mãos lá de cima, cairia redonda na terra e perderia a vida para sempre. Gostava demasiado de viver para morrer, por isso tinha cuidado quando chegava perto de nós,  as pessoas, os humanos. Permaneceu de braço no ar o tempo todo, numa posição deliciosamente desconfortável. Eu vi, estava lá também.

João, por seu lado, aconchegava-se cada vez mais ao conforto de um colo maternal, que quase já tinha esquecido e que lhe sabia tão bem recordar. Ficaram por ali, encetando um silêncio que nunca mais terminou ao longo da vida dos dois...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

...Um livro no mundo dos homens...

 

Ninguém sabe como ele se sente, nem ele. Divide-se, entre o que está muito perto de ficar para trás e o que tem à sua frente. Não é urgente, mas... Há algo que o empurra e algo que não o larga e que não o deixa avançar, não sabe o que é, não sabe interpretar. Procura no fundo de si, o mais valioso que tem, mas não consegue encontrar, está vazio por dentro. Apenas, por fora, se sente cheio, cheio de coisas que o esperam e que estão cheias de vontade de ir ao seu encontro. Encontram-se pontualmente com ele, e ele gosta.

Refere-se à liberdade, ao viver em plenitude, de encher as mãos de tudo, de sorrir sem satisfação e com ela, de trocar falácias, de esgrimir opiniões, de deitar palavras fora, de escolher as cores que quer, de comer chocolate deitado de costas no chão, de dar presentes com amor, de ir sem saber quando voltar, de não se preocupar, de chapinhar nas poças de chuva, de andar descalço pela rua, de ver as estrelas à noite e acenar-lhes um adeus, de sentir o vento no rosto em dias que não se vê, de voar sem sobressaltos, de deitar a cabeça no ombro de um qualquer vadio que se sente no mesmo banco de jardim,  de assobiar, de contrastar, de imaginar com um sorriso coisas boas, de um beijo de perdão, de dar a mão, de fugir à frente da vida e não andar atrás dela, de subir às árvores, de mastigar nuvens como se fosse algodão doce,  de virar uma esquina e ser surpreendido por alguém, de viajar para outros universos onde o infinito é o fim, de prevaricar,  de ter prazer no que faz, de no cimo da montanha gritar e ouvir o eco da sua voz propagado, de vibrar com o que lhe acontece e com o que acontece aos outros, de amar, de sonhar  e, de viver e, de Ler...Este, era o seu maior sonho, Ler. 

Eu, de vez em quando, por aqui,... nunca tinha ouvido um discurso tão honesto. Pasmei, porque que vinha de um livro, que não queria mais sê-lo. Renegava a sua origem,  pertencer ao mundo dos livros,...tudo isto, desde que percebeu a riqueza e a diversidade do mundo dos homens.



sábado, 24 de setembro de 2011

O Mundo novo...

Maria do Mar viajava por águas, ora doces ora salgadas, mas sempre indiferente à densidade de massa liquida que a embalava.

Adora passear  à superfície ou nas profundezas dos oceanos, dos mares, dos rios e dos lagos,... desconhecendo os limites,,,, é-lhe indiferente. Para ela tudo é água e isso basta-lhe... Muitas vezes é surpreendida pelas correntes, tropeça em agueiros, e pára a ver os  peixes prateados ou dourados que vivem mergulhados e que desfazem passos de dança pelo meio dos arenques e corais, de forma ondulante. Tem uma estrela no céu que a protege e por quem gosta de ser protegida...

Dizem que procura no mar, o que até agora não encontrou no Céu, nem na Terra. Nós não sabemos exactamente o quê, ela nunca contou a ninguém. Maria é suave e, de palavras mansas, por isso  por onde passa, os anjos dizem, na pouca unanimidade das opiniões, que deixa rasto.....................................................................................................................................................................

Neste mesmo mundo onde tudo acontece, tanto à tona como lá no fundo dos homens, vivem outros intérpretes que habitam histórias.

João Sem Terra, que vive de cabeça na Lua. Viaja  por entre nuvens,  pedaços de sol e de chuva, aqui e ali, onde a vida também se faz. Tem duas estrelas perto de si a quem protege e outras vezes, a quem pede protecção, nunca lhes faltam, nunca lhes falta. 

Segura com todos os dedos das duas mãos, mapas, paisagens, recantos, cores, cheiros e bocados de mundo que recolhe e leva consigo dentro da sacola, para depois multiplicar e distribuir, com alma a toda a gente por onde passa.  As lembranças que trás consigo, servem muitas vezes para o aquecer nos momentos mais frios da sua história.

Nunca, ninguém sabe, onde vai parar na próxima viagem, nem ele mesmo,... mas não se importa, gosta de ter a alma solta e errante, alma sua onde se aninha de vez em quando para reflectir e questionar as coisas da terra e do mar. 

 João é bravo e de palavras fortes,  de quem dizem os anjos, na pouca unanimidade das opiniões, que também deixa rasto....................................................................................................................................
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Não se conhecem.

Nem Maria, nem João. Nunca se encontraram. Apenas os seus rastos se cruzam, por vezes, para lá deste e de outros universos.

Mas eu, 
que vigio as almas, que vivo no meio de tudo e de todas as coisas, que tenho asas e que me alimento de livros...  que vivo entre uns e outros, sem que me vejam,  atrever-me-ia  a afirmar que um dia se vão tocar... e vocês, que ainda não conseguem alcançar o que vejo e o que sinto, vão perceber quando Maria do Mar se tornar, Maria Sem Terra e João Sem Terra,  se tornar João do Mar.

O mundo está em suspenso neste interlúdio, e nesse dia a Terra irá parar de rodar.
...

As aves não cantam mais, as flores estão à espera de autorização divina para desabrochar, o galo permanece de boca a aberta à espera que o som lhe saia garganta fora, as guerras pararam e deram tréguas aos homens, o vento não sopra, o relógio ganha tempo, as roupas criaram bolor dentro dos roupeiros, a noite não se atreverá a cair sem que receba o sinal, as portas fecharam-se todas ao mesmo tempo na esperança de se abrirem de par em par no momento mais esperado, ...mas ninguém nota.

A vida de todas as gentes, continua a fazer-se de forma rotineira, sem que ninguém se aperceba que repete momentos iguais.

Um dia, pelo culminar dos dois rastos, o mundo vai encher-se de estrelas brilhantes semeadas por toda a parte, a Lua virá à rua porque faz tempo que se fechou dentro do Céu, os sorrisos vão colar-se no rosto de todos os homens e mulheres que hoje vagueiam de um lado para o outro sem saber o seu destino, e em fila, cada um, encontrará o caminho certo a seguir, onde a esperança espera por eles. A solidão e a tristeza serão banidas, para sempre, da alma das gentes. A Terra encher-se-á de luz, de uma luz branca e brilhante que iluminará corpos, por dentro e por fora. A euforia das almas vão almejar uma festa lá em cima e os corpos que lhes pertencem e que por ora vagueiam lá em baixo, vão fundir-se nelas. Será um mundo diferente, um nascimento de um Mundo Novo, quando toda a gente acordar.

Maria do Mar e João Sem Terra serão amigos e vão dividir segredos e sonhos...