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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Bom Ano 2011



Findo este meu ano
sem saber o que o próximo me vai trazer
trocava as surpresas pelas certezas
do futuro
Incomodam-me as incógnitas
Não queria que ele terminasse
Havia ainda tanto para fazer
e para dizer
Sobretudo mais e melhor
Quero o melhor para mim e para quem estiver por perto
que do longe se faz perto
honestamente melhor
Resolvi entrar no próximo em terras vizinhas
p'ra que me traga o salero
que este não apresentou
de tão Lusitano que foi

....
Teve fado, nostalgia,
mágoa, melancolia
Teve sonho, corpo inteiro, reticências
devaneios
algumas ausências
loucura, ternura, alegria
sempre esguia
Teve metáforas deliciosas
outras em tudo escabrosas
Muitos signficados
de vários apaixonados
outro tanto derramados

E, muito do que por aqui se disse
ao longo de todo o ano
foi muito mais que, desdisse
que verdade, amor ou paixão
Foram reflexos magoados
por todas as gentes vividos
de onde vieram significados
por todos interpretados
de sonhos ou talvez não
Aqui me dispo e dispo outros
com vontade de os vestir
sem nunca deixar de dizer
ou me obrigar a mentir
A perfeição não existe
em tudo e em todos nos trai
Somos seres aglomerados
cheios de significados
excepto no que está para vir
Adorei estar com vocês
que me lêem outras cores
aguardo com expectativa
a vida para além da vida
e o desenrolar de novos amores

Um beijo para o caminho,...
...de um novo ano à nossa espera.

Feliz 2011, para todos quantos se sentem bem ao passar por aqui...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O virtual Jogo de Xadrez


Na batalha de uma vida
por entre reis e rainhas,
torres, bispos e cavalos
amargurou um menino
que nunca fez parte do jogo...
O jogo não existia por não haver jogadores
havia peças brancas e pretas
havia reis, rainhas, torres, bispos, cavalos e peões
havia duas cores distintas
branco e preto
e havia o momento em que se misturavam
criando uma fronteira cinzenta, pardacenta
umas vezes mais escura que outras, mas sempre cinzenta
era o limite das cores,
onde se fundiam
...para o bem e para o mal...

venceu o mal, o contrário das histórias com final feliz...

O jogo não existia, a não ser o jogo da vida
onde todos somos peões
onde todas as peças têm um valor relativo
dependente da função da peça
e da estratégia da vida
amargurou uma menina
que nunca fez parte do jogo...
por causa da amplitude de movimentos
que a cada peça corresponde

O jogo não existia, o jogo nunca existiu...senão, o jogo que a vida nos obriga a jogar todos os dias.

Vencidos por nós...

 

Nada colmata as distâncias
não há actos ou afectos que as alimente
Nada colmata o que ficou por fazer
as coisas mais simples
de que a vida também é feita
transformam-se em desencontros latentes
que espreitam a cada esquina os destinos
e crescem ás avessas
Nada sobrevive em mundos distintos
águas que só se misturam ás vezes
sem ter o mesmo curso
por muito que o seu correr seja feliz
Nada vence a escuridão o espaço criado
as lacunas
Nada vence as pausas de frio deixado pelo calor ardente
Nada vence a ira gratuita a resvalar o prazer pela maldade
de quem se sente enganado
Vencidos, nos deixamos ir cada um para seu lado
para mais longe ainda...
que a distância que sempre nos separou
onde um dia nos encontramos perto

Nada nos vence, senão nós próprios...
Fomos vencidos por nós...

Al Berto - pintor e poeta/ Poema - A carta da árvore triste


"escrevo-te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora
o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã
espaço de penumbras e de incertezas
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite
este vácuo lento este visco dos espelhos
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele
começa a asfixia o perigo de ter amado
no mais profundo segredo das noites devoravamo-nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto
como um presságio
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras
revelam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido
é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola-se-me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou-se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram-se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever-te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar-me-ia todo o desejo
cegar-me-ia tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter-me-ia sido fatal
conduzir-me-ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar-me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo
sinto a manhã cada segundo mais próxima
ameaçadora e cruel
a luz arrastar-me-á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer
arremessar-me-ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir
tenho a certeza de que parto para sempre
não haverá regresso nenhum
creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
a paixão nascesse durante o sono
um país um pouco maior que este quarto
fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
inventaria mesmo desculpas plausíveis
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
catástrofes
e na espera duma carta acabaria por me embebedar
beber muito e esperar
esperar
digo tudo isto mas já ..."

                                                                                                      Autor: AL BERTO


A vida esgota-se em nós... peixes voadores...

Mais do que nas palavras que proferes
é nos teus olhos e nos teus gestos que encontro a verdade 
do que sentes
Antes de começares a falar
Depois, passado um momento tudo flui
Expões os nós maiores
e começas a desatar, largando pontas soltas aqui e ali, por todo o lado
Ficas à espera que as agarre e que as enlace a qualquer coisa,
mas algumas não passam disso mesmo
pontas soltas, à deriva ainda procuram significado
não as consegues agarrar a nada, porque não têm onde
é mesmo assim, nasceram soltas, nada mais
Procuramos a lógica de tudo, tu e eu
quando ela por vezes não existe
nem tudo  é um desencadear ordinário, numérico
há números que vivem sozinhos, soltos desintegrados da ordem
e isso não tem que ser obrigatoriamente ausência de uma lógica que conheces
Não é um jogo, não há peças de xadrez
A seguir deveriam aparecer os laços, os supostos laços em que as duas pontas soltas se encontram
para se entrelaçar
mas são de papel
que ao dobrar
rasgam...
Deixas comigo o pior de ti, levas contigo o pior de nós...
É difícil acreditar que o Mundo é melhor do que nós dois juntos
Mas há um amor que não subsiste
que não tem força
A serenidade desapareceu do seio dos Homens

A vida esgota-se em nós...

A derrota



Maldita insuficiência do suficiente
Maldita instabilidade que vagueia por onde não deve
Maldita desconfiança adormecida
Que acorda a cada sono
que não deixa repousar ninguém
Diz-se amiga do amor
Chamo-lhe inimiga da verdade
das histórias bonitas
Maldita erva daninha que cresce a cada instante mais pequeno
E que mesmo sem ser regada
sobrevive
Maldita metástese, que alojada se esconde
disfarçada de vida
que mata aos poucos a verdade das coisas
das vidas, das possibilidades e dos sonhos
Maldita desconfiança
que abranda amores, que faz recuar águas
quentes
Sofredores maiores, dos que a ela se vendem
a quem confiam, a quem desabafam os seus maiores desejos
de quem ficam reféns na sua existência toda
não vivem a plenitude de tudo
sofrem, fazem sofrer
porque atrás de todas as coisas há sempre um fantasma, impiedoso
prestes a resistir e pronto para vencer sempre
Arrebatados, julgam 
Entre ela e eu poderia ser eu a vencer
Mas tu não deixas, não queres, não acreditas
Ela tem a verdade escrita no peito
eu tenho apenas a incerteza do teu acreditar
Dou-me por vencida, entrego-me...
vou-me embora sem forças
Vocês estão os dois do mesmo lado
eu fico sozinha, derrotada...

domingo, 26 de dezembro de 2010

and now ladies and gentlemen ... we fly to...


 
A lareira

Há uma lareira acesa entre nós que nos aquece
Que reinventa os afectos nesta quadra
É o alaranjado fogo que promete que os dias amanhã serão diferentes
Mais doces, mais solidários
As chamas têm asas, que se desfazem a cada crepitar
Para se refazerem noutras formas
Com a intensidade do calor adquirido
Atingimos o aconchego sublime
E aconchegamos os que estão ao nosso alcance
É um calor necessário, que aquece os corações mais selvagens
E nos transporta o pensamento para lugar nenhum, senão para junto de uma lareira
De contornos humanos, com histórias presentes e passados
pessoas fascinantes carregadas de compaixão e paixão pela vida
É este calor que a faz permanecer acesa
Sem lenha, sem pinhas, sem fogo
continuando arder...



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bom Natal e um excelente Ano Novo

Para todos os que aqui passam, desejos de um Feliz Natal, cheio de saúde e de coisas boas...bjss



"Chovera toda a noite. As ruas eram autênticas ribeiras, arrastando na enxurrada toda a espécie de detritos. Os carros passando a alta velocidade espalhavam, indiferentes, água suja sobre os transeuntes, molhando-os, sujando-os. 
    O Tonito seguia também naquela onda humana, sem destino. Tinha-se escapulido da barraca, onde vivia. Os pais tinham saído cedo para o trabalho, ainda ele dormia, os irmãos ficaram por lá brincando, chapinhando na lama que rodeava a barraca. Ele desceu à cidade, onde tudo o deslumbrava. Todo aquele movimento irregular, caótico, frenético. Os automóveis em correrias loucas, as gentes apressadas nos seus afazeres. E lá seguia pequenino, entre a multidão, numa cidade impávida, indiferente, cruel mesmo. Passava em frente às pastelarias, olhava para as montras recheadas de doçuras, ele comera de manhã um bocado de pão duro e bebera um copo de água. Vinha-lhe o aroma agradável dos bolos, o seu pequeno estômago doía-lhe com fome! Chovia agora mansamente, uma chuva gelada, levando uma cidade onde se cruzavam o fausto, a vaidade, o ter tudo, os embrulhos enfeitados das prendas, com a dor a melancolia, o sofrimento, o ter nada e no meio uma criança triste e com fome! 
    Mas o Tonito gostava era de ver as lojas dos brinquedos. Lá estavam os carros de corrida, o comboio, os bonecos, enfim todo um mundo maravilhoso que ele vivia, esborrachando o nariz sujo contra a montra. Lá dentro ia grande azáfama nas compras de Natal. E os carros de corrida, o comboio, os bonecos eram embrulhados em papeis bonitos para irem fazer a alegria de outros meninos. Uma lágrima descia, marcando-lhe um sulco na sujidade da carita. Eis que os seus olhos reparam num menino, que de lá dentro o olhava. Desviou-se envergonhado. Não gostava que o vissem chorar. E afastou-se devagar, pensando nos meninos que tinham Natal, guloseimas e carros de corrida para brincar. Ele nada tinha, além da fome e a ânsia de ser feliz e viver como os outros. Pensou no Natal, no Menino Jesus, que diziam que era amigo das crianças a quem dá tudo. Por que é que a ele o Jesus Pequenino do presépio nada dava?
De repente, uma mãozinha tocou-lhe no ombro.
    Voltou-se assustado. Era o menino da loja que lhe metia na mão um embrulho bonito. À frente a mãe, carregada de embrulhos, fazia de conta que nada via. Abriu-o e deslumbrado viu um carro de corridas, encarnado, brilhante, como os olhos do menino que lá ao longe lhe acenava. Ficou um momento sem saber o que fazer, mas depois largou a correr, mostrando bem alto a sua prenda de Natal.
    Parara de chover. O sol tentava romper as nuvens escuras, lançando um raio de luz brilhante e quente sobre o Tonito, que ria feliz, numa carita sulcada pelas lágrimas."
 
Autor: Fernando Sequeira

domingo, 12 de dezembro de 2010

Recortei a costa...



Saí sem veleidade de passear...

Levava comigo alguns pertences, uma garrafa de água, uma maçã  e um livro, o que deixava adivinhar que o passeio saberia ser prolongado - nem eu sabia ao certo, mas gostava de me precatar em terra  sempre que ia para o mar.

Submeti o meu corpo capitaneado pelos meus pés, a adoptar a direcção Norte. Apresentavam-se-me duas hipóteses: ou,  seguia ao lado da estrada não concebendo um passeio com tormenta permanente, de um vrummm vrumm trauteado a cada carro que passava, ou, descia à praia e seguia o recorte da costa ao som do mar e de uma maré vazia.

Preferi a segunda.

De cima,  no miradouro, alcancei que a praia estava nua. O mar tinha levado muita da areia que deixei lá no último Verão, e viam-se-lhe os ossos acentuados. Todas as rochas que a constituíam eram visíveis. Desci.

As anfitriãs eram as gaivotas, já adultas, que davam as boas vindas a quem por ali se aventurasse. Ao fundo das escadas da Praia do Matadouro, eram as fragas que se estendiam no caminho. O mar chão, balouçava baixinho, para cá e para lá enquanto  eu  ia fazendo comparações entre aquele lugar onde tinha estado deitada apanhar sol  em dias de calor,  confortada pela areia, e o monte de geios que aquele mesmo lugar apresentava agora, hoje,  em plena maré frívola. Percorri a praia cimentando todas as analogias que a minha memória conquistava recordar, das reminiscências que me restavam da última estação.

As gaivotas quedavam-se  e encontrava-me agora com os maçaricos do mar, que debicavam ouriços arrastados à força e deixados à vista pela inexistência da água; viam-se lapas pequenas, agarradas ás rochas como crianças  em idade muito tenra, que temem os estranhos e nos virão a cara, rejeitando a medo, o desconhecido – Aliás, o que continuamos  a fazer mesmo depois de adultos, com uma dificuldade acrescida,  a de não termos a quem nos agarrar, o que torna tudo mais difícil -, momentos que nos postam à prova e que nos conferem, igualmente duas opções: ou o encaramos e o vencemos, tornando-nos mais fortes; ou, o medo toma conta de nós para o resto da vida, de quem seremos eternamente reféns.

Perdida em todas estas meditações que me furtavam a raciocínios infindáveis, seguia o meu velejo praia adentro. O Sol, que já ia alto aquecia-me agora o corpo e sublimava a temperatura de tal forma, que me aliciava ao ponto de tirar o blusão roxo de penas. Coloquei-o à cinta, onde similarmente gostava de estar.

Cheguei ao final daquela praia e só tinha uma desembocada, alar-me de novo, como tantas outras vezes e encontrar-me com a civilização. Era obrigada abandonar o mar, sozinho, por instantes. Foi o que fiz, sem ânimo. Os ritmos seguintes seriam feitos ao som dos automóveis que transcorriam.

Poucos minutos e metros depois, feliz por ir ao seu encontro de novo, entrei no caminho de terra e pó amarelo que me levava à praia seguinte. Deixava para trás momentos de deleite, singulares, que me ofertavam a tranquilidade bastante e o prazer costumeiro da proximidade com a natureza.

Cheguei à praia seguinte, praia da Empa. A vista era sumptuosa, como, por tantas vezes, já havia atestado. Parei agraciar, olhava para um e outro lado e só via mar à minha frente. Um mar calmo, doce, absolutamente sedutor.  A cor e o cheiro que tinha, subjugava qualquer outro desejo  ou sentido que pudesse imaginar.

Desci as escadas, eram de madeira. Já ali tinha estado outras vezes, mas nunca porfiava para além daqueles degraus de madeira.

Hoje, era o dia em que granjeava uma contiguidade maior e a maré rasa franqueava a aventura. Sempre que tinha ensaiado descer a esta praia, coincidia com marés cheias e rebeldias,  com deferência, que se sabiam fazer respeitar. Por isso, nunca tinha conseguido ver para  a minha direita, o que existia para além de um cachopo impune e muito rocado à mistura.

Havia roupas espalhadas nas rochas, certamente de surfistas aventureiros, o que, com muito esforço alcancei burilar ao longe. De tão longe, eram tão exíguos.

Escalei por cima de rochas a cuidado e rumei de novo a Norte. O livro, de quem já me tinha esquecido, mas que tinha resolvido levar hoje a passear, resolveu fazer-se notar e atirar-se para o chão.

- Bolas. ...disse...e, pensei...
Felizmente, que não resolveu mergulhar em águas fundas; pobres letras e palavras de Gonçalo se tivessem apresentado outras vontades, morreriam afogadas numa praia quase virgem que só é possível romper quando as águas nos permitem. Não queria o destino que aquela história ou histórias que transportava comigo, que todos aqueles personagens inventados por outro alguém, mergulhassem para além-mundo  dos livros, sem que eu o pudesse ler.

Recuperei-o, por entre o musgo verde-escuro que cobria de forma rala aquele rochedo  ainda jovem, carregado de covinhas de encantar,  cheias de água salgada onde existia vida, noutras formas. Tinha a certeza.

Prossegui na mesma direcção, determinada, depois de ter derrotado e dobrado o rochedo maior atrás de mim. Olhei em frente e vi uma praia pequenina de areia dourada, que não tinha qualquer pegada humana.

Estarreci, enternecida...Era a primeira vez, que a via de facto...

Pisei a areia e cuidei, que esta teria sido a mesma sensação que teve, o primeiro astronauta quando pisou o solo lunar. Agigantei nos pensamentos, eu sei, mas não me importo com isso,... desfrutava integralmente do som do mar que tinha de volta aos meus ouvidos, da visão de uma praia completamente deserta, que era naquele momento só minha.

Que vontades esquivas, tomam conta de nós, de vez em quando. A minha alma estava feliz, era o que importava. Atravessei-a, até à outra ponta, ainda mais a Norte. Olhava para trás e via ao longe uns pontinhos pretos, que os meus olhos não conseguiam identificar com precisão, o que deviam ser os dois surfistas conquistando ondas dóceis.

Imaginei que pudesse estar na direcção do Velho Forte, porque não conseguia fitar nada senão uma encosta muito alta, com ar de Adamastor, como se fosse um gigante que estava ali para não deixar passar o mar.  Dobrei aquela proeminência costeira e encontrei outra praia mais pequenina ainda, com ar envergonhado, igualmente sem acesso nenhum.

Não lhe conhecia o nome, mas era uma praia guardada pelo Velho Forte. Antes da sua existência, não era guardada por ninguém. Este, seria o seu velho e único amigo, que jazia em ruínas a seu lado, para o que desse e viesse. Ele estava decidido a tomar conta dela até ao seu fim. Talvez, fossem avô e neta, não cheguei a perguntar, imaginei apenas.

Por momentos pensei descer e alcançar Ribeira d’Ilhas, mas as forças, o cansaço e a sensação de que aquela costa era interminável retiravam-me a vontade de continuar. Estava saciada.

Voltei para trás, subindo e descendo pequenos rochedos,  até me abalroar na areia de novo, da praia  de areia dourada. Não havia pássaros por aqui, nem gaivotas, nem maçaricos. O Sol estava demasiado quente para Dezembro e obrigava-me a fazer uma pausa para descansar.  Bebi as ultimas gotas de água, que restavam no fundo da garrafa que levara comigo. A paisagem e o silêncio eram ópio, pousei o que tinha em cima do casaco roxo e despi-me…O mar de um lado, a terra do outro…repousei..., flutuei...

…voltei à reminiscência quando já me encontrava sentada num banco de pedra, à sombra, longe daquela praia de sonho. Descalcei-me, e foi quando entrei em Jerusalém com a devida atenção. À minha frente tinha agora uma louca, Mylia, que estava doente, um médico, Theodor e Hannah, uma jovem prostituta, que me aguardavam carentes de atenção, cansados. Dediquei-me a eles durante uma hora.

Deixava-os mais tranquilos e recolhia agora a casa, cheia de ideias e uma enorme vontade de escrever, maior que a convicção que tinha quando o fazia de facto. Atropelavam-se as imagens, as palavras, as frases, os momentos, os pormenores,...

...Já  em casa, pensei...Hoje, recortei a costa e passeei por praias desconhecidas.

Insólito


...O dia tinha nascido convidativo a um passeio à beira mar, sem que eu estivesse com vontade de aceitar qualquer convite que fosse, que me quisessem dirigir. No entanto, algum tempo depois…

O meu estômago decretara aceitar o convite e tomar o pequeno almoço na esplanada, acedi.

Saí sem veleidade de passear, obrigando-me no entanto, a contrariar uma força ociosa que me empurrava para não fazer nada. O único objectivo estabelecido para o dia de hoje, era fazer a árvore de Natal, que há cerca de um ano esperava sair da caixa, para respirar e ver a luz do dia. Mas, confesso que a vontade não era grande, nem pequena, não existia simplesmente.

Começara a conceber o balanço mental, de final de ano. Talvez, por isso, o meu pensamento absorvido por estes encontros de contas, convenientes nesta época, a pessoas e a empresas, não deixasse espaço para lavores supérfluos e falazes de uma árvore presunçosa que sempre que saia à rua, planeava apenas brilhar.

Saí a porta. Abandonando, uma casa que queria vestir-se de Natal, só porque chegava o momento. Não me apetecia perpetuar esta quadra agora, talvez tendo presente o prolóquio que, - Natal é quando um homem quiser - e, que estou tentada a concordar. Na verdade, andava ocupada em enunciar objectivos para o ano seguinte…!!!

Desci a rua sozinha e ao fundo encontrei o café do costume. Sentei-me na esplanada e preparei-me para pedir o habitual, como se fosse a primeira vez. Fui de tal forma persuasiva na proporção das palavras, que consigo antever a expectativa que aleito na cara do empregado…para, de imediato, o desapontar, limitando-me a pregar o mesmo de sempre. Voltou costas na direcção do balcão, decepcionado comigo.
Afinal, quando me aborda, a cada fim-de-semana, noto que se me dirige com uns olhos de esperança, de que, é hoje, que o vou surpreender e vou pedir uma coisa distinta.  É, como se pressentisse os seus pensamentos quando se avizinha. É denunciado pela atitude que manifesta, não tanto no que diz, mas no que acompanha as suas palavras.

- Bom dia…O que deseja? … verbaliza, numa confiança reavivada …
Atentando nos seus olhos, quase o consigo enganar. Respondo, fazendo algumas suspensões, que lhe apontam que hoje, vou pedir algo diferente para comer... Lastimando desapontá-lo, limito-me a pedir o mesmo de sempre, escondida nos óculos escuros.

- Meia torrada e uma meia de leite, por favor.
Não gosto de decepcionar ninguém, mas aquela fusão de pingalho e alimento é o que, deveras me sabe bem comer ali, naquele café, àquela hora, sempre antes de um passeio junto ao mar, ainda que por decidir o meu destino.

Acabei de tragar ao som de uma conversa de fundo, de alguém que, atrás de mim, falava mais alto do que os meus próprios pensamentos e dirigi-me ao balcão para pagar, depois de uma investida gorada de chamar o mesmo empregado decepcionado, para me fazer a conta.

O preço, era sempre igual, afinal era também sempre a mesma coisa que pedia para comer.  Mas eu reincidia e encetava sempre, junto à caixa registadora,  a mesma pergunta:
 – Quanto é?...perguntava, à empregada…

...agora, era eu que estava à espera, estupidamente, que um dia, ela me surpreendesse.  Não havia sequer razão para tal pergunta. Talvez, procurasse testar a empregada, sem qualquer motivo e alcançar se iria falhar a resposta um dia.

Não me surpreendera.

Como se de um jogo se tratasse, a título de recompensa,  passava-lhe o dinheiro certo para a mão. As duas moedas impacientes esperavam na minha, desde que me tinha levantado da mesa.

Saía sempre com a mesma impressão dali, de que era uma situação caricata, desde que chegava até que saía, porque se afinal eu e os empregados sabíamos aquele papel de cor, porque o representávamos inúmeras vezes no ano!!!… questionava para dentro de mim, que sentido fazia perdermos tempo em cumprir todo aquele protocolo de formalidades absurdas, que ainda por cima nos deixava uma sensação de idiotas!!!

Esqueci o assunto...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O próximo livro...Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares




...o próximo livro que se vai aninhar ao meu lado, quando as minhas mãos e os meus olhos se fecharem, pesados pelo cansaço de mais um dia...

"...Um livro não se pode apagar..."



!!!!!!!!!

Já não sei como conheci o Pedro Miguel Rocha, não foi assim há tanto tempo. Foi via Facebook, provavelmente, sugerido por algum amigo comum, confesso que não me recordo.... Por essa mesma via tive conhecimento que iria lançar o seu 2º livro, fiquei curiosa. Mas,  foi uma frase que um dia colocou no seu mural que me chamou, realmente, atenção: 

"Arriscaria a sua vida para salvar um livro?"... achei a pergunta um desafio interessante, nunca tinha equacionado ou formulado uma pergunta do género a mim própria ...

Comprei...

A história acontece em torno de um jovem galego de 23 anos, chamado Xosé Perez, que escreve o seu primeiro livro, onde impera o sonho, a utopia e o desejo profundo de uma organização social diferente daquela em que vivemos.

Chris Brown é um bibliotecário curioso...que encontra o único exemplar da obra, anos mais tarde, num depósito da biblioteca de Old Harlow, que o lê e, que tenta perceber que pessoas ou organizações é que nunca permitiram a sua publicação.

Adorei a história com apontamento de thriller, mas fundamentalmente fiquei impressionada com a mensagem que esta obra nos oferece. O livro caracteriza na perfeição as sociedades dos nossos dias, as pessoas e os seus interesses, a organização de vida, a parametrização,  a massificação uniforme, tendo por base uma vaga materialista que nos envolve e suga, e em que as grandes empresas mundiais e o seu capital económico controlam os governos, os políticos, os cidadãos.

...

"A vaga materialista já nada mais tem para dar, sendo mesmo prejudicial se continuar a reger a vida dos seres humanos. O Mundo está, actualmente, encravado em múltiplas e continuadas crises que só serão desanuviadas e desencravadas com o clarificar de uma nova civilização: respeitadora do passado, das tradições e, acima de tudo, desmaterializada."

...contra a publicação do Chegámos a Fisterra, existe  a Federação do Futuro, a caminho da cidade com o espírito mais capitalista do Mundo...

...Acabei de deixar,  Chris Brown a escrever as últimas linhas deste livro sentado na sua secretária...

"Um livro não se pode apagar. Ele vive para além do seu autor e a sua mensagem perdura enquanto os leitores assim o desejarem."... acrescento: Um livro que nos faz pensar...

"Chegámos a Fisterra", um livro de Pedro Miguel Rocha

Até qualquer livro...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Palavras molhadas...com alegria



…e, sempre que a chuva cai sem piedade, como ontem, como hoje, elas querem fugir de casa, fugir de um texto qualquer, que não fazia sentido, onde não gostaram de estar e saltitar simplesmente. Soltas, livres. 

Tal como eu, elas abraçam o barulho da chuva, num som repleto de outros timbres inaúditos e gostam de se rebolar por entre os pingos mais intensos, murmurar outras palavras pequeninas ao mesmo tempo, sentir o odor da terra acabada de molhar.

Entram num frenesim desconcertante, perdem a compostura, amarram palavras umas às outras e fazem um cordão delas, textos novos. Saltam à corda, jogam, cantam, dançam sem parar. Surgem enlouquecidas de todos e por todos os lados, esgueiram-se pelos intervalos mais estreitos entre uma e outra gota. 

Instala-se a euforia desmedida e não contida de maneira nenhuma, não têm mãos a medir, querem molhar-se, querem falar sobre chuva, sobre alegria, sobre amor, sobre tudo o que as encanta. E, olhando para o céu que continua carregado, fogem para o meio da chuva, para um mar nunca antes navegado.

Derramadas, caiem exaustas ao som das últimas gotas…

Alma ao vento...



O que trago dentro da alma, é muito mais do que corpo
É altruísmo, é compaixão, …é um porto.
É um amanhecer…,
é um amor desenvolto
que não será ofuscado, nem podado, nem mar morto…


De uma sombra desfocada do que fui, do que serei
Iludida pelas margens de um rio que corria à minha frente
Pus um pé em ramo verde,
queria brincar, queria ser gente…
Imaginei.

Eram sonhos de criança que me inundavam a vida,
numa esperança desmedida como então havia poucas.
Não me fiquei por aqui.
Fiz disparates..., senti..., fiz coisas loucas.

E de tantas experiências
 acabei a acreditar
Que um dia nascia uma frente, tornada quente, que me diria
Que imaginar e amar,
é o sonho de toda gente

Quando um dia, a caminho do vento Norte
Numa tempestade esguia, entremeando relâmpagos
encontrei a minha alma
Sempre calma, tranquila, no seu bote

E, da minha alma despontou um vento
que me avivou a memória
Em que acabei testemunhando
Que este corpo quis tantas vezes, amar apenas…
Sem prisão, submissão ou vitória

Por quantos sonhos manteve, este meu corpo inventado
Abraçou a minha alma
Desculpou-a, fatigado.

Deixando-lhe uma lição

Sendo corpo, alma ou  paixão
Terá direito  a amar,  a sonhar, sem direcção.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Para o infinito e maiiisss aallémmmmm...



BBBBBBRRRRRRRRR, qqqqqqqqqqqquuuuuueeeeee fffrrriiioooooo...
...este foi o filme da tarde, no quentinho, com os sobrinhos...um filme delicioso da Pixar...

...quem me dera por vezes ser como o Sr. Batata e infiltrar-me aos bocadinhos onde quisesse...primeiro a orelha, depois um olho, a boca, um braço, outro braço....e por aí a diante...::-))

...ou quando alguém é mau na vida, poderíamos carregar no Reset, para recomeçar de novo, como fizeram ao Buzz...e, voltava a ser bom...::-))


...no conforto...lembrei-me e perguntei aos grandes e aos pequeninos:
- Onde será que estão abrigadas as pessoas que não têm casa, no dia de hoje, com tanto frio?...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tratado sobre a Amizade..."...talvez exista, uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas."



...No Outono, de regresso da Bretanha, a família Heitzing ruma a Viena, onde puseram o menino no colégio militar...

"Eram como crianças que brincam vestidas de soldados. Calçavam luvas brancas e faziam continência com graciosidade.";"Tinham dez anos quando se conheceram." ..., era o início de uma longa amizade entre um menino rico e um menino pobre...

"Só os homens conhecem esse sentimento. Chama-se amizade."

Konrád havia tocado a 4 mãos, com a mãe de Henrik a peça - Fantaisie Polonaise, Chopin...e depois de passada a adolescência e de entrar na idade adulta, desaparecera, sem despedidas, durante quarenta e um anos e quarenta e três dias...

...

O Konrád escreveu - disse o general;
Ele está cá na cidade - disse o general à ama, em voz baixa,...Vai jantar aqui."

...o general Henrik  dava instruções a Nini (ama), enquanto esperava o convidado...

"- As velas - disse. - Lembras-te?...As velas azuis da mesa. Existem ainda? Acendam para o jantar e deixem-nas arder."

...sentaram-se à mesa e perdidos na última conversa, as velas arderam até ao fim...

....um romance brilhante de Sándor Márai....22.35h, Acabei agora mesmo de o ler, e sou obrigada acrescentar que é uma extraordinária reflexão sobre a amizade, a vida, as concepções, os preconceitos, o respeito, a admiração, a verdade, a mentira, a traição, as fraquezas, a vaidade, paixão.... Metade da obra é quase um monólogo perfeito e de introspecção...muito bonito, mesmo...