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domingo, 23 de maio de 2010

Recordar - O Vento, o Caos e Maria

(recordar)

Maria estava agora perdida no caos… mais do que nunca…sem ao certo, saber porquê…

Ainda atordoada, perguntava a si própria baixinho porque não conseguia descortinar o caminho de volta para casa. Aquela casa, branca, térrea, com janelas de portadas verdes escuras, um alpendre, e com muito espaço à volta preenchido por alfazema, a seu tempo, salpicado de campânulas e papoílas, que lhe traziam tantas e tão boas recordações.

A sua casa era a única que permanecia no mesmo sítio desde o último tornado, que levara muita coisa pelo ar. Maria, procurava esquecer o assobio do vento enraivecido a soprar aos seus ouvidos. Tinha aquele som gravado e tinha medo. O vento estava zangado, muito zangado. Em plena sinfonia desenfreada, Maria ainda tentou perguntar-lhe de mansinho o porquê de tanta ira. Mas ele nunca a ouviu, porque assobiava mais alto que a sua voz doce e meiga, que só era perceptível no silêncio. Quando cruzavam olhares, ela e o vento, voltava com os olhos a questiona-lo, mas era impossível, porque ele rodopiava, rodopiava e rodopiava, sem nunca abrandar. Nunca lhe respondeu.

Os campos e as sementes, os cheiros, as lembranças doces e amargas, os amigos de sempre, as pessoas em quem confiava, os sorrisos fantásticos que outrora víramos estampados em rostos de felicidade, os sonhos poucos, muitos ou nenhuns, esvoaçavam como se a possibilidade de sonhar não fosse pertença de todos em igual modo e quantidade. O tornado levara almas e corpos, gentes, vidas, sem qualquer preferência por raça, credo ou cor. Levou as conchas todas que apanhou, praias inteiras, golfinhos, cavalos de pau e marinhos…

Retratos de família, brincadeiras de criança, amores permitidos e proibidos, vestes, ficando nuas e sentindo um frio de arrepiar. Levara também as árvores, os pássaros e os seus ninhos e as crias de todas as espécies animais e vegetais…

Sem perder tempo, o vento ciclónico e terrivelmente apressado levou consigo também todos os filhos, as Mães, os Pais, o Pai Natal, o trenó e as renas, as prendas, os doces, o que tanto queríamos e o que nunca tínhamos desejado de bom e de mau e levou também o ano anterior.

Levou A música… que profunda tristeza sentiu Maria, … a música fazia-lhe tanta falta.
As pessoas interessantes que conheceu,
A magia das coisas, as coisas boas e as coisas más.

Consigo, o vento levou ainda os mares, os rios, os lagos e os charcos. As fontes por isso secaram, não queriam ficar sozinhas. Os peixes coloridos e os prateados também tinham desaparecido, abriram a porta e saíram em fila, uns atrás dos outros, pelos céus...

As nuvens empurravam-se, umas às outras, carregavam em cima aviões com pessoas, pessoas com histórias, histórias de famílias, de laços e de “nós” consanguíneos.

Os sacos que nunca serviram para outra coisa, aproveitaram para transportar o que restava, as coisas mais humildes. Levaram brinquedos novos e velhos, apanhavam tudo com uma das asas e metiam dentro de si tudo o que lhes acontecia pela frente.

Maria não queria acreditar que um tornado fosse capaz de anarquizar tudo e que após um período de trégua, voltasse a baralhar e dar de novo.

Percebera, então onde estava. Permaneceu o tempo todo dentro de casa, refugiada num canto da sala. Cerrava os olhos, para de vez em quando matar a maldita curiosidade por entre os dedos e ver na direcção de uma das três janelas ainda fixas às paredes da sala…o que continuava acontecer…

Maria olhava em volta, e via o caos e o vazio.
….

Por último, os seres Tornados homens levaram as palavras e com elas, Maria deixou de poder dizer o que quer que fosse, desaprendeu de soletrar e tombou silenciosa e inerte.

O Seu último olhar foi para ver Maria, voar de si própria, dançando com o vento e esboçando um sorriso.
-Adeus, Maria - disse a si própria.


18 comentários:

  1. …E relembrar a renitência que tinhas…em te dar a conhecer pela escrita!

    Estás lá…num caminho que se te afigura risonho.

    Bj*

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  2. Vitor: ...a ti, tenho que agradecer o incentivo que me deste para abrir um blog, sem ti, nada disto teria acontecido... Um beijo grande e obrigado por me aconselhares no momento certo. bjs

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  3. Vitor: Obrigado Vitor, mais uma vez....não fora a tua insistência e eu nunca teria construído o meu blog e dado a conhercer o que escrevo, que sem qualquer pretensão entrego a quem me lê de corpo e alma...

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  4. olá alfa,
    tudo bem?
    vim te conhecer e fiquei encantada sua escrita é fantastica.
    o post colocado pelo querido amigo ricardo é perfeito..parabéns.
    estou seguindo você.
    otima semana com bjos.

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  5. olá
    esta Maria fez-me ficar com arrepio na pele
    espero não termos de passar por isso.
    bj
    teresa

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  6. Legalmente loira: Agradeço que tenha passado aqui por casa, fico muito feliz...a porta está sempre aberta basta empurrar,entre, sente-se e leia qualquer coisa...logo, logo eu volto. Um beijo de Portugal

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  7. Teresinha:...não te preocupes, isto não passa de ficção. bjocas

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  8. Obrigada, querida, pela visita. Volte sempre!

    E o agradecimento é Deus que merece por esse belo dom que Ele te deu. A mim Ele deu outros e um deles é de ser "escriba amalgamada" como me denominou o nosso amigo Ricardo... rss

    Parabéns, vc é ótima no que faz.

    Agora sou sua seguidora, voltarei, tb, outras vezes...

    Bjs.

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  9. ...Somos todos filhos do vento, mas por vezes temos a insana convicção de inverter os papéis e quase sempre pagamos caro por nos colocarmos no papel do Pai.
    Bjs pela bela descrição dum belo versus terrivel momento.

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  10. Bom dia, amiga.
    Você tem um jeito especial de escrever. Esse texto dá arrepio...
    Estou lhe seguindo.
    Um grande abraço, e muito obrigada.

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  11. O "tornado" mais difícil para Maria terá sido, estou certo, "voar de si própria": desta metáfora pintada a caos sobraram, afinal, as palavras e, com elas, Maria pôde dizer-nos de sua aventura...
    Beijinho

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  12. Ivy:Obrigado pelas suas palavras amáveis, volte sempre que tiver vontade...a minha casa tem sempre a porta aberta, basta empurrar, entre, sente e leia qualquer coisa...entretanto eu apareço. Beijos do lado de cá do Atlântico.

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  13. Carlos: Obrigado pelas tuas palavras e por permaneceres atento ao meu rasto...bjs

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  14. Amapola:Amapola obrigado pelas suas palavras amáveis que me dirigiu, ...é um jeito que até aqui não tinha consciência que existia e ainda me questiono...de qualquer modo agradeço,seja bem vinda a aqui a casa, a porta está sempre aberta, entre e sente-se, leia qualquer coisa...que eu volto num instante. beijos do lado de cá do Atlântico.

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  15. Quicas: ...talvez Quicas, talvez....a Maria um dia vai voltar aqui a casa e quando isso acontecer você e eu vamos ter oportunidade de lhe perguntar directamente....um beijo do lado de cá do Atlântico.

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  16. Maria Auxiliadora de Oliveira: Fiquei contente de verificar que se tornou minha seguidora, obrigado Maria, seja bem vinda aqui a casa a porta está sempre aberta, entre, sente-se e leia qualquer coisa...volte sempre que tiver vontade. bjs

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  17. Gosto da forma como falas das tuas emoções..
    Alfa.
    Aqui fica um grande abraço de parabéns!
    Vóny Ferreira

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  18. Às vezes sentimo-nos como a Maria, o vazio do caos, a desesperança...
    A vida porém se renova após a tormenta.
    Criativo e fantástico texto.
    Abraços Alfa, grato por sua honrosa visita e gentil comentário no meu Poeteiro de rua.
    Um grande abraço

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alfa diz: